  
  
  
  A Frana, em 1661,  a maior potncia do Ocidente. Paris, na poca com 500 mil habitantes, a maior cidade da Europa. No entanto, enquanto a nobreza isola-se no 
luxo da corte, a capital assemelha-se a um teatro de horrores. Um quinto da populao, entrincheirada nos bairros medievais, nos chamados "Ptios dos Milagres", 
onde nem mesmo a polcia ousa aventurar-se, vive na misria e na marginalidade, cometendo livremente toda sorte de desordens, assassinatos e roubos, tanto de dia 
quanto de noite.
  Mas a impunidade tem seus dias contados. Com a morte do Cardeal Mazarino, Lus XIV assume o poder absoluto e passa a governar com mo de ferro. Disposto a tudo 
para reorganizar o pas sob seu comando, nivela as cabeas a golpe de foice. Sua primeira vitima  o poderoso ministro das Finanas, Nicolas Fouquet, pretenso candidato 
natural  sucesso do primeiro-ministro. "O Estado sou eu", sentencia o Rei-Sol ao tomar posse.
  Enquanto os grandes conspiram, traem e retornam s graas do soberano, ou ento so eliminados, Anglica, renegada pelos seus,  uma mulher sem nome. Estreitando 
os dois filhos ao corao, ela olha o futuro com temor. Que destino espera a doce menina de Monteloup na lama corrompida da velha capital?
  
  
  "Esta morte ser seu dote", arqueja o marginal. "Assim se compra uma bela no reino dos mendigos."
  Viva de um homem condenado  morte na fogueira por feitiaria, Anglica, sem bens nem fortuna, vagava pelas ruas geladas de Paris. Errante e sem destino, acabara 
se envolvendo com os mendigos que infestavam o domnio temvel e quase inacessvel do Ptio dos Milagres, onde nem mesmo a polcia ousava aventurar-se.
  A iniciao da doce Marquesa dos Anjos naquele ambiente sinistro ocorreria numa inquietante noite de inverno, num cemitrio, com a lua a iluminar o macabro cenrio 
de covas abertas e ossrios expostos. Logo ela descobriria os bandos rivais, cada qual com seu chefe e seu territrio, todos subordinados ao rei das sombras.
  Tambm nesse imprio das trevas a bela condessinha ocuparia um lugar de destaque - para sua grande surpresa, ao lado de algum muito querido na infncia, que a 
amara no passado e nunca a esquecera...

Ttulo: Anglica e o prncipe das trevas
Autor: Anne e Serge Golon
Ttulo original: 
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1989
Publicao original: 
Gnero: Romance Histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida
  
  Anglica e o prncipe das trevas
  Anne e Serge Golon
  
  Fevereiro de 1661. Expulsa de casa e abandonada por todos, Anglica errava sem destino pelas ruas geladas de Paris, onde pululavam mendigos e salteadores. Permaneciam 
vivas em sua memria as imagens do espetculo macabro que fora a execuo de seu marido, o Conde Joffrey de Peyrac, consumido na fogueira; aos gritos da multido 
ensandecida. Como se evadida do inferno, ela conseguira sobreviver  enfermaria infecta do Htel-Dieu, de onde poucos escapavam com vida. Aferrando-se ao desejo 
ardente de viver, ela sara de l levando o filho Cantor, recm-nascido, nos braos. Restava, no entanto, uma tarefa a cumprir. Ela jurara vingar-se de seus opressores. 
O monge Bcher, principal acusador de seu marido no tribunal, devia morrer!
  
  O PTIO DOS MILAGRES
  
  CAPTULO I
  
  Batalha dos mendigos no Cimetire des Saints-Innocents
  
  Anglica olhava, atravs da vidraa, o rosto do monge B-cher. Insensvel  neve derretida que gotejava do telhado sobre seus ombros, ela ficou, pela noite adentro, 
encostada  Taberna da Grade Verde.
  O monge achava-se amesendado diante de um pichei de estanho e bebia, com o olhar fixo.
  Anglica o via muito distintamente, malgrado o espesso vidro da janela. O interior da taberna estava pouco enfumaado. Os monges e os padres seculares, que constituam 
a principal clientela da Grade Verde, no tinham o gosto do cachimbo. Iam ali para beber e, sobretudo, para os jogos de damas e de dados.
  A jovem, que, a despeito do frio, permanecia imvel, em sua vigia obstinada, estava vestida pobremente. Sua roupa era de fusto grosseiro; uma touca de linho cobria-lhe 
os cabelos.
  Entretanto, quando a porta da taberna, abrindo-se, proje-tava uma faixa de luz sobre a soleira, podia-se distinguir um fino rosto, muito belo, muito plido, cuja 
distino provava a origem patrcia.
  Ainda no fazia muito tempo, aquela mulher fora um dos mais belos ornamentos da luxuosa corte do jovem Lus XIV. L, danara vestida de tecido de ouro, envolta 
pelo fogo admirativo dos olhares que sua beleza atraa.
  Chamava-se Anglica de Sanc de Monteloup. Aos dezes-sete anos, seus pais haviam-na casado com um grande senhor tolosano, o Conde Joffrey de Peyrac.
  Por que caminhos terrveis e imprevistos seu destino a havia conduzido para l, naquela noite miservel, onde, grudada nas vidraas de uma taberna, vigiava o objeto 
de seu dio?
  Contemplando a fisionomia sinistra do monge Bcher, Anglica revivia o calvrio de seus ltimos meses, o pavoroso pesadelo em que se debatera.
  Voltava a ver o Conde de Peyrac, seu marido, aquele homem estranho e sedutor, a despeito da desgraa de uma perna doente, que lhe rendera o apelido de Grande Coxo 
do Languedoc.
  Grande sbio tambm^ grande artista, grande esprito, grande em tudo, atraa a simpatia e o amor, e sua jovem esposa, de incio rebelde, se transformara numa mulher 
apaixonadamente dedicada.
  Mas a fabulosa riqueza do Conde de Peyrac tambm suscitava invejas.
  Ele fora objeto de um compl que o rei, temendo o poderoso vassalo, apoiara. Acusado de feitiaria, preso na Bastilha, o conde fora entregue a um tribunal inquo 
e condenado  fogueira.
  Ela vira o monge mandar queimar na Place de Greve aquele a quem amava!
  Vira a chama da fogueira misturar-se ao ouro do sol, no ar cristalino de uma manh de inverno, havia pouco.
  Ficara s, negada por todos, condenada a desaparecer com seus dois filhos.
  As carinhas de Florimond e Cantor passaram ante seus olhos. As plpebras bateram. Por um momento deixou de perscrutar atravs da vidraa, e a cabea lhe pendeu, 
cansada.
  Florimond estaria chorando? Chamaria algum? Pobre anjo! No tinha mais pai nem me...
  Ela os deixara em casa de sua irm Hortnsia, a despeito dos gritos desta. A Sra. Fallot, mulher do procurador, ficara apavorada ante a ideia de abrigar a prole 
de um feiticeiro. Expulsara Anglica com horror. Felizmente, havia Brbara, a criada de corao generoso. Ela teria pena dos pobres rfos...
  Anglica errara durante muito tempo, sem destino, atravs de uma Paris noturna e coberta de neve que se abria  noite, covil de bandidos e teatro de emboscadas 
e crimes. O acaso a tinha conduzido  Taberna da Grade Verde, onde o monge Bcher acabava de se introduzir, com ar espantado, e procurava esquecer, bebendo, as labaredas 
da fogueira que ele provocara.
  Subitamente Anglica se reanimou. No, ela no estava completamente vencida. Pois ainda lhe restava uma tarefa a cumprir. O monge Bcher devia morrer!
  Anglica no tremeu. Somente ela sabia por que o monge Bcher devia morrer. Via nele o smbolo de tudo que Jof-frey de Peyrac reprovara durante sua vida: a estupidez 
humana, a intolerncia e aquela sobrevivncia da sofstica medieval, contra a qual ele debalde procurara defender as cincias novas. E era aquele esprito apoucado, 
perdido em uma dialtica trevosa e arcaica, que havia triunfado. Joffrey de Peyrac estava morto.
  Mas antes de morrer ele gritara a Conan Bcher no adro de Notre-Dame:
  -        Dentro de um ms nos encontraremos diante do tribunal de Deus!
  O prazo estava expirando...
  -        Voc faz mal em permanecer em p tanto tempo numa noite como esta.. No tem uma moeda para me dar?
  Anglica voltou-se, procurando quem lhe dirigia essas palavras, e no viu ningum. De sbito, no entanto, a lua, passando entre duas nuvens, mostrou-lhe a seus 
ps a forma achaparrada de um ano. Este ergueu dois dedos entrecruzados de maneira estranha. A jovem recordou-se do gesto que o mouro Kuassi-Ba lhe havia ensinado 
certo dia, dizendo-lhe: " s cruzar os dedos assim, e meus amigos dizem: Est bem, voc  dos nossos!"
  Maquinalmente ela repetiu o sinal de Kuassi-Ba. Um largo sorriso fendeu o rosto do pigmeu.
  -        Voc  do bando, eu bem que desconfiava! Mas no a reconheo. Voc pertence a Rodoguno, o Egpcio, ao soldado Joo Banguela, ao Jaqueta Azul ou ao Corvo?
  Sem responder, Anglica recomeou a examinar o monge Bcher atravs do vidro. De um salto o ano pulou para o peitoril. A claridade que vinha da taberna alumiou-lhe 
a gorda face e o chapu seboso. Ele tinha mos redondas e carnudas e ps pequenssimos, calados em sapatos de pano, como os que usam as crianas.
  - Onde est esse cliente de quem voc no tira os olhos?
  - Ali,  aquele que est sentado no canto.
  - Voc acredita que esse velho saco de ossos, com um olho mandando o outro  merda, pagar caro por seus pesares?
  Anglica respirou profundamente.
  -        Aquele homem  quem eu devo matar - disse ela.
Rapidamente o ano passou-lhe um brao gil em torno da cintura.
  -        Voc nem sequer traz sua faca. Como o far?
  Pela primeira vez, a jovem olhou atentamente para aquela estranha criatura que acabava de surgir das pedras como um rato, como um dos repugnantes animais da noite 
pelos quais Paris era invadida  proporo que as trevas se tornavam mais profundas.
  -        Venha comigo, marquesa - disse bruscamente o pitorra, saltando para o cho. - Vamos at o Saints-Innocents.
L, Yoc se entender com os camaradas para fazer acertar o seu frade.
  Ela seguiu-o sem a mnima hesitao. O ano precedia-a bamboleando.
  -        Eu me chamo Barcarola - disse ele aps alguns instantes. - No  um nome gracioso, to gracioso quanto eu? Uh! Uh!
  Soltava gritos alegres e deu uma cabriola. Depois, amassando uma bola de neve e de lama, atirou-a  janela de uma casa.
  -        Vamos dar o pira, minha cara - continuou ele, estugando o passo. - Do contrrio, vamos receber sobre a cabea o urinol desses bons burgueses que ns impedimos 
de dormir.
  Mal acabou de falar, abriu-se uma janela e Anglica teve de dar um pulo para o lado a fim de evitar a ducha anunciada.
  O ano havia desaparecido. Anglica continuou a caminhar. Seus ps afundaram-se na lama e suas vestes estavam midas, mas ela no sentia frio.
  Um leve assovio atraiu sua ateno para a abertura de um esgoto. Surgindo do buraco, reapareceu o ano Barcarola.
  -        Perdoe-me ter deixado de fazer-lhe companhia, marque
sa. Fui procurar meu amigo Janin Traseiro de Pau.
  Atrs dele, uma segunda silhueta pequena surgiu do esgoto. No era um ano, mas um aleijado, um homem-tronco, instalado sobre uma enorme cuia de madeira. Com suas 
mos nodosas, empunhava tacos de madeira sobre os quais se apoiava para mover-se.
  O monstro ergueu para Anglica um olhar escrutador. Tinha uma face bestial, rebentando em pstulas. Seus cabelos raros estavam cuidadosamente arrumados sobre o 
crnio luzidio. Sua nica vestimenta era composta de uma espcie de casaco de pano azul, com botoeiras e lapelas agaloadas de ouro, que devia ter pertencido a um 
oficial. Com um peitilho impecvel, ele compunha uma personagem extraordinria. Depois de examinar demoradamente a jovem, escarrou sobre ela. Anglica olhou-o com 
espanto, depois limpou-se com um punhado de neve.
  - Est bem - disse o aleijado, satisfeito. - Ela sabe com quem fala.
  - Falar? Hum! Que esquisita maneira de falar! - exclamou Barcarola.
  E explodiu em seu riso ululante:
  - Uh! Uh! Como eu tenho esprito.
  - D-me meu chapu - disse Traseiro de Pau. Cobriu-se com um chapu de feltro guarnecido de belas
  plumas. Depois, apanhando seus punhos de madeira, ps-se a caminhar.
  - Que  que ela quer? - perguntou ele aps alguns momentos.
  - Que a ajudem a matar um frade.
  -  impossvel. A quem pertence ela?
  - No posso saber...
  A medida que eles avanavam atravs das ruas, outros vultos se lhes juntavam. Ouviram-se primeiramente assovios partidos dos cantos escuros, das ribanceiras ou 
do fundo dos ptios. Depois surgiram mendigos de longas barbas, ps descalos e amplos casacos andrajosos; velhas que no eram mais do que pacotes de trapos amarrados 
com barbantes e grossos teros; cegos e coxos que punham suas muletas ao ombro para andar mais depressa; corcundas que no tinham tido tempo de retirar suas gibas. 
Alguns autnticos miserveis e autnticos aleijados se misturavam aos falsos mendigos.
  Anglica tinha dificuldade em compreender a linguagem deles, toda recheada de palavras estranhas. Numa encruzilhada, um grupo de espadachins de bigodes conquistadores 
abeirou-os. Ela sups que fossem militares, ou talvez homens da ronda, mas logo percebeu que se tratava de bandidos disfarados.
  Foi nesse instante,  vista dos olhos de lobo dos recm-chegados, que ela teve um movimento de recuo. Lanou um olhar para trs, viu-se rodeada de formas hediondas.
  -        Est com medo, minha bela? - perguntou um dos bandidos passando-lhe o brao em volta da cintura.
  Ela afastou o brao indiscreto, dizendo:
  -        No! - E, como o homem insistisse, deu-lhe uma bofetada.
  Ele teve uma reao diante da qual Anglica se perguntou o que ele ia fazer. Mas no tinha medo. O dio e a revolta, que havia muito se achavam latentes em sua 
alma, concentravam-se num terrvel desejo de morder, de arranhar, de furar olhos. Precipitada ao fundo do abismo, eis que ela se encontrava sem dificuldade ao nvel 
das feras que a cercavam.
  Foi o estranho Traseiro de Pau que restabeleceu a ordem, com sua autoridade e seus berros furiosos. O homem-tronco possua uma voz cavernosa que fazia estremecer 
os companheiros e acabava por dominar a todos.
  Suas palavras veementes apaziguaram a querela. Olhando o espadachim que a tinha provocado, Anglica viu que seu rosto estava sulcado por filetes de sangue e que 
ele tinha uma das mos sobre os olhos. Mas os outros riam.
  -        Ah, ah, ah! A pequena lhe fez uma boa!
  Anglica riu tambm; era um riso provocante que surpreendeu a ela prpria. Isso no era mais difcil do que marchar para o fundo do inferno? Quanto ao medo... 
Afinal de contas, que  o medo?  um sentimento que no existe. Muito bom para essa brava gente de Paris que tremia ao ouvir passar sob suas janelas os mendigos 
da matterie a caminho do Cimetiere des Saints-Innocents para ver seu prncipe, o Grande Coesre.
  - A quem pertence ela? - perguntou ainda algum.
  - A ns! - rugiu Traseiro de Pau. - E que todos o fiquem sabendo.
  Deixaram-no ir adiante. Nenhum dos mendigos, embora fosse dotado de um par de pernas geis, procurava ultrapassar o homem-tronco. Em uma ruela em aclive, dois 
falsos soldados, que eram chamados drilles, precipitaram-se para carregar a cuia do aleijado e lev-lo mais longe.
  O odor do quarteiro tornava-se penetrante, espantoso: carne e queijos, legumes que apodreciam nas valas e, principalmente, um cheiro de putrefao. Era o quarteiro 
dos Halles, selado pelo horrvel devorador de carne: o Cimetiere de Saints-Innocents.
  Anglica nunca havia ido ao Innocents, embora esse lugar macabro fosse um dos mais populares locais de encontro de Paris. E ali se encontravam mesmo grandes damas 
que iam escolher livros ou roupa-branca nas lojas instaladas sob os ossurios.
  Era um espetculo familiar, durante o dia, ver senhores elegantes e suas amantes irem, de arcada em arcada, afastando negligentemente com a ponta de suas bengalas 
caveiras ou ossos esparsos, enquanto os enterros passavam por eles salmodiando.
  A noite, aquele stio privilegiado, onde no se podia, por tradio, prender ningum, servia de refgio aos gatunos e salteadores, e os libertinos iam ali escolher, 
entre as prostitutas, as suas companheiras de devassido.
  Quando chegaram diante do recinto, cuja muralha derruda em vrios lugares permitia penetrar no interior, um cam-painheiro dos mortos saiu pela grade principal, 
vestido com sua levita negra bordada de caveiras, tbias entrecruzadas e lgrimas de prata. Percebendo o grupo, ele disse calmamente:
  -        Aviso-lhes de que h um morto na Rue de la Ferronnerie e que estio pedindo pobres para o cortejo amanh. Daro a cada um dez soldos e uma saia ou um casaco 
negro.
  -        Eu vou, eu vou! - gritaram algumas velhas desdentadas.
Por pouco no foram postar-se imediatamente defronte da casa do defunto, mas os outros as censuraram e Traseiro de Pau rugiu uma vez mais, injuriando-as:
  -        Merda! No vamos ocupar-nos de nosso trabalho e de nossos pequenos negcios, quando o Grande Cosre nos espera! Ter eu agora de me aporrinhar com essas 
bruxas! Os costumes passam, eu lhes afirmo!
  As velhas, confusas, baixavam a cabea e batiam o queixo. Depois, cada um, por um buraco ou por outro, penetrou no cemitrio.
  O campainheiro afastou-se, agitando a sineta. Na encruzilhada, ele se deteve, levantou o rosto para a lua e salmodiou lugubremente:
  "Interrompam seu sono,
  Roguem a Deus pelos mortos..."
  Anglica, com os olhos arregalados, avanou atravs da vasta rea repleta de cadveres. Aqui e ali havia extensas valas comuns abertas, j meio cheias de corpos 
cosidos em seus sudrios e que esperavam novo contingente de mortos para serem fechadas.
  Algumas esteias, algumas lajes, colocadas diretamente no solo, marcavam as sepulturas das famlias mais abastadas. Mas era este, havia sculos, o cemitrio dos 
pobres. Os ricos eram enterrados no de Saint-Paul.
  A lua, que havia, afinal, resolvido reinar em um cu sem nuvens, ainda alumiava a fina camada de neve que recobria o telhado da igreja e dos edifcios prximos.
  A cruz dos Buteaux, que era um alto crucifixo de metal erguido perto do plpito, no centro do terreno, luzia fracamente.
  O frio atenuava o odor nauseabundo. Ningum, alis, dava importncia a isso, e a prpria Anglica respirava com indiferena aquele ar saturado de miasmas.
  O que atraa seu olhar, e a aturdia a tal ponto que ela tinha a impresso de ser vtima de pesadelo, eram as quatro galerias que, partindo da igreja, formavam 
o recinto do cemitrio.
  Essas edificaes, que datavam da Idade Mdia, compunham-se, nos seus envasamentos, de um claustro com arcadas em ogiva, onde, ao amanhecer, os mercadores exibiam 
os seus cabazes.
  Mas, acima do claustro, e por fora deste, encontravam-se depsitos cobertos de telhas e que assentavam sobre pilares de madeira, deixando, assim, intervalos descobertos 
entre os telhados e as abbadas. Todo esse espao estava repleto de ossos. Milhares e milhares de caveiras e restos de esqueletos amontoavam-se ali. Os celeiros 
da morte, transbordantes de sua colheita sinistra, expunham aos olhares e  meditao dos vivos inauditos acervos de crnios qu as correntes de ar secavam e o tempo 
reduzia a p. Mas, sem descanso, novas provises, extradas da terra do cemitrio, os substituam.
  De fato, um pouco por toda parte, perto das sepulturas, viam-se pilhas de esqueletos reunidos em feixes, ou as sinistras bolas brancas das caveiras, cuidadosamente 
arrumados pelo coveiro e que, pouco depois, seriam colocados nos depsitos acima do claustro.
  -        Que ... que  isso? - balbuciou Anglica, para quem tal viso no podia pertencer  realidade, e que acreditava estar ficando louca.
  Trepado numa campa, o ano Barcarola a olhava com curiosidade.
  -        Os ossurios! - respondeu ele. - Os ossurios do Innocents! Os mais belos ossurios de Paris!
  E aps um curto silncio acrescentou:
  -        De onde vem voc? Nunca viu nada?
Ela foi sentar-se junto dele.
  Depois que ela quase inconscientemente agatanhou o rosto do drille, deixaram-na em paz e no mais lhe falaram.
  Se olhares curiosos ou lascivos se voltavam para ela, havia imediatamente uma voz que lembrava:
  -        Traseiro de Pau disse: "Ela  nossa". Cuidado, rapazes!
  Anglica no percebia que, a seu redor, o espao do cemitrio, ainda semideserto um momento antes, se enchia pouco a pouco de uma multido andrajosa e temvel.
  Os ossurios monopolizavm-lhe a ateno. Ela no sabia que aquele gosto macabro de amontoar esqueletos era peculiar de Paris. Todas as grandes igrejas da capital 
procuravam fazer concorrncia ao Innocents. Anglica achava aquilo horrvel, mas Barcarola achava-o magnfico. O ano murmurou:
  
  "...A morte enfim os afronta.
  Que horror morrer para o mundo
  E no saber para onde se vai!"
  Anglica voltou-se lentamente para ele.
  - Voc  poeta?
  - No sou eu quem fala assim, mas o Poeta Pobre.
  - Voc o conhece?
  - Se o conheo! E o poeta do Pont Neuf.
  - Esse tambm eu quero matar. O ano saltou como um sapo.
  - O qu? Nada de graola. Ele  meu camarada.
  O ano olhou em volta de si e, pondo um dedo sobre a fronte, tomou os outros como testemunhas:
  -        Ela est louca! Deseja matar todo mundo.
Levantaram-se sbitos clamores, e a multido abriu caminho a um estranho cortejo.
  A frente marchava um indivduo muito alto e magro, cujos ps nus pisavam a curtas e rpidas passadas a neve lamacenta. Uma abundante cabeleira branca descia-lhe 
sobre as espduas, mas seu rosto era glabro. Dir-se-ia uma mulher velha, e talvez, afinal de contas, no fosse um homem, a despeito de suas calas e de seu casaco 
em frangalhos. Com seus pmulos salientes e os olhos embaciados e glaucos no fundo das rbitas cavadas, ele era to desprovido de sexo como um esqueleto, e estava 
bem de acordo com aquele ambiente lgubre. Carregava uma comprida lana, de cuja ponta pendia, empalado, o corpo de um co.
  Perto dele, um homenzinho rechonchudo e imberbe brandia uma vassoura.
  Atrs desses dois estranhos porta-estandartes vinha um san-fonineiro que girava a manivela de seu instrumento. A originalidade do executante consistia em seu enorme 
chapu de palha, que lhe descia quase at os ombros. Mas ele havia feito um orifcio na parte da frente, e por ali se via brilharem seus olhos zombeteiros. Era seguido 
por um garoto que batia aceleradamente sobre o fundo de uma bacia de cobre.
  -        Quer que lhe diga o nome desses trs clebres cavalheiros? - perguntou o ano a Anglica.
  E acrescentou, piscando o olho:
  - Voc conhece a senha, mas bem vejo que no  dos nossos. Os que vm na frente so o Grande Eunuco e o Pequeno Eunuco. H anos que o Grande Eunuco se acha s 
portas da morte, mas no morre. O Pequeno Eunuco  o vigia das mulheres do Grande Cosre. Ele carrega a insgnia do rei de Thunes.
  - Uma vassoura?
  - Psiu! No zombe. A vassoura destina-se a fazer uma boa limpeza da casa. Atrs deles vm Thibault, o Sanfonineiro, e seu pajem Linot. Em seguida, vm as mulheres 
do rei de Thunes.
  Sob toucas sujas, as mulheres que ele indicava mostravam suas faces inchadas, suas olheiras de prostitutas. Algumas ainda eram belas e todas olhavam em derredor 
com insolncia. Mas somente a primeira, uma adolescente, quase uma criana, tinha algum frescor. Malgrado o frio, ela estava com o busto nu e exibia com orgulho 
seus jovens seios j bem desenvolvidos.
  Vinham a seguir os portadores de tochas, os mosqueteiros armados de espadas, os mendigos e os falsos peregrinos de So Tiago. Depois, em um ranger de eixos, apareceu 
um pesado carrinho puxado por um gigante de olhar vago e lbio proeminente.
  -         Bavottant, o idiota do grande Coesre - anunciou o ano.
  Atrs do idiota, uma personagem de barba branca fechava a marcha, coberta por uma levita negra, cujos bolsos estavam recheados de rolos de pergaminho. De sua cintura 
pendiam trs varetas, um tinteiro de chifre e penas de ganso.
  -  Pedro Barbaas, o arquissequaz do Grande Coesre, o que faz as leis do reino de Thunes.
  - E esse Grande Coesre, onde est?
  - No carrinho.
  -        No carrinho? - repetiu Anglica, estupefata.
Ela esticou-se um pouco, a fim de ver melhor.
  O carrinho tinha parado em frente ao plpito. Era assim chamada, no meio do cemitrio, uma tribuna erguida sobre alguns degraus e coberta por um teto piramidal.
  O idiota Bavottant inclinou-se e apanhou no carrinho um objeto, depois sentou-se no topo da escada e pousou o obje-to sobre os joelhos.
  -        Meu Deus! - suspirou Anglica.
  Ela via o Grande Coesre. Era um ser de busto monstruoso, terminado por pernas finas e brancas de menino de dois anos. A cabea possante era guarnecida de uma cabeleira 
hirsuta e negra, atada por um pano sujo, que lhe escondia a pu-rulncia. Os olhos profundamente enterrados sob espessas sobrancelhas brilhavam duramente. Usava um 
grande bigode negro de pontas reviradas.
  -        Eh! Eh! - chacoteou Barcarola, deliciando-se com a surpresa de Anglica. - Voc aprender, garota, que entre ns os pequenos dominam os grandes. Sabe 
quem ser talvez Grande Coesre, quando Rolin Tarraco morrer?
  Ele segredou ao ouvido dela:
  -        Traseiro de Pau.
  Depois, sacudindo a cabeprra:
  -         uma lei da natureza.  preciso miolo para reinar sobre a matterie.  o que falta quando se tem um par de pernas. Que pensa voc disso, P Ligeiro?
  O chamado P Ligeiro sorriu. Acabava de sentar-se na beira da sepultura e ps uma das mos sobre o peito, como se sofresse. Era um homem muito jovem, que tinha 
o ar doce e simples. Disse, com voz anelante:
  -        Tem razo, Barcarola.  melhor ter cabea do que ter pernas, pois, quando as pernas nos deixam, nada mais nos resta.
  Anglica olhou com admirao as pernas do rapaz, que eram longas e musculosas.
  Ele sorriu com melancolia.
  - Oh! Elas continuam comigo. Mas  com dificuldade que consigo mov-las. Eu era corredor do Sr. de La Sabliere. Um dia em que percorri cerca de vinte lguas, meu 
corao afrouxou. E depois no mais pude caminhar.
  - Voc no pode mais caminhar porque correu demais! - exclamou o ano com uma cabriola. - Uh! Uh! Uh! Que gracioso!
  - Cale a boca, Barco! - repreendeu uma voz.
  Um punho slido agarrou o ano pelo casaco e atirou-o sobre uma pilha de ossos.
  -        Este aborto enche, no , beleza?
  O homem que acabava de intervir inclinou-se para Anglica. Fatigada de tantas deformidades e horrores, a jovem encontrou na beleza do recm-vindo uma espcie de 
alvio. Distinguia-lhe mal o rosto, oculto pela sombra de um grande chapu de feltro adornado por delgada pluma. Entretanto, vislumbravam-se-Ihe traos regulares, 
grandes olhos, uma boca harmoniosa. Era jovem, na plenitude de sua fora. Sua mo, muito morena, estava pousada sobre a guarda de um longo punhal pendurado em seu 
cinturo.
  -        Que faz voc aqui, beleza? - perguntou ele com voz cariciosa, com um sutil acento estrangeiro.
  Ela no respondeu e olhou desdenhosamente ao longe.
  Sobre os degraus do plpito, diante do Grande Cosre e de seu gigante idiota, acabavam de pr a bacia de cobre que pouco antes servira de tambor ao menino.
  E os mendigos avanavam, uns aps outros, para depositar na bacia o imposto exigido pelo prncipe.
  Cada um era taxado conforme sua especialidade. O ano, que se havia reaproximado de Anglica, esclarecia-a em voz baixa sobre os ttulos de toda aquela multido 
de mendicantes, que, desde o comeo da existncia de Paris, havia codificado a explorao da caridade pblica.
  Ele apontava-lhe os rifods, que, decentemente vestidos e afetando um ar envergonhado, estendiam a mo e contavam aos transeuntes que eram outrora pessoas honradas 
que haviam tido as casas incendiadas e os bens pilhados pela guerra. Os mercandiers faziam-se passar por antigos mercadores despojados pelos bandidos dos grandes 
caminhos, e os con-vertis confessavam que tinham sido tocados pela graa divina e iam tornar-se catlicos. Aps receberem o bolo, partiriam para converter-se em 
outra parquia.
  Os drilles e os narquois, antigos soldados, pediam esmola com a ponta da espada, ameaando e assustando os bons burgueses, enquanto os orphelins, pequenas crianas 
que se davam as mos e choravam de fome, procuravam enternec-los.
  Toda aquela pedintaria respeitava o Grande Cosre porque ele mantinha a ordem entre os bandos rivais. . Soldos, escudos e at moedas de ouro caam na bacia.
  O homem de pele trigueira no tirava os olhos de Anglica. Aproximou-se dela, acariciou-lhe a espdua. Ela esboou um gesto de recuo, e ele disse precipitadamente:
  - Eu sou Rodoguno, o Egpcio. Tenho quatro mil pessoas  minha disposio em Paris. Todos os ciganos que passam me pagam imposto, e tambm as mulheres morenas 
que lem o futuro na mo. Quer ser uma das minhas mulheres?
  Ela no respondeu. A lua viajava por cima do campanrio da igreja e dos ossurios. Diante do plpito continuava o desfile dos aleijados, falsos ou verdadeiros, 
daqueles que se mutilavam de propsito para despertar a compaixo, e daqueles que, cada a noite, podiam dar folga s muletas e ataduras. Era por isso que haviam 
dado ao seu covil o nome de Ptio dos Milagres.
  Vindos da Rue de la Truanderie, dos faubourgs Saint-Denis, Saint-Martin, Saint-Marcel, da Rue de la Jussienne e de Saint-Marie Pgyptienne, os tinhosos, os raquticos, 
os fracos, os sabouleux, os cajons e finalmente os francs-mitous, que vinte vezes por dia tombavam moribundos no vo de uma porta, depois de terem atado o brao 
com um barbante, a fim de acelerar os batimentos do pulso, lanavam, um aps outro, seu donativo diante do pavoroso idolozinho cuja autoridade aceitavam.
  Rodoguno, o Egpcio, pousou novamente a mo sobre a espdua de Anglica. Dessa vez ela no se esquivou. A mo era quente e viva, e a jovem tinha tanto frio! O 
homem era forte e ela era frgil. Ela voltou os olhos para ele e procurou na sombra do chapu os traos daquele rosto que no lhe inspirava o mnimo horror. Via 
brilhar o branco dos longos olhos de bomio. Ele soltou uma praga entre dentes e apoiou-se pesadamente sobre ela.
  - Quer ser "marquesa"?
  - Voc me ajudar a matar algum? - perguntou ela. O bandido inclinou a cabea para trs com um riso atroz
  e silencioso.
  -        Dez, vinte pessoas, se quiser! Voc ter de mostrar-ma, e juro que at o amanhecer ela ter largado as tripas no cho.
  Cuspiu na mo e estendeu-a para ela.
  -        Toque, estamos de acordo.
  Mas ela ps as prprias mos atrs das costas, sacudindo a cabea.
  -        Ainda no.
  O outro praguejou de novo, depois afastou-se, olhando para Anglica.
  -        Voc  cabeuda - disse ele. - Mas eu a quero e voc ser minha.
  Anglica passou a mo sobre a testa. Quem j lhe havia dito aquelas palavras perversas? Ela no se recordava mais.
  Surgiu uma rixa entre dois soldados. Terminado o desfile dos mendigos, o desfile dos vadios punha em cena agora os piores bandidos da capital, no somente os "rapa-bolsas" 
e os ladres de agasalhos, mas tambm os assassinos assalariados, os ladres e violadores de fechaduras, aos quais se misturavam estudantes dissolutos, criados, 
antigos gals e toda uma multido de estrangeiros atirados ali pelos azares das guerras: espanhis e irlandeses, alemes e suos, e tambm ciganos.
  Viam-se naquela assembleia plenria da mendicncia muito mais homens do que mulheres, e nem todos tinham vindo, ainda. Por vasto que fosse, o Cimetire des Saints-Innocents 
no poderia conter todos os deserdados da sorte e prias da cidade.
  De repente, os arquissequazes do Grande Cosre apartaram a turba a golpes de varas e abriram passagem em dire-o  tumba em que se apoiava Anglica. Esta, vendo 
rumar para ela aqueles homens mal barbeados, compreendeu que era a ela que buscavam. O velho chamado Pedro Barbaas marchava  frente.
  -        O rei de Thunes pergunta quem  essa jovem - disse ele mostrando Anglica.
  Rodoguno passou um brao em volta da cintura de sua companheira.
  -        Fica quieta - sussurrou ele. - Vamos arranjar isso.
Ele arrastou-a em direo ao plpito, apertando-a sempre contra si. Lanava olhares ao mesmo tempo arrogantes e suspeitosos sobre a multido, como se acreditasse 
que um inimigo surgiria para arrebatar-lhe a presa.
  Suas botas eram de belo couro e seu casaco, de um pano sem remendos. O esprito de Anglica registrava esses detalhes sem que ela tivesse conscincia disso. O 
homem no lhe causava medo. Ele estava habituado  fora e ao combate. Anglica submetia-se ao seu domnio como uma mulher vencida que no pode passar sem um dono.
  Chegado diante do Grande Cosre, o Egpcio estendeu o pescoo para a frente, cuspiu e disse:
  - Eu, Duque do Egito, fico com esta para marquesa. E, com gesto largo, atirou um bolsa dentro da bacia.
  - No! - disse uma voz calma e brutal. Rodoguno voltou-se de um salto.
  - Calembredaine!
  A alguns passos, ao luar, estava o homem de lobinho violeta que, por duas vezes j, se atravessara, zombeteiramente, no caminho de Anglica.
  Era to alto como Rodoguno e mais corpulento. Suas roupas em farrapos deixavam ver os braos musculosos e um torso peludo. Bem plantado sobre as pernas afastadas, 
os polegares enfiados no cinturo de couro, ele encarava o zngaro com insolncia. Seu corpo de atleta era mais jovem que sua face abjeta, invadida pelas brenhas 
de uma gaforina grisalha. Atravs das mechas sujas, seu nico olho brilhava. O outro estava oculto por uma venda negra.
  A lua o iluminava plenamente, e atrs dele cintilava a neve sobre as coberturas dos ossurios.
  "Oh! Que horrvel este lugar!", pensou Anglica. "Que horrvel este lugar!"
  Ela encostou-se em Rodoguno. O Duque do Egito estava ocupado em enderear um rosrio de injrias ao seu adversrio impassvel.
  - Cachorro! Filho de cadela! Libertino do diabo! Animal podre! Isto acabar mal... Um de ns est sobrando...
  - Cale a boca! - respondeu Calembredaine.
  Depois cuspiu na direo do Grande Cosre, o que parecia ser a homenagem tradicional, e lanou na bacia de cobre uma bolsa mais pesada que a de Rodoguno.
  Um riso sbito sacudiu o miservel pigmeu sentado nos joelhos do idiota.
  -        Tenho uma vontade louca de pr essa bela em leilo!
- exclamou ele com voz rouca. - Despi-a, para que os rapazes possam julgar a mercadoria.
  Os mendigos uivaram de alegria. Mos hediondas estenderam-se para Anglica. O Egpcio puxou-a para trs de si e sacou seu punhal. Nesse instante, Calembredaine 
abaixou-se e lanou um projtil redondo e branco, que atingiu seu adversrio no punho.
  O projtil rolou. Anglica viu, horrorizada, que era uma caveira.
  O Egpcio tinha deixado cair seu punhal. Calembredaine atracou-se com ele. Os dois bandidos apertavam-se to violentamente que seus ossos estalavam. Depois rolaram 
na lama.
  Iniciou-se assim uma batalha atroz. Os representantes dos cinco ou seis bandos rivais de Paris atiraram-se uns contra os outros. Os que tinham espadas ou punhais 
feriam a esmo e o sangue corria. Os outros, imitando Calembredaine, apanhavam caveiras e atiravam-nas como projteis.
  Anglica, de um salto, misturou-se  multido, procurando fugir.
  Mas punhos slidos a seguraram e arrastaram at diante do plpito, onde a mantiveram os arquissequazes do Grande Cosre. Este, impassvel, observava o combate, 
torcendo os bigodes.
  Pedro Barbaas tinha apanhado a bacia e apertava-a contra si.
  O idiota Bavottant e o Grande Eunuco riam sinistramente. Thibault, o Sanfonineiro, girava sua manivela, cantando a plenos pulmes.
  As velhas mendicantes, empurradas, pisoteadas, soltavam gritos de harpias.
  Anglica percebeu um velho estropiado, munido de uma perna s, e que desferia, com sua muleta, repetidos golpes sobre a cabea de Traseiro de Pau, como se quisesse 
cravar-lhe pregos. Uma durindana atravessou-lhe o ventre, e ele desabou sobre o aleijado.
  Barcarola e as mulheres do Grande Cosre haviam-se refugiado sobre a cobertura de um ossuario e aproveitavam a ampla reserva de caveiras para bombardear o campo 
de batalha.
  A todos aqueles gritos estridentes, aos uivos, aos gemidos, misturavam-se agora os clamores dos habitantes da Rue aux Fers e da Rue de la Lingerie, que, debruados 
em suas janelas, acima daquele caldeiro de feitiaria, invocavam a Virgem Maria e apelavam para os homens da guarda.
  A lua descia para o horizonte.
  Rodoguno e Calembredaine prosseguiam sua luta de ces raivosos. Os golpes se sucediam. Os dois homens tinham foras iguais. De sbito, ouviu-se um grito geral 
de estupor.
  Rodoguno havia desaparecido como por encanto. O pnico e o medo de um milagre invadiram a assistncia, composta exclusivamente de mpios. Mas ouviram-se gritos 
de Rodoguno. Um murro de Calembredaine lanara-o ao fundo de uma das grandes valas comuns do cemitrio. Recobrando os sentidos entre os mortos, ele suplicava que 
o tirassem dali.
  Um riso homrico sacudiu os espectadores mais prximos e propagou-se aos demais.
  Os artesos e os obreiros das ruas vizinhas ouviram, com a fronte coberta de suor, aquele riso enorme suceder aos gritos de morte. Olhando pelas janelas, as mulheres 
faziam o sinal-da-cruz.
  De repente, um sino argnteo soou, anunciando o ngelus.
  Uma rajada de blasfmias e obscenidades subiu do cemitrio para a noite cinza, enquanto os sinos de todas as igrejas se punham a repicar.
  Era preciso fugir. Assim como as corujas ou os demnios temiam a luz, as criaturas da matterie deixaram o recinto do Cimetire des Saints-Innocents.
  Naquela alvorada suja e graveolente, que comeava a tingir-se de rosa como de sangue anmico, Calembredaine erguia-se diante de Anglica e a contemplava rindo.
  - Ela  sua - disse o Grande Cosre.
  Recuando de novo, Anglica correu para as grades. Mas as mesmas mos violentas a alcanaram e paralisaram-na. Uma mordaa de trapos a sufocou. Ela ainda se debateu, 
e depois mergulhou na inconscincia.
  
  CAPTULO II
  
  Anglica em poder de Calembredaine - Morte horrvel do Monge Bcher
  
  -No tenha medo de nada - disse Calembredaine. Ele estava sentado em um escabelo, diante dela, com as mos enormes apoiadas sobre os joelhos. No cho, uma vela, 
em um belo castial de prata, lutava contra a plida claridade do dia.
  Anglica mexeu-se e viu que estava estendida sobre um catre em que se amontoava um impressionante nmero de casacos de todos os tecidos e de todas as cores. Havia-os 
luxuosos, de veludo guarnecido de ouro, semelhantes aos que os jovens senhores envergavam para ir tocar guitarra sob as janelas de suas amantes, e outros de grosso 
fusto, vestimentas confortveis de viajantes ou de mercadores.
  -        No tenha medo de nada... Anglica - repetiu o bandido.
Ela ergueu para ele uns olhos dilatados. Sua mente se perturbava. Ele falara em pato do Poitou, e ela o entendera!
  Ele levou a mo ao rosto e arrancou a excrescncia de carne que tinha sobre a bochecha. Ela no pde evitar um grito nervoso. Mas ele j lanara para trs seu 
chapu imundo, a que estava presa uma peruca de cabelos desgrenhados. Depois, retirou a venda negra.
  Agora, Anglica tinha diante de si um jovem de traos rudes, cujos cabelos negros e curtos se encaracolavam acima da fronte quadrada. Afundados sob as sobrancelhas 
espessas e emaranhadas, olhos escuros espreitavam a jovem, e sua expresso no era destituda de ansiedade.
 Anglica levou a mo  garganta: respirava com dificuldade. Gostaria de gritar, mas sentia-se incapaz. Balbuciou, enfim, como um surdo-mudo que move os lbios mas 
ignora o som de sua voz:
 -        Ni...co...lau.
 Um sorriso distendeu os lbios do homem.
 -        Sim, sou eu. Voc me reconheceu?
 Ela deitou um olhar aos objetos imundos que jaziam no cho, perto do escabelo: a peruca, a venda negra...
 -        E...  a voc tambm que chamam Calembredaine?
Ele se empertigou e deu um murro violento no peito.
 -         a mim. Calembredaine, o ilustre libertino do Pont Neuf.
 Ela o olhava. Ainda se achava estendida sobre o catre de velhos agasalhos e no podia fazer um movimento. Por uma seteira gradeada, o nevoeiro, espesso como fumaa, 
penetrava no aposento, em lentas espirais. Era talvez por isso que aquela personagem andrajosa, aquele Hrcules esfarrapado, de barba negra, que batia no peito dizendo 
"Eu sou Nicolau... Eu sou Calembredaine", lhe aparecia como uma fantasmagoria incrvel.
 Iria ela desmaiar?
 Ele se ps a caminhar, de repente, de um lado para outro, mas sem deixar de olh-la.
 -        As florestas s servem quando faz calor - continuou ele. - Trabalhei com os contrabandistas de sal. Depois, encontrei um bando na floresta de Mercoeur: 
velhos mercenrios, antigos camponeses do norte, gals evadidos. Estavam bem organizados. Juntei-me a eles. Saquevamos os viajantes na estrada que vai de Paris 
a Nantes. Mas s  possvel agir nos bosques quando faz calor. Quando chega o inverno,  preciso entrar nas cidades. No  nada fcil... Estivemos em Tours, Chteaudun. 
Foi assim que chegamos perto de Paris. Tnhamos aos calcanhares todos os caadores de mendigos, todos os caadores de patifes! Aos que se deixavam apanhar nas portas, 
raspavam as sobrancelhas e metade da barba, e agora, amigo, volta ao campo, regressa  fazenda incendiada, aos seus campos pilhados e ao seu campo de batalha. Ou 
ento  o Hospital Geral, ou ainda o Chtelet, j que se tinha no bolso um pedao de po que a padeira lhe era porque no pudera fazer outra coisa. Quanto a mim, 
escolhi os bons lugares para passar: as adegas que comunicam uma casa com outra, os buracos de esgoto que vo dar nos fossos e, como era inverno, as chalanas presas 
no gelo, ao longo do Sena, desde Saint-Cloud. Uma noite, entramos todos em Paris, como ratos... Ela disse vagamente:
 -        Como voc pde descer to baixo?
 Ele estremeceu e inclinou-se para ela com o rosto crispado de clera.
 -        E voc?
 Anglica reparou em seu vestido esfarrapado. Seus cabelos soltos, mal penteados, escapavam da touca de pano que ela passara a usar, como as mulheres do povo.
 -        No  a mesma coisa - respondeu.
 Os dentes de Nicolau rangeram, e ele teve um estertor de co raivoso.
 -        Oh! Sim! Agora...  quase a mesma coisa. Voc me entende... prostituta!
 Anglica contemplava-o com uma espcie de sorriso distante... Era ele mesmo. Ela o revia de pe ao sol, com a grande mo cheia de morangos dos bosques. E, em sua 
face, a mesma expresso perversa, vingativa... Sim, isso tudo lhe voltava  memria pouco a pouco. Ele se inclinava assim... Um Nicolau mais acanhado, campons ainda, 
mas j inslito na doura do pequeno bosque primaveril. Apaixonado como uma besta sensual e que, entretanto, punha os braos para trs a fim de no ser tentado a 
agarrar e violentar: "Vou dizer-lhe... S voc existia em minha vida... Sou como uma coisa que no est em seu lugar e que andar sempre de um lado para outro sem 
saber... Meu nico objeto era voc..."
 Nada mau como declarao para um campnio. Mas, na verdade, seu lugar verdadeiro era aquele em que se instalava agora, terrificante, insolente: capito de bandidos 
na capital!... O lugar dos que querem tomar dos outros em vez de fatigar-se para ganhar... Isso j era de prever quando ele abandonava seu rebanho de vacas para 
ir furtar a merenda dos outros pequenos pastores. E Anglica era sua cmplice!
 Ela se endireitou, com um sbito movimento, e fixou nele seus olhos glaucos.
 -        Probo-o de me injuriar. Nunca me prostitu com voc. E agora d-me de comer. Estou com fome.
 Na verdade, uma fome canina acabava de acomet-la, causando-lhe mal-estar.
 Nicolau Calembredaine pareceu desconcertado por esse ataque.
 -        Fique quieta - disse ele. - Vou providenciar.
 Pegando uma barra de metal, bateu em um gongo de cobre que brilhava na parede como um sol. Imediatamente ouviu-se na escada uma galopada de tamancos, e um homem 
de aspecto aturdido apareceu na porta entreaberta. Nicolau apontou-o a Anglica:
 -        Apresento-lhe Jactncia. Um dos meus "rapa-bolsas".
Mas sobretudo um consumado imbecil que achou maneira de se fazer exibir no pelourinho o ms passado. Agora eu o conservo aqui para preparar a bia, at que os fregueses 
do mercado esqueam um pouco a forma do seu nariz. Depois, coloca-se nele uma peruca, e avante com as tesouras!
Que tomem cuidado com as bolsas! Que  que voc tem na panela, mandrio?
 Jactncia fungou e passou a manga por baixo do nariz mido.
 - Ps de porco, chefe, com couve.
 - Voc j  um porco! - berrou Nicolau. - Isso  comida para uma dama?
 - Eu no sei, chefe...
 - Qualquer coisa serve - impacientou-se Anglica.
 O odor da comida fazia-a quase desfalecer. Era verdadeiramente muito humilhante aquela fome que ela sentia nos momentos mais importantes ou dramticos de sua vida. 
Quanto mais dramticos eram os acontecimentos, mais fome ela sentia!
 Quando Jactncia voltou, trazendo uma escudela transbordante de couve e vsceras gelatinosas, vinha precedido do ano Barcarola. Este deu uma cambalhota e esboou 
para Anglica uma saudao cortes, que tornava grotesca sua pequenssima perna rechonchuda e seu grande chapu. A sua cabea monstruosa no faltava inteligncia, 
nem mesmo certa beleza. Era talvez por isso que, malgrado sua deformidade, tinha logo despertado a simpatia de Anglica.
 - Tenho a impresso de que voc no est descontente com sua nova conquista, Calembredaine - disse ele lanando uma olhadela a Nicolau. - Mas que pensar disso 
a Marquesa dos Polacos?
 - Cale a boca! - grunhiu o chefe. - Com que direito se introduz no meu quarto?
 - Com o direito do fiel servidor que merece recompensa. No esquea que fui eu quem lhe arranjou essa bonita moa, que voc espionou durante longo tempo por todas 
as esquinas de Paris.
 - Traz-la ao Innocents! Essa foi boa! Por pouco o Grande Cosre no ficava com ela,e Rodoguno, o Egpcio, no a arrebatava de mim.
 - Foi bom que voc ganhasse - disse o minsculo Barcarola, que tinha de deitar a cabea para trs a fim de olhar Nicolau. - De que me serviria um chefe que no 
se houvesse batido por sua marquesa? E no esquea, ainda no pagou todo dote. No , beleza?
 Anglica nada escutara, pois comia avidamente. O ano mirou-a com ar enternecido.
 - O que existe de melhor nos ps de porco so os ossinhos - disse ele amavelmente. -  bom chup-los, e  divertido quebr-los. Para mim, bastam os ossinhos. Pode-se 
abandonar o resto.
 - Por que voc diz que o dote ainda no est pago? - perguntou Calembredaine, franzindo as sobrancelhas.
 - Ora essa! E o tipo que ela deseja suprimir? O monge dos olhos tortos!
 O chefe voltou-se para Anglica.
 -        Isso  verdade?
 Ela havia comido muito depressa. Tendo saciado a fome, sentia-se invadida de um torpor incomodo e havia-se estendido de novo na cama.
 A pergunta de Nicolau respondeu, com os olhos fechados:
 - Sim,  preciso.
 -  apenas justia! - bradou o ano. - O sangue deve regar as bodas dos mendigos. Uh! Uh! Sangue de monge!
 Blasfemou horrivelmente. Depois, diante de um gesto ameaador de seu chefe, fugiu para a escada. Calembredaine fechou a porta com o calcanhar.
 De p, junto do estranho leito onde jazia a jovem, ele a examinou demoradamente, com as mos nos quadris. Ela acabou por abrir os olhos.
 -  verdade que voc me espreitou durante muito tempo em Paris? - perguntou ela.
 - Acompanhei-a por toda parte. Com a gente de que disponho, sou prontamente informado dos recm-vindos e sei melhor que os prprios donos o nmero de suas jias 
e como se pode entrar em suas casas quando soa a meia-noite na torre da Place de Greve. Mas voc me viu nos Trs Malhos...
 - Ignbil - murmurou ela com um estremecimento. - Oh! Por que voc ria quando me olhava?
 - Porque eu comeava a compreender que bem cedo voc seria minha.
 Ela o olhou friamente, depois ergueu as espduas e bocejou. No temia Nicolau como temia Calembredaine. Ela sempre dominara Nicolau. Para ter medo de um homem  
preciso no o ter conhecido em pequeno. O sono a invadia. Ela perguntou ainda, vagamente:
 - Por que... mas por que voc deixou Monteloup?
 - Ah! Essa agora  forte! - gritou ele cruzando os braos sobre o peito. - Por qu? Voc acreditava ento que eu gostaria que o velho Guilherme me espetasse com 
sua lana... depois do que se passou com voc? Deixei Monteloup na noite de suas npcias... Tambm esqueceu isso?
 Sim, tambm isso ela havia esquecido. Sob suas plpebras cadas, a recordao renascia com seu odor de palha e de vinho, o peso do musculoso corpo de Nicolau em 
cima dela e aquela sensao desagradvel de pressa, e de clera, de uma coisa no realizada.
 - Ah! - disse ele com amargura. - Pode-se dizer que eu no tinha o mnimo lugar na sua vida. Certamente voc jamais pensou em mim durante todos esses anos!
 - Certamente - repetiu ela com indiferena - eu tinha mais o que fazer do que pensar em um criado.
 -        Meretriz! - gritou ele fora de si. - Cuidado com o que
diz. O criado agora  seu senhor. Voc me pertence...
 Ele ainda gritava, e ela j dormia. Longe de inquiet-la, aquela voz trazia-lhe a sensao de uma brutal mas benfazeja pro-teo. Ele parou de gritar e disse a 
meia voz:
 -        E como antigamente... quando voc adormecia sobre o musgo, no meio das nossas brigas. Pois bem, durma, meu tesouro. Seja como for, voc  minha. Sente 
frio? Quer que lhe cubra?
 Ela fez com as plpebras um imperceptvel sinal afirmativo. Ele foi buscar um luxuoso casaco de belo tecido e estendeu-o sobre ela. Depois, passou-lhe a mo levemente 
pela fronte com uma espcie de temor.
 Aquele quarto era realmente um lugar muito estranho. Construdo de enormes pedras, como os velhos torrees, era redondo e tristemente alumiado por uma seteira gradeada. 
Estava repleto de uma amontoado de objetos extravagantes, desde delicados espelhos emoldurados de bano e marfim at velhas ferramentas, utenslios de trabalho, 
tais como martelos e picaretas, armas...
 Anglica espreguiou-se. Mal acordada, olhando com espanto em volta de si, levantou-se e apanhou um dos espelhos, que lhe refletiu a fisionomia desconhecida de 
uma jovem plida com olhos selvagens e muito fixos, como os de uma gata maldosa espreitando a presa. A luz da tarde comunicava um tom sulfreo  sua cabeleira desgrenhada. 
Afastou o espelho com medo. Aquela mulher de rosto assustado, abatido, no podia ser ela!... Que se passava? Por que havia tantas coisas naquele quarto redondo? 
Espadas, panelas, caixinhas, repletas de bugigangas, echarpes, leques, luvas, jias, bengalas, instrumentos musicais, um esquentador, pilhas de chapus e, sobretudo, 
casacos que, colocados uns sobre os outros, tinham formado o leito em que ela havia dormido?
 Um s mvel, delicada cmoda marchetada de madeiras das ilhas, parecia muito surpreso de se encontrar entre aquelas paredes midas.
 Sentiu qualquer coisa dura em sua cinta. Puxou um cabo de couro e apareceu um comprido punhal afiado. Onde vira ela aquele punhal? Fora em um pesadelo opressor 
e doloroso, durante o qual a lua tinha feito malabarismos com cabeas de mortos.
 O homem de cor trigueira tinha-o na mo. Depois o punhal tombara, e Anglica o apanhara na lama enquanto os dois homens engalfinhados rolavam por terra. Fora assim 
que lhe viera parar nas mos o punhal de Rodoguno, o Egpcio. Ela o enfiou de novo em seu corpete. Em seu pensamento se reuniam imagens confusas.
 Nicolau... Onde estava Nicolau?
 Correu para a janela. Percebeu por entre as grades o Sena, com suas ondas lentas, cor de absinto, sob o cu nublado, e seu incessante vaivm de embarcaes. Na 
outra margem, j invadida pelo crepsculo, ela reconheceu as Tulherias e o Louvre.
 Essa viso de sua vida antiga causou-lhe um choque e convenceu-a de sua loucura. Nicolau! Onde estava Nicolau?
 Precipitou-se para a porta e, achando-a trancada, ps-se a esmurr-la, uivando, chamando Nicolau, quebrando as unhas contra a madeira podre.
 Uma chave rangeu, e o homem de nariz vermelho surgiu.
 - Por que est berrando assim, marquesa? - perguntou Jactncia.
 - Por que trancaram esta porta?"
 - No sei.
 - Onde est Nicolau?
 - No sei.
 Ele a mirou e depois decidiu:
 -        Venha ver um pouco os camaradas, isso a distrair.
Ela o seguiu por uma escada de pedra em caracol, mida e sombria.
 A medida que descia, chegava-lhe um clamor feito de vo-ciferaes, de sonoras gargalhadas e gritos de crianas.
 Ch egou a uma sala abobadada, repleta de personagens vrias. Sobre a grande mesa, viu logo Traseiro de Pau, com um pedao de carne de vaca em seu prato. Ao fundo 
da sala, brilhava um fogo e, sentado sobre a pedra da lareira, P Ligeiro vigiava a panela. Uma gorda mulher depenava um pato. Uma outra, mais jovem, entregava-se 
 pouco agradvel tarefa de despiolhar um menino seminu que tinha entre os joelhos. Espalhados pelo cho, sobre a palha dos ladrilhos, havia velhos e velhas, cobertos 
de andrajos, e crianas imundas e esfarrapadas que disputavam os restos aos ces.
 Alguns homens, sentados em volta da mesa sobre velhos tonis, jogavam cartas ou fumavam e bebiam.
 A entrada de Anglica, todos os olhos se voltaram para ela e um relativo silncio se fez entre a miservel assembleia.
 -        Pode vir, minha filha - disse Traseiro de Pau com um gesto solene. - Voc  a mulher de nosso chefe, Calembredaine. Devemos-lhe considerao. Arredem-se, 
portanto, vadios, e deixem um assento para a marquesa!
 Um dos fumantes de cachimbo deu uma cotovelada no vizinho.
 -        Muito bem torneada a pequena! Calembredaine, desta vez, quase escolheu to bem como voc.
 O homem a quem foram dirigidas tais palavras aproximou-se de Anglica e segurou-lhe o queixo com gesto ao mesmo tempo amvel e peremptrio.
 - Sou Belo Rapaz - disse ele. Ela o repeliu com irritao.
 - Isso depende de gosto.
 Uma gargalhada sacudiu o auditrio.
 -        No depende - disse Traseiro de Pau, soluando de tanto rir -,  este o seu nome. Belo Rapaz,  assim que todos os chamam. Vamos, Jactncia, traga de beber 
para a moa. Ela me agrada.
 Puseram diante dela uma grande taa, que ostentava as armas de um marqus cuja residncia o bando de Calembredaine visitara em certa noite sem lua. Jactncia encheu-a 
at a borda com vinho tinto e correu os outros copos.
 - A sua sade, marquesa! Como se chama?
 - Anglica.
 O riso grosseiro e devasso dos bandidos estralejou de novo sob as abbadas.
 -        Essa, agora,  a melhor! Anglica!... Ah, ah, ah! Um anjo!
Nunca se viu disso entre ns... E por que no? Afinal, ns tambm, por que no seremos anjos? J que  nossa marquesa... A sua sade, Marquesa dos Anjos!
 Eles riam, batiam nas coxas, e isso era como um ribombo sinistro e atordoante ao redor dela.
 _  sua sade, marquesa! Vamos, beba...
 Ela, porm, permanecia imvel, olhando o crculo de ca-rantonhas avinhadas, barbudas ou mal raspadas, que se inclinavam sobre ela.
 -        Beba! - uivou Traseiro de Pau com sua voz terrificante.
Ela encarou o monstro sem responder.
 Houve um silncio ameaador. Depois, Traseiro de Pau suspirou e olhou os outros com ar aflito.
 -        Ela no quer beber! Que  que ela tem?
 -        Que  que ela tem? - repetiram. - Belo Rapaz, voc, que conhece as mulheres, procure dar um jeito nisso.
 Belo Rapaz encolheu os ombros.
 -        Imbecis - disse ele com desprezo -, so incapazes de perceber que essa a, no  por meio de berros que a doma
ro, jamais.
 Sentou-se perto de Anglica e, muito docemente, afagou-lhe a espdua como a uma criana.
 -        No tenha medo. Eles no so maus, voc sabe. E um ar que eles assumem para assustar os burgueses. Mas de voc eles gostam. Voc  nossa marquesa. Marquesa 
dos Anjos! Isso no lhe agrada? Marquesa dos Anjos! E um bonito nome. E assenta-lhe bem, como esses seus belos olhos. Vamos, beba, minha pequena, o vinho  bom. 
Um tonel do
porto de Greve, que chegou, com seus prprios ps, at a Tour de Nesle. E assim que as coisas acontecem entre ns.  o Ptio dos Milagres.
 Ele aproximou-lhe o copo dos lbios. Ela foi sensvel ao som daquela voz mscula e carinhosa. Bebeu. O vinho era bom. Transmitiu ao seu corpo transido um calor 
agradvel, e tudo se tornou subitamente mais simples e menos terrvel. Ela bebeu um segundo copo, depois apoiou os cotovelos na mesa e ps-se a olhar em torno. O 
aleijado fitava-a sombriamente. Estaria encarregado de vigi-la? Ela no pensava, entretanto, em fugir. Para onde iria?
 A noite reconduzia aos seus covis os mendigos e mendigas que viviam sob a jurisdio de Calembredaine. Havia muitas mulheres carregando em seus braos crianas 
enfermas ou de peito, envoltas em trapos, e cujos gritos agudos no cessavam. Uma delas, com o rosto coberto de botes purulentos, foi entregue  mulher sentada 
perto da lareira. Esta, com mo hbil, arrancou todas as crostas do rosto do recm-nascido, passou um pano sobre a carinha, que reapareceu lisa e s, e em seguida 
ps o menino ao seio. Traseiro de Pau sorriu e comentou com sua voz rouca:
 -        V? Aqui, entre ns, a gente se cura muito rapidamente. No  preciso ir s procisses para ver os milagres. Aqui, eles se fazem todos os dias. Pode bem 
ser que neste momento haja uma boa mulher das obras pias, como dizem, que esteja contando: "Oh, minha querida, vi um menino no PontNeuf, que misria! coberto de 
pstulas... Naturalmente, dei uma esmola  pobre me..." E elas vivem contentes, as beatas. So migalhas de po duro, com mel por cima, para atrair as moscas. Olhe, 
 Veneno de Rato que se aproxima. Voc vai poder partir...
 Anglica o interrogou com um olhar de surpresa.
 -        No  preciso compreender - rosnou ele. - Est combinado com Calembredaine.
 O indigitado Veneno de Rato, que acabava de entrar, era um espanhol to magro que seus joelhos e seus cotovelos pontudos haviam transpassado a roupa. Triste sobrevivente 
dos campos de batalha de Flandres, assumia ares de mata-mouros com seu longo bigode negro, seu chapu emplumado e, sobre os ombros, uma tarasca na qual estavam enfiados 
cinco ou seis grandes ratos mortos. De dia, o espanhol vendia pelas ruas um produto para matar os roedores. De noite, completava sua magra receita alugando seu talento 
de "duelista" a Calembredaine.
 Com muita dignidade ele aceitou um copo de vinho, e roeu um rbano que tirou do bolso, enquanto algumas velhas disputavam o produto da caada; ele vendia um rato 
por dois soldos. Aps embolsar o dinheiro, Veneno de Rato saudou os presentes com sua velha espada e meteu-a na bainha.
 - Estou pronto - declarou enfaticamente.
 - V - disse Traseiro de Pau a Anglica.
 Na defensiva, ela esteve prestes a fazer uma pergunta, depois desistiu. Outros homens se tinham levantado, drilles ou narquois, como os chamavam, velhos soldados 
com o gosto da pilhagem e da batalha, e que a paz acabava de jogar na ociosidade. Ela se viu cercada por suas silhuetas patibulares. Eles usavam uniformes esfrangalhados, 
dos quais ainda pendiam os passamanes e gales dourados de algum regimento principesco.
 Anglica levou a mo ao lado, sob o corpete, para apalpar o punhal do Egpcio. Se necessrio, estava decidida a vender caro a vida.
 Mas o punhal desaparecera.
 A clera a invadiu, uma clera aumentada pela excitao produzida pelo vinho.
 Esquecendo toda a prudncia, ela uivou:
 - Quem tirou minha faca?
 - Ei-la aqui - disse prontamente Jactncia, com sua voz montona.
 E estendeu-lhe a arma com ar inocente. Ela estava estupefata. Como pudera ele tirar o punhal de sob seu corpete sem que ela o percebesse?
 Entrementes, o mesmo riso tonitruante, aquele riso horrvel dos mendigos e dos bandidos, que, por toda a sua vida futura, devia perseguir a jovem, estalou de novo.
 - Boa lio, minha pequena! - exclamou Traseiro de Pau. - Voc aprender a conhecer as mos de Jactncia. Cada um de seus dedos  mais hbil que um mgico. V perguntar 
o que pensam deles as domsticas na praa do mercado.
 - E belo este espeto - disse um dos narquois segurando o punhal.
 Depois, tendo-o examinado, atirou-o sobre a mesa com espanto.
 -         a faca de Rodoguno, o Egpcio!
 Com um misto de respeito e inquietude, todos contemplavam a lmina que brilhava  luz das velas.
 Anglica apanhou sua arma e enfiou-a na cintura. Teve a impresso de que esse gesto a consagrava aos olhos dos miserveis. Ignorava-se em que circunstancias ela 
havia arrebatado aquele trofu a um dos mais temveis inimigos do bando. \ airava um mistrio, envolvendo-a numa aureola um tanto inquietante.
 Traseiro de Pau assoviou:
 -        Eh, eh! Ela  mais esperta do que parece, a Marquesa dos Anjos!
 Ela se retirou, seguida de olhares admirativos.
 Do lado de fora, ela viu perfilar-se, na noite quase fechada, a sombra da Tour de Nesle. Compreendeu ento que a pea para onde a conduzira Nicolau Calembredaine 
devia estar situada no cimo dessa torre e servir de entreposto para os objetos furtados. Um dos narquois explicou-lhe obsequiosamente que fora Calembredaine quem 
tivera a ideia de alojar a gente de seu bando no velho recinto medieval de Paris. Era certo ser a torre um refgio ideal para os malfeitores.
 Salas semiderrudas, muralhas em runas, torrinhas vacilantes ofereciam esconderijos de que os outros bandos dos faubourgs no dispunham.
 As lavadeiras, que por muito tempo tinham vindo lavar suas roupas nas ameias da Tour de Nesle, haviam desaparecido diante da temvel invaso.
 Ningum interviera para desalojar os maus rapazes que espreitavam as carruagens do Faubourg Saint-Germain, escondidos sob a pequena ponte arqueada que franqueava 
os velhos fossos.
 Limitavam-se a deplorar que a passagem pela Tour de Nesle, em plena Paris, se houvesse tornado um verdadeiro suicdio. E, s vezes, os sons dos violinos das Tulherias, 
do outro lado do Sena, mesclavam-se aos da rabeca desafinada de Hur-lurot ou s msicas batidas de Thibault, o Sanfonineiro, fazendo danar os mendigos numa noite 
de orgia.
 Os embarcadios do pequeno porto da lenha, no longe dali, baixavam a voz ao verem aproximar-se da margem do rio os temveis vultos.
 O lugar tornara-se intransitvel, diziam uns aos outros. Quando, ento, os conselheiros municipais decidiriam derribar aquelas velhas muralhas e caar toda aquela 
vermina?
 -        Senhores, eu os sado - disse Veneno de Rato abeirando-os. - Teriam a bondade de conduzir-nos at o Quai
de Gesvres?
 - Tem dinheiro? - perguntou um deles.
 - Temos isto - disse o espanhol, encostando-lhe ao ventre a ponta de sua espada.
 O homem encolheu os ombros com resignao. Todos os dias tinham de aturar aqueles maltrapilhos que se ocultavam nos barcos, roubavam a mercadoria e se faziam transportar, 
a troco de nada, de uma a outra margem, como senhores. Quando os embarcadios eram numerosos, isso terminava em lutas sangrentas, a faca, pois a corporao da gente 
da gua no era nada paciente.
 Naquela noite, todavia, os trs homens, que tinham acendido fogo para vigiar suas chalanas, compreenderam que no era interessante procurar discusso. Um moo levantou-se, 
a um sinal do patro, e, no muito tranquilo, desamarrou o barco em que estavam Anglica e seus sinistros companheiros.
 O barco passou sob os arcos do Pont Neuf e, perto do Pont de Notre-Dame, atracou no Quai de Gesvres.
 -        Muito bem, meu rapaz - disse Veneno de Rato ao jovem bateleiro. - No s lhe agradecemos como tambm o deixamos voltar inteiro. Empreste-nos somente sua 
lanterna. Devolv-la-emos quando pudermos...
 O imenso arco que sustentava o Quai de Gesvres, recentemente construdo, era um trabalho gigantesco, belo e slido.
 Ali penetrando, Anglica ouviu o marulho do rio, que fazia pensar na grande voz do oceano. O rudo das carruagens, que passavam sobre o arco com ecos de troves 
distantes, aumentava essa impresso. Glacial e mida, aquela caverna grandiosa, isolada no corao de Paris, parecia ter sido criada para servir de asilo a todos 
os malfeitores da cidade.
 Os bandidos seguiram-na at a extremidade. Trs ou quatro passagens sombrias, destinadas a servir de esgotos aos aougues da Rue de la Vieille-Lanterne, vomitavam 
ondas de sangue. Foi preciso transp-las de um salto.
 Mais adiante, foram por caminhos estreitos e malcheirosos, escadas dissimuladas nos recessos das casas, ribanceiras onde os ps se afundavam na vasa at os tornozelos.
 Quando os bandidos de novo emergiram em Paris, era noite fechada, e Anglica teria sido absolutamente incapaz de dizer onde se achava. Havia ali, sem dvida, uma 
pracinha com uma fonte ao centro, pois ouvia-se um murmrio de gua. A voz de Nicolau elevou-se de sbito, bem perto:
 -        So vocs, rapazes? Trouxeram a garota?
 Um dos narquois ergueu a lanterna sobre Anglica.
 -        Aqui est.
 Ela viu a silhueta alta e o rosto espantoso do bandido Ca-lembredaine e fechou os olhos horrorizada. Ela bem sabia que era Nicolau, mas aquela viso despertava 
nela um terrvel medo.
 O chefe deu com a mo uma pancada na lanterna, jogando-a ao solo.
 - Est doido? Mssier agora precisa de luz para passear?
 - No tnhamos desejo de cair na gua, debaixo do Quai de Gesvres - protestou o outro.
 Nicolau tomara com mo rude o brao de Anglica.
 -        No tenha receio, corao, voc bem sabe que sou eu- zombou ele.
 Abrigou-a sob um prtico.
 -        Voc, Penia, fica do outro lado da rua, atrs do marco. Voc, Martin, fica comigo. Voc, Gobert, vai l para baixo. Os outros ficaro de sentinela nas 
encruzilhadas. Voc est em seu posto, Barcarola?
 Uma voz respondeu, como vinda do cu:
 -        Presente, chefe.
 O ano estava empoleirado na tabuleta de uma loja.
 Do prtico, onde se encontrava ao lado de Nicolau, Anglica podia ver, em toda a sua extenso, uma rua estreita. Algumas lanternas, suspensas diante das casas mais 
ricas, alumiavam-na fracamente e faziam brilhar, qual triste serpente, a vala central entulhada de lixo.
 As oficinas dos artesos estavam bem fechadas. Os habitantes metiam-se na cama, e via-se passar, por trs das vidraas, a luz redonda das velas.
 Uma mulher abriu uma janela para despejar um balde na rua. Ameaou uma criana que chorava de chamar o Monge Zangado. Era o papo daqueles tempos, um monge barbudo, 
dizia-se, que passava com o saco s costas para carregar os meninos desobedientes.
 -        Eu o darei ao Monge Zangado! - resmungou Nicolau.
E acrescentou em voz baixa:
 -        Vou pagar-lhe seu dote, Anglica! Pela maneira adotada no reino dos mendigos. O homem paga para ter sua bela, como se compra um lindo objeto que se deseja.
 _  a nica coisa que se compra- entre ns - chacoteou um dos espadachins.
 Seu chefe f-lo calar-se com uma praga. Ouvindo um rumor de passos, os bandidos puseram-se silenciosos e imveis. Sem fazer rudo, puxaram das espadas. Um homem 
avanava na ruela, saltando de uma pedra a outra para no sujar nas poas seus sapatos de taces altos e com rosetas.
 -        No  ele - cochichou Nicolau Calembredaine.
 Os outros embainharam as espadas. O transeunte ouviu retinir as armas. Sobressaltou-se, percebeu os vultos que se mexiam sob o prtico, e fugiu berrando:
 - Socorro! Ladres! Assassinos! Esto me matando!
 - Idiota! - rosnou do outro lado da rua o drille Penia. - Deixa-se passar o gajo tranquilo, sem mesmo tomar-lhe o casaco, e ele se pe a gritar feito um asno... 
E de causar nuseas!
 Um leve assovio, vindo do outro extremo da rua, f-lo silenciar.
 -        Olha quem vem l, Anglica - cochichou Nicolau apertando o brao da jovem.
 Insensvel a tudo, a ponto de no sentir o contato daquela mo, Anglica mantinha-se na expectativa. Ela sabia o que ia se passar. Era inelutvel. Era preciso que 
aquilo se realizasse. Seu corao no poderia ressuscitar seno depois. Porque tudo estava morto nela e somente o dio tinha o poder de reanim-la.
 Ela viu aparecer, na claridade amarela das lanternas, dois monges de braos dados. Reconheceu num deles, sem dificuldade, Conan Bcher. O outro, gorducho e prolixo, 
discorria em latim com amplos gestos. Devia estar ligeiramente embriagado, pois, de vez em quando, empurrava o companheiro contra a parede de uma casa, e depois, 
desculpando-se, conduzia-o pela vala.
 Anglica ouviu o timbre agudo do alquimista. Ele tambm se expressava em latim, mas com um tom de protesto indignado.
 Ao se aproximarem do prtico, ele gritou em francs, com exasperao:
 -        Basta, Irmo Amboise, suas teorias sobre o batismo com caldo gordo so herticas! Um sacramento no ter nenhum valor se a gua com que for ministrado 
estiver poluda por elementos impuros, tais como as gorduras animais. Um batismo com caldo gordo. Que blasfmia! Por que no com vinho tinto, enquanto voc est 
nele? Isso lhe convm, a voc que parece am-lo tanto!
 E com uma sacudidela o magro franciscano desprendeu-se do brao que o segurava.
 O gordo Irmo Amboise balbuciou em tom lamuriento de embriagado:
 -        Meu padre, voc me magoa... Ah! Como gostaria de convenc-lo!
 Subitamente ele soltou um grito louco:
 -        Ah! Ah! Deus coeli!
 Quase no mesmo instante, Anglica percebeu que o Irmo Amboise estava ao seu lado, sob o prtico.
 -        A o tm, rapazes - soprou ele, passando subitamente do latim para a gria.
 Conan Bcher voltou-se:
 -        Que lhe aconteceu?
 Interrompeu-se e sondou a ruela deserta, com olhar vacilante. Sua voz estrangulou-se.
 -        Irmo Amboise! - chamou ele. - Irmo Amboise, onde est?
 Sua magra face alucinada pareceu cavar-se ainda mais, e ele arquejava, enquanto avanava alguns passos, lanando olhares aterrados em volta de si.
 -        Uh! Uh! Uh!
 Era o ano Barcarola que entrava em cena com seu ulular sinistro de ave noturna. Pendurou-se na tabuleta metlica, que rangeu, e, com salto elstico de sapo gigante, 
saltou aos ps do monge Bcher.
 Este achatou-se contra a parede.
 -        Uh! Uh! Uh! - repetia o ano.
 Executando um bailado infernal diante de sua vtima aterrorizada, ele multiplicava as cabriolas, as saudaes grotescas, as caretas, os gestos obscenos. Envolvia 
Bcher numa verdadeira ronda diablica.
 Depois, uma segunda criatura hedionda saiu da sombra, a rir zombeteiramente. Era um corcunda cambeta. Seus joelhos tocavam-se, enquanto as pernas  os ps, muito 
separados, no lhe permitiam andar seno desengonadamente. Mas sua silhueta nada era, comparada com o rosto monstruoso. Porque ele ostentava na fronte uma estranha 
protuberncia de carne, pendente e rubra.
 O estertor que se escapou da garganta do monge nada mais tinha de humano.
 -        Aaah! Os demnios!
 Seu longo corpo dobrou-se subitamente, e ele se achou de joelhos sobre as pedras enlameadas. Seus olhos saltavam das rbitas. Sua cor tornava-se cerosa. Entre as 
comissuras de seus lbios distendidos por um ricto de terror abjeto, viam-se tremer duas fileiras de dentes podres.
 Muito lentamente, como submerso em um pesadelo, ergueu as mos ossudas com os dedos separados. Sua lngua movia-se penosamente. Articulou:
 -        Piedade... Peyrac!
 Este nome, pronunciado por aquela voz maldita, penetrou no corao de Anglica como uma punhalada. O reflexo de loucura que inspirava a cena alucinante manifestou-se 
nela. Comeou a uivar selvagemente:
 -        Mata-o! Mata-o!
 E, sem conscincia do que fazia, mordeu o ombro de Nicolau. Ele se desprendeu com um empurro e puxou a faca de aougueiro que lhe servia de arma.
 De repente, fez-se na ruela um silncio pesado. A voz de Barcarola elevou-se:
 -        Essa agora!
 O corpo do monge acabava de cair de lado, ao p da parede.
 Os bandidos aproximaram-se. O chefe inclinou-se, levantou a cabea imvel. A maxila arriou, descobrindo a boca enorme, aberta num ltimo grito de terror. Os olhos 
estavam fixos e j turvos.
 - Est morto! - constatou Calembredaine.
 - No entanto, ningum lhe tocou sequer - disse o pigmeu. - No  verdade, Crista de Galo, que ningum lhe tocou? Apenas lhe fazamos caretas, para meter-lhe medo!
 - Voc se saiu bem. Ele est morto... Morreu de susto! Abriu-se uma janela e uma voz trmula interrogou:
 - Que est acontecendo? Quem fala de demnios?
 -        Demos o fora - ordenou Calembredaine. - Nada mais temos que fazer aqui.
 Na manh seguinte, quando encontraram o corpo do monge Bcher sem vida e sem qualquer ferimento ou arranho,
 os habitantes de Paris recordaram-se das palavras daquele feiticeiro que fora queimado na Place de Greve: "Conan Bcher, dentro de um ms nos encontraremos diante 
do tribunal de Deus..."
 Consultaram o calendrio e viram que o ms terminava. Benzendo-se muito, os moradores da Rue de la Cerisaie, perto do Arsenal, falavam dos gritos estranhos que 
na noite anterior lhes haviam perturbado o primeiro sono.
 Foi necessrio pagar em dobro ao coveiro que enterrou o monge maldito.
 E sobre a tumba inscreveram este epitfio:
 "Aqui jaz o Padre Conan Bcher, recoleto, morto pelas vexaes dos demnios no ltimo dia de maro de 1661".
 O bando de Nicolau Calembredaine, ilustre libertino, acabou a noite nas tabernas.
 Todas as tascas disseminadas entre o Arsenal e o Pont Neuf receberam sua visita. Eles cercavam uma mulher de face lvida e cabelos desatados, e faziam-na beber.
 Anglica, completamente bria, acabou por vomitar incoer-civelmente. Com a cabea apoiada numa mesa, sentiu-se invadida por um onda de desespero:
 -        Desgraa! Desgraa...
 Nicolau, com mo imperiosa, reaprumou-a e olhou-a com surpresa e inquietao.
 -        Est donte? No entanto ainda no bebemos nada... Falta celebrar nossas npcias...
 Depois, vendo-a exausta, de olhos cerrados, ergueu-a nos braos e saiu.
 A noite estava fria. Entretanto, encostada ao peito de Nicolau, a jovem mulher sentia calor.
 O Poeta Pobre do Pont Neuf, deitado entre as patas do cavalo de bronze, viu passar o grande bandido que transportava, to facilmente como se fosse uma boneca, uma 
forma branca com os cabelos pendentes.
 Quando Calembredaine penetrou na grande sala, ao p da Tour de Nesle, parte dos seus mendigos e mendigas ali estava reunida perto do fogo. Uma mulher ululante levantou-se 
e investiu contra ele:
 -        Tipo ordinrio! Voc arranjou outra... Os companheiros me disseram. Tudo isso enquanto eu procurava acalmar os nervos com um bando de mosqueteiros viciosos... 
Mas eu o sangrarei como a um porco, e a ela tambm!
 Calmamente, Nicolau pousou Anglica no cho e encostou-a na muralha. Depois levantou seu pesado punho e a moa desabou.
 -        Agora, escutem todos - disse Nicolau Calembredaine.
- Aquela que ali est - indigitava Anglica -, ela  minha, no  de mais ningum! Aquele que ousar tocar em um fio de seus cabelos e aquela que a provocar tero 
de se explicar comigo. Vocs sabem o que isso quer dizer!... Quanto  Marquesa dos Polacos...
 Segurou a moa por uma aba do casaco e, com gesto enrgico e desdenhoso, lanou-a sobre um grupo de jogadores de cartas.
 -        ...podem fazer com ela o que quiserem!
 Depois, triunfante, Nicolau Merlot, natural do Poitou, antigo pastor convertido em lobo, voltou-se para aquela a quem sempre amara e que o destino lhe entregava.
 
 CAPITULO III
 
 Vida de mendicncia na Tour de Nesle
 
 Retomou-a nos braos e comeou a galgar a escada da torre. Subia lentamente a fim de no vacilar, pois os vapores do vinho lhe enevoavam o crebro. Esse vagar conferia 
 sua ascenso uma espcie de solenidade.
 Anglica abandonou-se ao aperto de seus braos possantes. Sua cabea girava, como as espirais da escada de pedra.
 Chegado ao ltimo degrau, Nicolau Calembredaine abriu com um pontap a sala das receptaes. Depois, caminhou at o leito de casacos e deixou cair Anglica como 
um fardo, gritando:
 -        Agora estamos ss!
 Aquele gesto e o riso triunfante que fendia a face do homem e que Anglica via brilhar na penumbra tiraram-na da indiferena passiva em que ela mergulhara depois 
da ltima taberna. Desembriagada pelos vmitos, teve um estremecimento e, levantando-se, correu para a janela, a cujas grades se agarrou, sem saber muito por qu.
 -        E ento - gritou ela furiosa -, que quer dizer, imbecil, com essas palavras?
 -- Eu... mas... eu quero dizer... - balbuciou Nicolau, completamente confundido. Ela teve um riso insultante.
 -        Acaso voc imagina que vai ser meu amante, voc, Nicolau Merlot?
 Em dois passos silenciosos, ele se aproximou dela, a fronte vincada por uma ruga sombria.
 - Eu no imagino - disse ele secamente. - Estou certo disso.
 -  o que vamos ver.
 - Est tudo visto.
 Ela desafiou-o com o olhar. Alumiava-os a claridade vermelha de um fogo de barqueiro, na praia ao p da torre. Nicolau respirou profundamente.
 - Escute - tornou ele com voz baixa e ameaadora -, ainda vou falar-lhe porque  voc, e  preciso que compreenda. Mas voc no tem o direito de recusar-me o que 
lhe peo. Eu me bati por sua causa. Matei o sujeito que voc queria. O Grande Cosre nos uniu. Tudo est, portanto, de acordo com a mendicncia. Voc  minha.
 - E se eu no quiser saber das leis da mendicncia?
 - Neste caso, morrer - disse ele com um brilho no fundo dos olhos. - De fome ou de outra coisa. No tenha iluses. Alm do mais, voc j no pode escolher. Compreendeu?
 
 - insistiu ele, encostando a mo fechada na fronte da jovem.
 - Com sua cabecinha de condessa, ainda no viu o que se queimou na Place de Greve juntamente com seu marido feiticeiro? Era tudo que a separava de mim. Criado e 
condessa, isso no existe mais! Eu sou Calembredaine, e voc... voc no  mais nada. Os seus a abandonaram. Aqueles ali defronte...
 Estendeu o brao indicando na outra margem do Sena escuro os contornos das Tulherias e da galeria do Louvre, onde cintilavam luzes.
 -        Para aqueles, voc tambm no existe mais. Eis por que voc pertence  mendicncia...  a ptria dos que foram abandonados pelos seus... Nela, voc sempre 
ter o que comer. Ser defendida. Ser vingada. Ser ajudada. Mas voc no trair nunca...
 Ele calou-se, um pouco anelante. Ela sentia sua respirao ardente. Ele a tocou de leve e o calor de seu desejo comunicou-lhe uma espcie de febre. Ela o via abrir 
as grandes mos, levant-las, recolh-las depois, como se no ousasse...
 Ento, ele comeou a suplicar-lhe baixinho, em pato:
 -        Ma gazoute, no seja m. Por que no me quer? No  tudo to simples? Estamos aqui os dois... sozinhos... como antigamente. Comemos bem, bebemos bem. Que 
falta fazer, senao amar? No vai fazer-me acreditar que est com medo...
 Anglica esboou um sorriso e encolheu os ombros. Ele continuou:
 - Vamos!... Recorde-se. Ns ambos nos entendamos muito bem. Fomos feitos um para o outro. Nada se pode fazer contra isso. Eu sabia que voc seria minha e esperava. 
E agora  o momento!
 - No - disse ela, sacudindo com movimento obstinado sua longa cabeleira sobre as espduas.
  Fora de si, ele gritou:
- Cuidado! Eu posso possu-la  fora, se quiser.
 - Experimente, e eu lhe arrancarei os olhos com as minhas unhas.
- F-la-ei possuir pelos meus homens - rugiu ele.
- Covarde!
  Exasperado, ele ps-se a praguejar de maneira horrvel.
  Ela, no entanto, quase no o ouvia. Com a fronte apoiada s grades frias da seteira, como encarcerada que no tem mais esperanas, Anglica sentia-se invadida 
de uma lassido acabrunhadora. "Os seus a abandonaram..." Respondendo a essa frase que Nicolau acabava de pronunciar, outras frases ressoaram, cortantes como cutelos: 
"No quero mais ouvir falar de voc... Deve desaparecer. No use seu nome, no faa diligncias, nada, nada".
  E recordava Hortnsia, como uma harpia, de vela na mo:
  -        V embora! V embora!
  Era Nicolau quem tinha razo, Nicolau Calembredaine, o Hrcules de sangue rude e selvagem.
  Com uma sbita resignao, ela passou diante dele e, perto do leito, comeou a desacolchoar o corpete de sarja escura. Depois deixou cair a saia. Somente de camisa, 
hesitou um instante. O frio mordia-lhe a pele, mas sua cabea fervia. Rapidamente, despiu esta ltima pea e estendeu-se nua sobre os casacos roubados.
  -        Venha - disse ela com calma.
  Ofegante, ele se tinha calado. Aquela docilidade parecia-lhe suspeita. Aproximou-se, desconfiado. Por sua vez, desembaraou-se de seus andrajos, com lentido.
  Prestes a atingir o clmax de seus sonhos mais delirantes, Nicolau, o antigo criado, estava tremendo. A confusa claridade que vinha da praia projetava na parede 
sua sombra gigantesca.
  -        Venha - repetiu ela. - Estou com frio.
  De fato, ela tambm tremia, talvez de frio, mas igualmente, diante daquele grande corpo nu, de uma impacincia mesclada de temor.
  De um salto, ele se atirou sobre ela. Apertou-a nos braos, como a quebr-la, e soltava convulsivamente grandes gargalhadas.
  -        Ah! Desta vez consegui! Ah! Como  bom! Voc  minha. No mais me escapar! Voc  minha... Minha! Minha! Minha! - repetia ele, marcando o compasso do 
seu delrio viril.
  Um pouco mais tarde, ela o ouviu suspirar,  maneira de um co satisfeito.
  -        Anglica - murmurou ele.
  -        Voc me maltratou - queixou-se ela.
E, envolvendo-se num casaco, adormeceu.
  Por duas vezes, naquela noite, ele tornou a possu-la. Entorpecida, ela emergia de um sono pesado para tornar-se a presa daquele ser da sombra, que a empolgava 
praguejando, forava-a soltando grandes suspiros roucos, depois caa para o lado, balbuciando palavras sem nexo.
  Ao amanhecer, um cochicho o acordou:
 - Calembredaine, levante-se! - reclamava Belo Rapaz. - Ainda h contas a ajustar na feira de Saint-Germain com as feiticeiras de Rodoguno, o Egpcio, que expulsaram 
Me Hurlurette e Pai Hurlurot.
- J vou. Mas no faa rudo. A pequena ainda dorme.
 - No me admiro. Que barulho essa noite na Tour de Nesle! Os ratos no puderam dormir.  engraado que voc no possa dar uma pinada sem gritar.
- Cale-se! - rosnou Calembredaine.
 - A Marquesa dos Polacos est conformada. Executei  nsca as suas ordens. Durante a noite toda eu a amimei, para que ela abandonasse a ideia de subir at aqui com 
um punhal. A prova de que ela no lhe quer mais  que o espera
  embaixo, com uma panela de vinho quente.
- Est bem. Cai fora.
Belo Rapaz partiu. Anglica olhou por entre as plpebras.
Nicolau j estava de p, no fundo do aposento, aps vestir seu uniforme de incrveis andrajos. Estava de costas e inclinava-se sobre uma caixinha em que procurava 
alguma coisa. Para uma mulher algo atilada, aquela posio era muito significativa. Tratava-se de um homem extremamente acanhado.
  Ele fechou de novo a caixa e, escondendo um objeto na mo, voltou para o leito. Ela apressou-se a fingir que dormia.
  Ele inclinou-se e chamou-a a meia voz:
  -        Anglica, est me ouvindo?...  preciso que eu parta. Mas antes queria dizer-lhe... queria saber... Ser que voc me quer mal pelo que aconteceu?... No 
 minha culpa. Eu no podia resistir. Voc  to bela!...
  Pousou a mo rugosa sobre a espdua nacarada, que se achava descoberta.
  -        Responda-me. Bem vejo que voc no est dormindo. Olhe o que eu escolhi para voc.  um anel verdadeiro. Filo avaliar por um comerciante do Quai des Orfvres. 
Olhe-o... No o quer? Tome-o, j o pus ao seu lado... Diga-me o que lhe agradaria! Quer presunto, um belo presunto?
Trouxeram-no bem fresco, esta manh, tirado ao charcuteiro da Place de Greve, enquanto ele assistia ao enforcamento de um de nossos companheiros... Quer um vestido 
novo?...
Tambm o tenho... Se no me responder, vou ficar com raiva.
  Ela olhou por entre seus cabelos emaranhados e disse em tom altivo:
  -        Quero um grande balde com gua bem quente.
  - Um balde? - repetiu ele com uma ponta de decepo. Examinou-a suspeitosamente.
  - Para qu?
  - Para me lavar.
  -        Est bem - disse ele tranquilizado. - A Polaca vai traz-lo. Pea-lhe tudo o que quiser e, se no ficar satisfeita, diga-me quando eu voltar. Castigarei 
sem pena.
  Contente por ela tqr expressado um desejo, ele se voltou para um pequeno espelho veneziano colocado sobre o ressalto da chamin e entregou-se  tarefa de colar 
na face a bola de cera tingida que contribua para desfigur-lo.
  Anglica sentou-se de um salto.
  -        Isso, nunca! - disse ela categrica. - Probo-o, Nicolau Merlot, de se apresentar diante de mim com essa repulsiva cara de velho perverso e lbrico. Do 
contrrio, serei incapaz de suportar que me toque de novo.
  Uma expresso de alegria infantil iluminou a face brutal, j marcada por uma vida criminosa.
  __ E se eu obedecer... ainda me aceitar?
  Ela ps bruscamente uma aba de casaco sobre o rosto, para dissimular a emoo que lhe causava aquele brilho nos olhos do bandido Calembredaine. Pois era o olhar 
familiar do pequeno Nicolau, to frvolo e instvel, mas "no de mau corao", como dizia sua pobre me. Nicolau, que se inclinava sobre a jovem irm violentada 
pelos soldados e bradava: "Francina, Francina..."
  Eis o que a vida fizera de um menino, de uma menina... o corao de Anglica-encheu-se de piedade por si mesma, por Nicolau. Eles estavam ss, abandonados de todos...
  -        Consente em que eu ainda a ame? - murmurou ele. 
Ento, pela primeira vez depois que to estranhamente se reencontraram, ela lhe sorriu.
  -        Talvez.
  Nicolau estendeu solenemente o brao e cuspiu no cho.
  -        Ento, eu juro isto: mesmo que'eu tenha de me fazer prender pelos tiras limpando a cara em pleno Pont Neuf, voc nunca mais me ver como Calembredaine.
  Enfiou no bolso a peruca e a venda.
  - Vou disfarar-me l embaixo.
  - Nicolau - chamou ela ainda -, tenho um p ferido. Olhe. Ser que o Grande Mateus, o esprito do Pont Neuf, ter qualquer coisa para me curar?
  - Passarei por l.
  Num gesto sbito, pegou com as duas mos o pequeno p branco e beijou-o.
  Quando ele saiu, ela se encolheu e procurou dormir de novo. O frio aumentara, mas, bem agasalhada, ela ho o sentia. Um plido sol de inverno punha retngulos 
de luz nas paredes.
  O corpo de Anglica estava fatigado e mesmo dolorido.
  Ela,  entretanto,  no  deixava de sentir uma espcie  de bem-estar.
  " bom", dizia consigo mesma. " como matar a fome e a sede. No se pensa em mais nada.  bom no pensar em mais nada."
  Perto dela, o diamante do anel cintilava. Ela sorriu. Em todo caso, aquele Nicolau, ela o faria sempre caminhar guiado pela sua mo!
  Mais tarde, quando Anglica meditava sobre os tempos que passara nos bas-fonds, murmurou muitas vezes, sacudindo a cabea pensativamente: "Eu estava louca!"
  Na verdade, foi em parte essa loucura que lhe permitiu viver naquele mundo terrificante e deplorvel. Ou, antes, um entorpecimento de sua sensibilidade, uma espcie 
de sono animal.
  Seus gestos e suas aes obedeciam a necessidades muito simples. Ela queria comer, queria aquecer-se. Sua natureza friorenta impeliu-a para o forte peito de Nicolau 
e f-la dcil a seus amplexos brutais e imperiosos.
  Ela, que amara a mais fina roupa-branca, os tecidos bordados, dormia num leito de casacos roubados, em cuja l se mesclavam os odores dos homens de Paris.
  Ela era presa de um rstico, de um criado que se fizera bandido, de um ciumento, louco de orgulho de ser seu dono. E no somente ela no o temia, como tambm no 
achava sem sabor o sentimento excessivo que ele lhe dedicava.
  Os objetos de que ela se servia, os alimentos que ingeria, eram fruto de roubos, se no de crimes.
  Seus amigos eram assassinos e miserveis. Sua casa era um canto das muralhas, das ribas ou de uma bodega; seu nico mundo, afinal, era o domnio temvel e quase 
inacessvel do Ptio dos Milagres, onde os oficiais do Chtelet e os esbirros do preboste no ousavam aventurar-se a no ser em pie-no dia. Muito pouco numerosos 
diante do terrvel exrcito de prias, que ento representava um quinto da populao parisiense, eles o abandonavam de noite.
  E, no entanto, mais tarde, aps haver murmurado: ''Euj estava louca", Anglica, por vezes, ficava meditativa, ; lembrando-se daquele perodo em que ela reinara, 
ao lado do ilustre Calembredaine, sobre as velhas muralhas e pontes de Paris.
  Tinha sido ideia de Nicolau fazer "ocupar", pelos vadios e mendigos a ele dedicados, os restos da velha muralha construda outrora por Filipe Augusto, em volta 
da Paris medieval. Quatro sculos depois, a cidade tinha feito destruir seu cinturo de pedra. As muralhas da.margem direita haviam quase inteiramente desaparecido; 
as da margem esquerda subsistiam, em runas, invadidas de hera, mas cheias de luras de ratos e de esconderijos providenciais.
  Para dela se apossar, Nicolau Calembredaine havia conduzido um assalto lento, sorrateiro e tenaz, no qual Traseiro de Pau, seu conselheiro, organizara a estratgia 
com uma habilidade digna de melhor causa.
  Em primeiro lugar, mandaram instalar, aqui e ali, ninhadas de crianas piolhentas, com suas mes esfarrapadas, daquelas que o beleguim dos pobres no podia expulsar 
sem amotinar todo um quarteiro.
  Depois, entraram em cena os mendigos.
  Velhos e velhas, doentes, cegos que se contentavam com pouco, com uma toca de pedra, onde a gua gotejava, um trecho de escada, um velho nicho de esttua, um canto 
de adega. Finalmente, os soldados, com suas-espadas ou seus bacamartes cheios de velhos pregos, haviam tomado pela fora os melhores lugares, os torrees e as poternas 
ainda slidas, com belas salas espaosas e subterrneos. Eles desalojaram em algumas horas as famlias de artesos e de obreiros, que tinham esperado encontrar ali 
um teto barato. As pobres pessoas, no se sentindo mais em harmonia com a cidade, no ousavam apresentar queixa e fugiam, felizes ainda quando podiam carregar alguns 
mveis e no recebiam uma tarasca no ventre.
  No entanto, essas expedies sumrias no eram sempre ao simples. Existia uma categoria de "recalcitrantes" entre os proprietrios. Eram os membros de outros bandos 
da menicancia, que se recusavam a ceder o lugar. Havia terrveis amas, cuja violncia a aurora revelava com os cadveres fajosos que o Sena atirava s praias.
  A mais renhida foi pela posse daquela velha Tour de Nes-le, erguida com seus pesados balestreiros no ngulo do Sena e dos velhos fossos. Mas, quando ali se instalaram, 
que maravilha! Um verdadeiro castelo!
  Calembredaine fez dele o seu covil. E foi ento que os outros capites da mendicncia perceberam que aquele recm-vindo entre os "irmos" cercara todo o quartier 
da universidade, tinha nas mos os arredores das velhas portas de Saint-Germain, Saint-Michel e Saint-Victor, at se encontrar nas margens do Sena, nos envasamentos 
da Tournelle.
  Os estudantes que tinham o gosto de ir bater-se no Pr-aux-Clercs, os pequenos burgueses em trajes domingueiros, felizes de pescar o cadoz nos velhos fossos, as 
belas damas desejosas de visitar suas amigas do Faubourg Saint-Germain, ou de ver seus confessores no Val-de-Grce, tinham de preparar suas bolsas. Uma nuvem de 
mendigos levantava-se diante deles, segurava os cavalos, bloqueava os coches nas passagens estreitas das portas ou dos pontilhes lanados sobre os fossos.
  Os camponeses ou os viajantes vindos do exterior tinham de pagar um segundo imposto de barreira aos drilles ameaadores que se encontravam postados diante deles 
quando j se achavam havia muito tempo em plena Paris. Tornando-a quase to difcil de atravessar quanto nos tempos das pontes levadias, a gente de Calembredaine 
ressuscitava a antiga mu-; ralha de Filipe Augusto.
  Foi um golpe de mestre no reino de Thunes. O sagaz e cpido aborto que o governava, o Grande Cosre, Rolin Tar- i raco, no interveio. Calembredaine pagava regiamente. 
Suai inclinao para a luta aberta, suas decises ousadas, postas a servio de um gnio de organizao, Traseiro de Pau, tornavam-no cada dia mais poderoso. Da Tour 
de Nesle ele; tomou o Pont Neuf, lugar privilegiado de Paris, com sua multido de basbaques sempre pacficos e que se deixavam rou-1 bar to facilmente que artistas 
como Jactncia desgostavam de faz-lo.
  A batalha do Pont Neuf foi terrvel. Durou vrios meses. I Calembredaine ganhou, porque os seus j ocupavam os ar'| redores.
  Em velhas chatas abandonadas, retidas nos arcos ou nos pilares das pontes, ele postava seus mendigos, que, parecendo jdormir, eram, entretanto, vigilantes sentinelas.
  Nos dias seguintes, aventurando-se atravs da Paris subterrnea em companhia de P Ligeiro, de. Barcarola ou de Traseiro de Pau, Anglica descobriu pouco a pouco 
a rede de misria e extorso cuidadosamente tecida pelo seu antigo companheiro de folguedos.
  -        Voc  mais astucioso do que eu supunha - disse elanuma noite a Nicolau -, existem algumas boas ideias na suancachola.
  E afagou-lhe a fronte com a mo.
  Tais gestos, aos quais ele no estava acostumado, perturbavam o bandido. F-la sentar-se em seus joelhos.
  -        Isso lhe espanta? No esperava isso de um farroupilha como eu? Mas farroupilha eu jamais fui, jamais quis ser... 
  Cuspiu com desprezo no lajedo.
  Estavam sentados diante do fogo da grande sala, sob a Tour de Nesle. L se encontravam reunidos os sequazes de Calem-bredaine e uma multido de esfarrapados vindos 
para cortejar o potentado de sua matterie. Como todas as noites, aquele pblico malcheiroso e barulhento se agitava entre os gritos das crianas, eructaes, injrias 
que spavam sob as abbadas, o choque dos copos de estanho, o odor insuportvel de velhos andrajos e de vinho.
  A assembleia oferecia uma seleo de tudo o que se podia encontrar de melhor entre os bandos do ilustre libertino. Este queria que seu feudo tivesse sempre tonis 
abertos e carnes no espeto. Tais liberalidades venciam os mais fortes.
  Com efeito, quando chovia e ventava, quando a rua estava deserta e o nobre desdenhava o teatro e o burgus a taberna, que havia de melhor para um narquois sem 
ocupao do que procurar Calembredaine e encher o bandulho?
  Traseiro de Pau instalou-se sobre a mesa com a arrogncia o homem confiante e o ar sombrio de um filsofo malcompreendido. Barcarola, seu cmplice, cabriolava 
entre os grupos e exasperava os jogadores de cartas. Veneno de Rato vendia sua caa s velhinhas famintas, Thibault, o Sanfoni-neiro, girava a manivela de seu instrumento, 
lanando olhares zombeteiros pela janela de seu chapu de palha, enquanto Linot, seu pequeno acompanhante, garoto com olhos de anjo, percutia um cmbalo. Me Hurlurette 
e Pai Hurlurot se punham a danar, e a luz do fogo projetava no teto suas sombras grotescas e pesadas. Esse par de mendigos, dizia Barcarola, no tinha seno um 
olho e trs dentes para os dois. Hurlurot era cego e zangarreava uma espcie de caixa com duas cordas esticadas, que ele chamava violino. Ela, zarolha, gorda, com 
a enorme cabeleira de estopa cinzenta escapulindo de um turbante de pano sujo, tocava castanholas e jogava suas grossas pernas intumescidas, enfaixadas com vrias 
meias.
  Barcarola dizia ainda que ela devia ter sido espanhola... em outros tempos. Sobreviviam apenas as castanholas.
  No squito imediato de Calembredaine havia tambm P Ligeiro, o antigo corredor, sempre ofegante, Tabelot, o Corcunda, Jactncia, o Rapa-Bolsas, Prudente, um ladro 
muito choramingas e tmido, o que no o impedia de tomar parte em todos os arrombamentos, Belo Rapaz, que era o que se chama um barbillon, isto , rufio, e que, 
quando se vestia de prncipe, era capaz de enganar o prprio rei, prostitutas mansas como bestas de carga ou gritadeiras como harpias, saltimbancos, mais raros, 
porque eram vassalos de Rodogu-no, o Egpcio, e lacaios trapaceiros que, entre duas casas onde roubavam seus donos, tratavam de vender os furtos. Estudantes transviados, 
para sempre marcados pela corrupo da mendicncia, aonde os conduzira sua pobreza, vinham, em troca de pequenos servios, jogar seus dados entre os vadios. Chamavam-se 
"arquissequazes" esses faladores de latim, e eles editavam as leis do Grande Cosre. Um deles era aquele Grande Saco que, disfarado de monge, tinha atrado Conan 
Bcher a uma cilada.
  Os escroques da piedade pblica, os deformados, os cegos, os coxos, os moribundos do dia ocupavam tambm seu lugar na Tour de Nesle. As velhas paredes que tinham 
visto as luxuriosas orgias da Rainha Margarida de Borgonha e ouvido os estertores dos jovens degolados aps uma noite de amor findavam sua sinistra carreira trazendo 
em seus flancos os piores dejetos da criao. Porque existiam tambm os verdadeiros doentes, os idiotas, os semiloucos, os monstros corno aquele Crista de Galo, 
adornado com um estranho apndice na testa e sobre o qual Anglica no podia fixar os olhos. Calembredaine acabara por expulsar o infeliz.
  Mundo maldito: crianas que j no pareciam crianas, mulheres que se entregavam aos homens sobre a palha dos ladrilhos, velhos e velhas de olhos vagos como os 
de um co perdido. E no entanto reinava naquele ajuntamento um clima de despreocupao e de aprazimento que no era artificial.
  A misria s  insuportvel quando no  total e para aqueles que podem comparar. As pessoas do Ptio dos Milagres no tinham passado nem futuro.
  Muitos indivduos sadios, mas preguiosos, ali engordavam na ociosidade. A fome e o frio eram para os fracos, para aqueles que no estavam a isso habituados. O 
crime e a mendicncia eram as nicas tarefas. A incerteza do amanh no inquietava ningum. Que importava? O preo inestimvel daquela incerteza era a liberdade, 
o direito de matar ao sol os seus piolhos, quando lhes aprouvesse. O guarda dos pobres poderia vir sempre! As grandes damas e seus capeles podiam construir hospitais 
e asilos... Os mendigos no entrariam neles seno  fora, malgrado a sopa que lhes era assegurada.
  A mesa de Calembredaine era melhor, abastecida nos bons lugares pelos seus quadrilheiros que frequentavam as chala-nas do Sena, rondavam as charcuterias e os aougues 
e atacavam os camponeses que se dirigiam ao mercado.
  Diante do fogo crepitante de achas roubadas, Anglica apoiava-se nas macias coxas de Calembredaine. No existia uma ona de gordura naquele atleta. O rapazinho 
de outrora, que trepava nas rvores como um esquilo, tinha-se tornado um Hrcules, feito de msculos enormes e compactos, fcrn suas largas espduas, podia-se encontrar 
seu atavismo campons. Mas era certo que ele sacudira o barro de seus tamancos. Era um lobo das cidades, flexvel e rpido. . vuando seus braos se fechavam em volta 
de Anglica, ela mha a impresso de estar prisioneira de um crculo de ferro ,que nenhuma fora poderia romper. Conforme o momento, ela se revoltava, ou ento encostava, 
com gesto felino, sua face na face spera de Nicolau. Agradava-lhe ver acender-se nos olhos da fera um brilho intenso e a tomar conscincia de seu prprio poder. 
Nicolau s se mostrava a ela sem disfarce. Os traos do antigo Nicolau de Monteloup tornavam-na mais sensvel do que ela cria ao imprio do novo Nicolau, e quando 
ele lhe sussurrava naquele pato que tinha sido a primeira linguagem de ambos, as palavras que se dizem s pastoras nos montes de feno, o cenrio srdido se apagava. 
Era como uma droga, qualquer coisa que suaviza as feridas muito profundas.
  O orgulho que aquele homem sentia por possu-la era ao mesmo tempo insultante e impressionante.
  -        Voc era uma nobre... Era-me proibida - gostava ele de repetir -, e eu dizia comigo mesmo: "Hei de t-la". E eu sabia que voc viria... E agora  minha.
  Ela o insultava, mas defendia-se mal. Pois  certo que no se pode temer de verdade uma pessoa a quem se conheceu criana: so os reflexos da infncia os que menos 
se desfazem. A familiaridade que os unia um ao outro tinha razes muito distantes.
  -        Sabe o que eu pensava? - disse ele. - Todas essas ideias que eu tive em Paris e que me permitiram triunfar vieram-me das nossas aventuras da infncia 
e das nossas expedies.
Preparavam-se com grande antecedncia, lembra-se? Pois bem, quando eu estava organizando o meu... trabalho, algumas vezes dizia comigo mesmo...
  Interrompeu-se para refletir e passou a lngua nos lbios. Um garoto, de nome Flipot, agachado aos seus ps, estendeu-lhe um copo de vinho.
  - Est bem - rosnou Calembredaine recusando o copo -, deixe-nos conversar. s vezes eu pensava: "Que estar fazendo Anglica? Que belo plano lhe ter vindo  cabecinha?" 
E isso me ajudava... Por que voc est rindo?
  - Eu no rio, eu sorrio. Porque me recordo da ltima expedio que fizemos e que no foi muito gloriosa. Quando partimos para as Amricas e fomos esbarrar na Abadia 
de Nieul...
  -        E verdade! Foi uma bela tolice. Eu no devia ter-lhe seguido daquela vez...
  Ele continuou a refletir.
  -        No eram muito boas as suas ideias naquela poca.  porque voc estava crescendo, tornava-se mulher. As mulheres no tm bom senso... Elas tm-outra coisa 
- concluiu ele com um riso galhofeiro.
  Aps um momento de hesitao, ousou uma carcia, olhando sua companheira de soslaio. A fora de Anglica era que ele nunca sabia como seriam acolhidas suas iniciativas 
amorosas. Por causa de um beijo, ela saltava-lhe aos olhos, as pupilas flamejantes como as de uma gata irritada, ameaando precipitar-se do alto da torre, insultando-o 
com um vocabulrio de peixeira, que no tivera dificuldade em aprender.
  Ela se embezerrava dias inteiros, glacial, a ponto de impressionar Barcarola e de fazer gaguejar Belo Rapaz. Calem-bredaine reunia ento seus companheiros, e cada 
um, aflito, perguntava a si mesmo as causas do mau humor da jovem.
  Ao contrrio, em outras ocasies ela sabia fazer-se doce, risonha, quase meiga. Ele a reencontrava. Era ela!... Seu sonho de sempre! A garota Anglica, de ps 
descalos, esfarrapada, os cabelos enfeitados de raminhos, correndo pelos campos.
  De outras vezes, ainda, ela se tornava passiva e como ausente, submissa a tudo o que ele desejava dela, mas to indiferente que ele renunciava, inquieto, vagamente 
atemorizado.
  Um amor de criatura, a Marquesa dos Anjos!...
  Na realidade, ela no era calculista. Seu instinto feminino havia-lhe ensinado o nico meio de defesa. Assim como ela subjugara o pequeno campons Merlot, domava 
agora o bandido em que ele se convertera... Procurava fugir ao perigo de ser sua escrava ou sua vtima. Tinha-o  sua merc, mais pelo afago de seus consentimentos 
do que pela rudeza de suas recusas. E a paixo de Nicolau tornava-se cada dia mais abrasadora.
  Aquele homem perigoso, que tinha as mos manchadas de sangue, de muitos crimes, chegara a recear desgost-la.
  Naquela noite, vendo que a Marquesa dos Anjos estava de bom humor, ele se ps a acarinh-la com orgulho. E ela se fez langorosa, com a cabea pousada no ombro 
do rapaz e desdenhando as caras pavorosas e zombeteiras que os rodeavam. Permitiu que ele abrisse o seu corpete, que a beijasse violentamente na boca.
  Seu olhar de esmeralda filtrava-se atravs dos clios, provocativo e distante. Gozando interiormente a profundidade de sua queda, Anglica parecia exibir com prazer 
seu orgulho de ser a escolhida de um senhor temvel.
  Tal procedimento fazia rugir de raiva a Polaca.
  A antiga amante de Calembredaine no aceitava to facilmente sua brusca "demisso", tanto mais que, com a crueldade dos verdadeiros tiranos, Calembredaine a tinha 
feito criada de Anglica. Era ela quem devia levar  sua rival a gua quente para o banho, uso to espantoso no mundo dos mendigos que j se comentava at no Faubourg 
Saint-Denis. Em sua clera, a Polaca todas as vezes derramava metade da gua fervente sobre os prprios ps. Mas era tal o domnio do antigo criado sobre sua gente 
que ela no ousava pronunciar palavra diante daquela que lhe havia roubado a preferncia de seu homem.
  Anglica recebia com igual indiferena os servios e os olhares rancorosos daquela gorda moa trigueira. Na gria dos malandros, a Polaca era uma ribaude, uma 
mulher de soldados, dessas que acompanham os exrcitos em guerra. Tinha mais lembranas de batalha que um velho mercenrio suo. Podia falar de canhes, arcabuzes 
e lanas com igual facilidade, pois havia tido relaes com todos os graus da hierarquia militar. Andara mesmo, afirmava, com oficiais, por seus belos olhos e seus 
bonitos bigodes, pois esses gentis senhores tm frequentemente os bolsos mais vazios do que o de um bravo soldado rapinante. Ela reinara durante toda uma campanha 
sobre um regimento de poloneses, e da lhe provinha o apelido.
  Carregava  cintura uma faca, que puxava por qualquer motivo e da qual tinha a reputao de servir-se com habilidade.
  De noite, depois de ver o fundo de um canjiro de vinho, a Polaca se punha a falar de pilhagens e de incndios.
  - Ah! Belos tempos aqueles! Eu dizia aos soldados: "Beijem-me, rapazes. Matarei seus piolhos!"
  Comeava a entoar canes de corpos de guarda, beijava os velhos militares.
  Acabavam por expuls-la a grandes pontaps. Ento, sob a chuva e o vento hibernal, a Marquesa dos Polacos corria pelas margens do Sena e estendia os braos para 
o Louvre, invisvel na escurido.
  -        Ei, Majestade! Ei, Franc-Ripault, Rei - gritava ela -, quando nos dar a guerra?... A boa guerra! Que  que voc faz a da sua toca, imprestvel? De que 
me serve um rei sem batalhas? Um rei sem vitrias?
  Quando no estava sob a influncia do lcool, a Polaca esquecia seus propsitos blicos e no pensava seno em reconquistar Calembredaine. Empenhava-se nisso com 
todos os recursos de um carter sem escrpulos e de um temperamento vulcnico. Em sua opinio dizia, Calembredaine no tardaria a enfastiar-se daquela pequena que 
quase no ria e cujos olhos por vezes pareciam no v-lo.  verdade que eles eram conterrneos. Isso cria liames; mas ela conhecia Calembredaine. Isso no bastava 
ao rapaz. E ela, a Polaca, no queria seno uma partilha. Afinal de contas, duas mulheres para um homem no eram demasiado. O Grande Cosre tinha seis!
  A situao, afinal, teve o seu desenlace inevitvel. Foi curto, mas violento.
  Certa noite, Anglica tinha ido ver Traseiro de Pau em um buraco em que ele se alojava, nas proximidades do Pont Saint-Michel. Ela lhe levara um chourio. Traseiro 
de Pau era a nica personagem do bando a quem ela dispensava considerao. Tinha para com o aleijado atenes que ele recebia, alis, com a cara de buldogue de quem 
acha isso completamente normal.
  Nessa noite, depois de ter farejado o chourio, ele olhou Anglica e disse-lhe:
  - Quando sair daqui, para onde ir?
  - Voltarei para Nesle.
  - No v diretamente para l. Ao passar, entre na taberna de Ramez, perto do Pont Neuf. Calembredaine est l com os companheiros e a Polaca.
  Ele esperou um instante, como para dar-lhe tempo de entender. Depois insistiu:
  - Compreendeu o que deve fazer?
  - No.
  Ela estava ajoelhada diante dele, como costumava fazer, a fim de ficar na mesma altura do homem-tronco. O cho e as paredes do covil eram ae terra batida. O nico 
mvel era uma mala de couro fervido, na qual Traseiro de Pau guardava seus quatro trajes e seus trs chapus. Ele era muito cuidadoso com a sua meia pessoa.
  A toca era alumiada por uma lamparina de igreja, roubada, presa  parede: um delicado trabalho de ourivesaria, de prata dourada.
  - Voc entrar no quarto - explicou Traseiro de Pau com ar sentencioso - e, quando tiver visto o que Calembredaine est fazendo com a Polaca, pegar o que tiver 
ao alcance da mo: um vaso, uma garrafa, e dar-lhe- com o objeto na cabea.
  - A quem?
  - A Calembredaine,  claro! Num caso como este, no se preocupe com a mulher.
  - Eu tenho uma faca - disse Anglica.
  - No a use; no sabe servir-se dela. Alm disso, para dar uma lio ao mendigo que engana sua marquesa, no h como um golpe na cabea, acredite-me!
  - Mas a mim pouco se me d que esse maltrapilho me engane - disse Anglica com um sorriso altivo.
  Os olhos de Traseiro de Pau faiscaram sob as brenhosas sobrancelhas. Ele falou com lentido:
  -        Voc no tem o direito... Direi mais: no pode escolher. Calembredaine  poderoso entre os nossos. Ele a ganhou. Ele a tomou. Voc no tem o direito de 
desdenh-lo. No tem o direito de deix-lo desprez-la. Ele  seu homem.
  Anglica teve um estremecimento em que havia clera e uma surda voluptuosidade. Sentiu um estrangulamento na garganta.
  -        Eu no quero - murmurou ela com voz sufocada.
O aleijado soltou uma gargalhada amarga.
  -        Eu tambm no queria, quando uma bala me cortou as duas pernas em Nordligen. Ela no pediu minha opinio. Voc no pode discutir essas coisas.  preciso 
conformar-se, eis tudo... E preciso aprender a caminhar num prato de madeira...
  A chama da griseta mostrava todos os botes da gorda face de Traseiro de Pau. Anglica achou-o parecido com uma enorme trufa, um cogumelo crescido na sombra e 
na umidade da terra.
  -        Aprenda pois voc tambm a caminhar entre os mendigos - continuou ele em voz baixa e insistente. - Faa o que
eu lhe digo. Seno, morrer.
  Ela sacudiu a cabeleira para trs, em atitude altaneira.
  - No tenho medo da morte.   
  - No lhe falo dessa morte - resmungou ele. - Mas da outra morte, a pior, a de si mesma...
  De repente, ele se encolerizou.
  -        Voc me faz dizer coisas! Procuro faz-la compreender, pelo diabo! Voc no tem o direito de deixar que uma Polaca a esmague! No tem o direito... Compreende?
  Ele a verrumava com um olhar de fogo.
  -        Vamos, ponha-se em marcha! D-me a garrafa e o copo, a no canto.
  E aps encher o copa de aguardente:
  -        Beba de um gole, depois v l... No tenha medo de bater com fora. Eu conheo Calembredaine. Ele tem o crnio
slido!
  Penetrando na tasca de Ramez, natural do Auvergne, Anglica parou na soleira. O nevoeiro era quase to espesso no interior quanto do lado de fora. A chamin funcionava 
mal e enchia a sala de fumaa. Alguns trabalhadores, com os cotovelos pousados nas mesas vacilantes, bebiam em silncio.
  Ao fundo da pea, diante da lareira, Anglica viu os quatro soldados que compunham a guarda habitual de Calembredaine: Penia, Gobert, Riquet, La Chausse, depois 
Barcarola trepado em uma mesa, Jactncia, Prudente, Grande Saco, Veneno de Rato e finalmente Nicolau, tendo sobre os joelhos a Polaca descomposta e quase de pernas 
para o ar, que berrava canes bquicas.
  Era o Nicolau que ela detestava, o rosto disfarado e hediondo de Calembredaine.
  Aquele espetculo e mais o lcool que Traseiro de Pau lhe tinha feito beber despertaram seu instinto combativo. Com mo rpida, ela agarrou uma pesada jarra de 
estanho em cima de uma das mesas e avanou at o grupo. Os assistentes estavam demasiado brios para perceb-la e reconhec-la. Quando ela se encontrou atrs de 
Nicolau, reuniu suas foras e golpeou cegamente.
  Houve um grande "Uh!", soltado por Barcarola. Depois Nicolau Calembredaine vacilou e caiu de cabea nos ties da lareira, arrastando a Polaca, que se ps a uivar.
  Seguiu-se uma enorme confuso. Os outros bebedores precipitaram-se para fora. Gritavam "assassinato", enquanto os narquois puxavam de suas espadas e Jactncia, 
agarrado ao corpo de Nicolau, procurava pux-lo para trs.
  Os cabelos da Polaca comearam a queimar-se. Barcarola correu at a extremidade da mesa em que se achava empoleirado, agarrou uma bilha de gua e despejou-a na 
cabea da mulher.
  De repente, uma voz gritou:
  -        Dem o fora, irmos! Vem a a polcia.
Ouviram-se passos l fora. Um guarda do Chtelet, com a pistola na mo, apareceu na entrada, gritando:
  -        No se mexam, ladres!
  Mas a espessa fumaa e a escurido quase total do aposento fizeram-no perder um tempo precioso.
  Pegando o corpo inerte de seu chefe, os bandidos tinham-no arrastado para trs da taberna e fugiam por outra sada.
  -        Mexa-se, Marquesa dos Anjos! - berrou Grande Saco.
Saltando por cima de um banco tombado, ela procurou juntar-se a eles. Um slido punho segurou-a na passagem e uma voz gritou:
  -        Agarrei a mendiga.
  Subitamente, Anglica viu a Polaca erguer-se diante dela. A ribaude levantava seu punhal.
  "Vou morrer", pensou Anglica num turbilho.
  A lmina brilhou, atravessando a sombra. O beleguim que segurava Anglica dobrou-se em dois e desabou com um estertor.
  A Polaca jogou uma mesa s pernas dos policiais que acorreram. Empurrou Anglica para a janela e as duas saltaram para a rua. Um tiro estrondeou aos seus calcanhares.
  Alguns instantes mais tarde, as duas mulheres reuniram-se ao grupo dos sequazes de Calembredaine, nos arredores do Pont Neuf. Tinham interrompido a fuga para tomar 
flego.
  - Uf! - suspirou Penia, enxugando com a manga a testa suada. - No creio que eles nos sigam at aqui. Mas esse maldito Calembredaine  feito de chumbo, palavra 
de honra!
  - Eles no prenderam ningum? Voc est a, Barcarola?
  - Aqui estou.
  A Polaca explicou:
  -        Eles tinham agarrado a Marquesa dos Anjos. Mas eu acertei o tira na barriga. Este aqui no perdoa.
  Mostrou o punhal manchado de sangue.
  O cortejo reiniciou o trajeto para a Tour de Nesle, engrossado por todos os camaradas que quela hora rondavam seu lugar favorito.
  A notcia passou de boca em boca:
  -        Calembredaine! O ilustre libertino! Ferido!
Grande Saco explicou:,
  -        Foi a Marquesa dos" Anjos que lhe deu um golpe de rachar, porque ele alisava a Polaca...
  - Bem feito! - diziam. Um homem props:
  - Vou buscar o Grande Mateus. E partiu correndo.
  Na Tour de Nesle, estava Calembredaine estendido sobre a mesa da grande sala.
  Anglica aproximou-se dele, tirou-lhe a mscara e examinou-lhe o ferimento. Ela estava desconcertada por v-lo assim imvel e coberto de sangue; no tinha a impresso 
de haver batido to forte; a peruca devia t-lo protegido. Mas o p da jarra atingira e penetrara a fronte. Alem disso, ao cair, Calembredaine tinha queimado a testa.
  Anglica ordenou:
  -        Ponham gua a esquentar.
  Vrios garotos se atropelaram para obedeeer-lhe. Sabiam bem que a gua quente era a mania da Marquesa dos Anjos e que o momento no era muito apropriado para contrari-la. 
Ela havia agredido Calembredaine, e a prpria Polaca no ousara pr em execuo suas ameaas. Anglica agira em silncio, no momento certo, pela maneira certa... 
Todos se admiravam e ningum lamentava o ocorrido, porque sabiam que Calem-bredaine tinha a cabea dura.
  De repente um toque de clarim se elevou do lado de fora. A porta abriu-se e o Grande Mateus, dentista emprico do Pont Neuf, apareceu.
  Mesmo quela hora avanada, no deixara ele de pr sua clebre gola pregueada, de enfiar seu colar de molares e de se fazer acompanhar de seus cmbalos e de sua 
trombeta.
  O Grande Mateus, como todos os charlates, tinha um p na mendicncia e o outro na antecmara dos prncipes. Todos os seres igualavam-se diante da torqus do tira-dentes. 
E a dor torna o senhor mais arrogante to fraco e crdulo como o bandido mais audacioso. Os opiatos salvadores, os elixires benfazejos, os emplastros miraculosos 
do Grande Mateus faziam dele um homem universal. Era para ele que o Poeta Pobre havia composto uma cano que os sanfonineiros cantavam nas esquinas:
  "...E por uma secreta causa
  que ele conhecia em todos os males,
  ordenava a mesma coisa
  para os homens e os cavalos..."
  Ele atendia a meretrizes e ladres para conquistar-lhe as boas graas e por natural cordialidade, e cuidava dos grandes por ambio e cupidez. Poderia ter feito 
uma carreira sensacional entre as grandes damas, em que dava familiarmente palmadinhas, e a quem tratava, indistintamente, por alteza, prostituta e mulher. Mas, 
tendo viajado atravs da Europa, decidira findar seus dias no Pont Neuf e ningum o arrancaria dali.
  Olhou o imvel Nicolau com visvel satisfao.
  -        Foi voc que arranjou isso? - perguntou a Anglica.
Antes que ela tivesse tempo de responder, ele segurou-lhe fortemente o queixo e examinou-lhe a boca.
  -        Nenhum toco para arrancar - disse com desgosto. - Vejamos mais embaixo. Est grvida?
  E premiu-lhe o ventre to energicamente que ela deu um grito.
  -        No. O ba est vazio. Vejamos mais embaixo...
Anglica esquivou-se de um salto.
  - Grande pote de orvieto! - gritou ela furiosa. - No foi chamado aqui para me apalpar, mas para se ocupar deste homem...
  - Oh! Oh! a marquesa! - fez o Grande Mateus. - Oh! Oh!... Oh! Oh! Oh!...
  Seus "Oh! Oh!" iam num crescendo, e ele acabou rindo de fazer desmoronar as abbadas, segurando o abdome com as duas mos. Era um gigante muito corado, sempre 
vestido de sobrecasaca de cetim laranja ou azul-pavo. Usava peruca sob um chapu lindamente emplumado. Quando descia assim ao mundo dos mendigos, entre farrapos 
cinzentos e chagas repugnantes, ofuscava como o sol.
  Quando ele acabou de rir, viu-se que Nicolau Calembre-daine havia voltado a si. Sentado sobre a mesa, tinha uma expresso m, que no fundo disfarava um certo 
embarao. No ousava olhar par-a Anglica.
  - Por que esto todos a galhofar, scia de patifes? - bramiu ele. - Jactncia, estpido! Voc deixou de novo queimar q assado. Desta vez o cheiro  de porco.
  -  voc o porco queimado - rugiu o Grande Mateus, enxugando as lagrimas do riso com um leno quadriculado. - E a Polaca tambm! Olhem! Ela tem metade das costas 
grelhada! Oh! Oh! Oh!...
  E ps-se a rir estrondosamente.
  Divertiram-se bastante naquela noite, na Tour de Nesle, em frente ao Louvre.
  
  CAPITULO IV
  
  Anglica, na misria,  tenazmente perseguida pelo policial Desgrez
  
  - Olhe um pouco ali adiante - disse Penia a Anglica. - Aquele homem que passeia perto da gua com o chapu sobre os olhos e o casaco sobre o bigode... Reparou? 
Pois bem,  um grimaut.
  - Um grimaut}
  - Um policial, se voc preferir.
  - Como voc sabe?
  - Eu no sei, eu sinto.
  E o narquois franziu o nariz de bbado, aquele apndice bulboso e vermelho que lhe valera a alcunha de Penia.
  Anglica pousara os cotovelos na pequena ponte em arco que franqueava os fossos diante da Porte de Nesle. Um sol plido dissipava o nevoeiro que havia alguns dias 
baixara sobre a cidade.
  A outra margem, a do Louvre, permanecia invisvel ainda, mas havia doura no ar. Crianas em farrapos pescavam nos fossos, enquanto um lacaio, na beira do rio, 
lavava dois cavalos, depois de t-los feito beber.
  O homem que Penia tinha apontado com o cachimbo tinha o ar de um passeante inofensivo, de um pequeno burgus que, nas margens do Sena, vem dar alguns passos antes 
do jantar. Ele olhava o lacaio esfregar os animais e, de vez em quando, levantava a cabea para a Tour de Nesle, como se estivesse interessado naquele vestgio em 
runas de uma poca distante.
  -        Sabe o que ele procura? - tornou Penia soprando no rosto de Anglica sua fumaa de tabaco ordinrio.
  Ela se afastou um pouco.
  - No.
  - A voc.
  - A mim?
  - Sim, a voc, a Marquesa dos Anjos. Anglica teve um vago sorriso.
  - Voc  um visionrio.
  - Eu sou... o qu?
  - Nada. Quero dizer que voc imagina coisas. Ningum me procura. Ningum pensa em mim. Eu no existo mais.
  -  possvel. Mas, no momento,  sobretudo o guarda Martin que no existe mais... Voc se lembra? Na taberna de Ramez, Grande Saco gritou: "Mexa-se, Marquesa dos 
Anjos!" Isso ficou nos ouvidos deles e, quando viram o guarda com o ventre aberto... "Marquesa dos Anjos", disseram eles entre si, " a mendiga que o acertou." E 
agora a procuram. Sei disso porque ns, antigos soldados, bebemos s vezes um gole com os camaradas de guerra que trabalham no Chte-let. Eles nos do informaes.
  - No h motivo para voc se inquietar - disse a voz de Calembredaine atrs deles. - Se ns quisssemos, o cara que est l embaixo daria um mergulho no Sena. 
Que  que eles podem contra ns? Eles so apenas cem, enquanto ns...
  Teve um gesto orgulhoso, como se tivesse na mo a cidade inteira. A montante, o clamor do Pont Neuf e dos charlates elevava-se atravs da bruma.
  Um coche entrou na ponte. O pequeno desfez-se para deix-lo passar; mas,  sada da ponte, os cavalos tropicaram, pois um mendigo se havia jogado sob suas patas. 
Era Po Negro, um dos pobres de Calembredaine, velho de barbas brancas, todo ajaezado de grandes teros e de conchas de So Tiago.
  -        Piedade! - implorava ele. - Tenham piedade de um pobre peregrino que, a caminho de Compostela, para fazer um voto, no tem mais com que continuar- sua 
viagem. Dem-me alguns soldos, e eu rezarei por vocs sobre a sepultura de So Tiago.
  O cocheiro desferiu-lhe violenta chicotada.
  -        Para trs, romeiro do diabo!
  Uma dama ps a cabea pela portinhola. Seu manto entreaberto deixava ver belas jias em seu pescoo.
  -        Que se passa, Lorrain? Apresse um pouco seus animais.
Quero estar na Abadia de Saint-Germain-des-Prs para as completas.
  Nicolau deu alguns passos e pousou a mo sobre a maaneta da portinhola.
  -        Piedosa dama - disse ele tirando seu chapu furado -, a senhora, que vai s completas, recusaria seu bolo a este pobre peregrino que vai orar a Deus 
to longe, na Espanha?
  A dama olhou a cara barbada que lhe aparecia ao crepsculo, examinou o indivduo cujo casaco rasgado deixava ver os bceps de lutador e em cuja cintura estava 
presa uma faca de aougueiro. Abriu uma boca enorme e ps-se a berrar:
  -        Socorro! Assass...
  Penia j tinha encostado a ponta de sua tarasca no ventre do cocheiro. Po Negro e Flipot, um dos garotos que pescavam nos fossos, seguraram os cavalos. Prudente 
acorreu. Ca-lembredaine saltou para o interior da carruagem e, com mo brutal, sufocou os gritos da dama.
  Ele gritou para Anglica:
  -        Seu fichu! D-me seu fichu!
  Anglica, sem saber como, viu-se dentro da carruagem, envolvida por um aroma de p de ris e perto de uma bela saia com passamanes dourados.
  Calembredaine havia-lhe tirado seu leno de pescoo e entupia com ele a garganta da dama.
  -        Faa alguma coisa, Prudente! Arranque-lhe os balangandas! Tome-lhe o dinheiro!
  A mulher debatia-se com vigor. Prudente suava para desprender as jias: uma pequena corrente de ouro e aquilo que se chamava um carcan, isto , uma bela placa, 
tambm de ouro, com grandes diamantes incrustados.
  - Ajude-me, Marquesa dos Anjos! - gemeu ele. - Eu me perco nessas bugiarias.
  - Mexa-se, ande depressa - rosnou Calembredaine. - Ela me escapa. At parece uma enguia!
  As mos de Anglica acharam o fecho. Era muito simples. Ela havia usado jias semelhantes.
  -        Chicoteie, cocheiro! - gritou a voz trocista de Penia.
A carruagem desceu, com grande rudo, a Rue du Faubourg Saint-Germain. Feliz de ter escapado, o cocheiro fustigava os animais. Um pouco mais longe,.a mulher, que 
conseguira retirar a mordaa, ps-se a uivar. As mos de Anglica estavam cheias de ouro.
  -        Traga a vela - gritou Calembredaine.
  Na sala de Nesle, reuniam-se os assaltantes em volta da mesa, e cada um olhava as magnficas jias que Anglica acabava de colocar sobre ela.
  - Uma bela colheita!
  - Po Negro ter sua parte. Foi ele quem comeou.
  - Mesmo assim - suspirou Prudente -, foi arriscado. Ainda era dia.
  - Ocasies como essa no se desperdiam, voc aprender, idiota, desajeitado! Ah! Voc foi muito ligeiro. Se a Marquesa no lhe houvesse dado uma mozinha...
  Nicolau olhou Anglica e teve um estranho sorriso vitorioso.
  -        Voc tambm, voc ter sua parte - murmurou ele.
Ele jogou-lhe a corrente de ourp. Ela empurrou-a com horror.
  - Mesmo assim - repetiu Prudente -, foi arriscado. Com um guarda a dois passos dali, era perigoso.
  - Havia nevoeiro. Ele nada viu e, se ouviu, ainda deve estar correndo. Que  que ele podia fazer? S h um de quem eu tenho medo. Mas esse no  visto h muito 
tempo.  preciso esperar que ele se faa acertar convenientemente em algum lugar.  pena. Eu gostaria de ter sua pele, a dele e a de seu maldito co.
  - Oh! O co! O co! - exclamou Prudente com os olhos esbugalhados. - Ele me pegou aqui...
  E levou a mo  garganta.
  -        O homem do co - murmurou Calembredaine semicerrando os olhos. - Mas agora me recordo, eu vi voc comele, um dia, perto, perto do Petit Pont. Voc o conhece?
  Aproximou-se de Anglica e olhou-a pensativamente antes de sorrir de novo de maneira terrvel.
  - Voc o conhece? - repetiu ele. - Isso  bom. Voc nos ajudar a apanh-lo, hem, agora que  dos nossos?
  - Ele deixou Paris. No voltar mais, eu sei - disse Anglica com voz aguda.
  - Gh! Sim, ele voltar...
  Calembredaine sacudiu a cabea e os outros o imitaram. Penia grunhiu em tom lgubre:
  -        O homem do co sempre volta.
  - Voc nos ajudar, hem? - insistiu Nicolau. Ele apanhou a corrente de ouro de sobre a mesa.
  - Fique com ela, querida. Voc bem a ganhou.
  - No!
  - Por que no?
  -        No gosto de ouro - disse Anglica, que de repente foi acometida de um tremor convulsivo. - Tenho horror ao ouro.
  E saiu, no podendo suportar aquele crculo infernal.
  A silhueta do policial havia desaparecido. Anglica caminhava ao longo das margens do rio. No nevoeiro azulado, tremeluziam os pontos amarelos das lanternas penduradas" 
na proa das chalanas. Ela ouviu um bateleiro afinar sua guitarra e pr-se a cantar. Ela distanciou-se, andando para a extremidade do faubourg, de onde vinha um odor 
de campo. Quando parou, a noite e a bruma tinham cessado todos os rudos. Ela no ouvia seno o murmrio das guas que batiam nos canios e nos barcos amarrados.
  Anglica disse a meia voz, como uma criana que tem medo de um grande silncio:
  -        Desgrez!
  Pareceu-lhe ouvir uma voz sussurrar nas dobras da noite e da gua:
  "Quando a noite cai sobre Paris, samos a caar. Descemos at as margens do Sena, vagamos sob as pontes e entre os pilares, erramos sobre as velhas muralhas, mergulhamos 
nos covis malcheirosos de mendigos e bandidos..."
  "O homem do co voltar... O homem do co sempre volta..."
  "E agora, senhores, chegou a hora de fazer-lhes ouvir uma voz grandiosa, uma voz que, acima das torpezas humanas, nunca procurou seno iluminar com prudncia os 
seus fiis."
  "O homem do co voltar... O homem do co sempre vol-ta...
  Ela apertou os ombros com as .duas mos para reprimir o grito que lhe inflava o peito:
  -        Desgrez! - repetiu ela.
  Mas somente o silncio lhe respondeu, um silncio to profundo como o silncio nevoso em que Desgrez a tinha abandonado.
  Deu alguns passos para o rio, e seus ps afundaram-se na vasa. Depois a gua rodeou-lhe os tornozelos. Ela sentia-se gelada... Barcarola diria: "Pobre Marquesa 
dos Anjos! No lhe deve ter sido desagradvel morrer na gua fria, a ela que tanto gostava de gua quente?"
  Entre os canios, remexia-se um animal, um rato, sem dvida. Uma pequena,bola de plo molhado roou as panturrilhas de Anglica. Ela soltou um grito assustada 
e voltou precipitadamente para a margem. Mas as patas se agarravam  sua saia com as unhas. O rato subia nela, que batia em todas as direes para se ver livre dele. 
O animal comeou a dar gritos agudos. De repente, Anglica sentiu em volta do pescoo o aperto de dois pequenos braos gelados. Gritou surpresa:
  -        Que  isto? No  um rato!...
  No caminho de sirgagem, dois embarcadios passavam com uma lanterna. Anglica se dirigiu a eles:
  -        Ei! Barqueiros! Emprestem-me sua lanterna.
  Os dois homens pararam e examinaram-na com desconfiana.
  - Uma bela moa - disse um deles.
  - Calma - disse o outro. -  a fmea de Calembredai-ne. Fica quieto, se no quiser ser sangrado como um porco. Desta ele tem cime! Um verdadeiro turco!
  - Oh! Um macaco - exclamou Anglica, que havia enfim conseguido distinguir a espcie de animal que se agarrava assim a ela.
  O smio continuava a apertar seus longos braos finos em torno do pescoo de Anglica e seus olhos negros e medrosos olhavam a jovem de maneira quase humana. Embora 
vestido com um calo de seda vermelha, ele tiritava sem cessar.
  -        No pertence a vocs ou a algum de seus camaradas?
Os marinheiros abanaram a cabea.
  - No. Ele deve pertencer a um dos saltimbancos da feira de Saint-Germain.
  - Eu o encontrei ali. Perto do rio.
  Um dos homens balanou a lanterna na direo que ela indicava.
  -        H algum ali - disse ele.
  Aproximaram-se e descobriram um corpo estendido na posio de quem dorme.
  -        Ol! Est muito frio para dormir a!
  Como o homem no se mexia, eles o viraram e soltaram uma exclamao de espanto, pois ele usava uma mscara de veludo vermelho. Uma longa barba branca espalhava-se 
sobre seu peito. Seu chapu cnico, adornado com fitas vermelhas entrecruzadas, seu alforje bordado, suas calas de veludo, igualmente presas s pernas por fitas 
usadas e enlameadas, eram de um saltimbanco italiano, um desses exibidores de animais e pelotiqueiros que vinham do Piemonte  e iam de feira em feira.
  Estava morto. Sua boca aberta j estava cheia de lodo.
  O macaco, sempre agarrado a Anglica, soltava gritos chorosos.
  A jovem inclinou-se e retirou a mscara vermelha. O rosto era o de um velho emaciado. A morte havia-lhe consumido as carnes. Os olhos estavam vidrados.
  -        Temos de lan-lo ao rio - disse um dos barqueiros.
Mas o outro, que se benzera piedosamente, disse que era preciso ir buscar um padre de Saint-Germain-des-Prs e dar sepultura quele pobre estrangeiro.
  Sem fazer rudo, Anglica deixou-os e retomou o caminho da Tour de Nesle.
  Levava o macaquinho fortemente agarrado a si. Sacudiu a cabea e recordou-se de uma cena  qual, no momento, no prestara nenhuma ateno. Fora na Taberna dos 
Trs Malhos que ela havia visto aquele macaco pela primeira vez. Ele fazia rir todos os fregueses imitando-lhes a maneira de beber ou de comer. E Gontran tinha dito, 
mostrando  sua irm o velho italiano: "Olha, que maravilha, aquela mscara vermelha e aquela barba cintilante!"
  Recordou tambm que o dono havia chamado Piccolo ao macaco.
  -        Piccolo!
  O smio soltou um grito cheio de tristeza e se achegou a ela. Somente mais tarde Anglica percebeu que tinha conservado na mo a mscara vermelha.
  No mesmo momento, Mazarino dava o ltimo suspiro. Depois de se ter feito transportar a Vincennes e de ter mandado sua fortuna ao rei, que a tinha recusado, o senhor 
cardeal deixara esta vida, a que dava o justo valor, por haver-lhe conhecido as formas mais diversas.
  Sua paixo mais profunda, o poder, ele a legara a seu real pupilo.
   o primeiro-minstro, erguendo para o rei seu rosto amarelado, lhe tinha transmitido, em um murmrio, a chave do poder absoluto.
  -        Nada de primeiro-ministro, nada de favorito! O senhor, somente o senhor...
  Depois, desdenhoso das lgrimas.da rainha-me, o italiano morreu.
  A Paz de Vestflia com a Alemanha, a Paz dos Pireneus com a Espanha, a Paz do Norte, concluda por ele sob a gide da Frana: todas as pazes velavam  sua cabeceira.
  O pequeno rei da Fronda, da guerra civil e da guerra externa, o pequeno rei que tivera outrora a coroa ameaada pelos grandes enquanto ele errava de cidade em 
cidade, doravante apareceria como o rei dos reis.
  Lus XIV ordenou as preces das quarenta horas e ps luto. A corte teve de imit-lo. Todo o reino murmurou diante dos altares pelo odiado italiano, e o dobre ininterrupto 
dos sinos ecoou durante dois dias sobre Paris.
  Depois, tendo derramado as ltimas lgrimas de um jovem corao decidido a no mais se deixar vencer pelo sentimentalismo, Lus XIV comeou a trabalhar.
  Encontrando na antecmara o presidente da assembleia do clero, que lhe perguntou a quem devia dirigir-se para as questes que o senhor cardeal habitualmente resolvia, 
o rei respondeu: "A mim, senhor arcebispo".
  -        Nada de primeiro-ministro... Nada de favorito todo-
poderoso... O Estado sou eu, senhores!
  Os ministros, espantados, mantinham-se de p, diante daquele jovem cujo gosto dos prazeres lhes havia dado outras esperanas. Como empregados disciplinados, apresentavam 
seus dossis.
  A corte sorria, incrdula. O rei tinha estabelecido para si mesmo um programa, hora por hora, no qual todas as suas ocupaes estavam compreendidas, bailes e amantes, 
mas sobretudo trabalho, um trabalho intenso, constante, escrupuloso. Sacudiam a cabea. Aquilo no duraria muito, diziam.
  Mas durou cinquenta anos.
  Do outro lado do Sena, na Tour de Nesle, era pelos relatos de Barcarola que o eco da vida real chegava at os mendigos. Barcarola, o ano, estava sempre bem informado 
do que se passava na corte.  que, em seus momentos de folga, ele vestia um traje de bobo do sculo XVI, com guizos e plumas, e abria a porta de uma das maiores 
adivinhas de Paris.
  -        E as belas damas que a vo ver debalde se mascaram,
se cobrem de vu; eu as reconheo, todas...
  Ele pronunciava nomes, e dava tais detalhes que Anglica, que as conhecera, no podia duvidar de que as mais brilhantes flores do squito do rei frequentassem 
o covil suspeito da dita pitonista.
  Essa mulher se chamava Catarina Monvoisin. Deram-lhe o apelido de La Voisin. Barcarola dizia que ela era temvel e sobretudo muito hbil. Acocorado, em sua posio 
habitual de sapo, junto de seu amigo Traseiro de Pau, Barcarola, em pequenas frases revelava a Anglica, alternadamente assombrada e curiosa, os segredos das intrigas 
e o atroz arsenal das prticas e mistificaes de que era testemunha.
  Por que essas grandes damas ou esses prncipes deixavam o Louvre de casaco cinza e mascarados? Por que corriam atravs das ruelas lamacentas de Paris e batiam 
 porta de um antro que lhes era aberto por um ano ameaador? Por que confiavam seus segredos mais ntimos aos ouvidos de uma mulher meio bria?
  Porque desejavam aquilo que no se obtm apenas com dinheiro.
  Queriam amor. O amor da juveatude, mas tambm o amor que desejam conservar as mulheres maduras que vem seus amantes esfriar, e as ambiciosas que nunca se satisfazem, 
que procuram subir mais alto, sempre mais alto.
  Pediam a La Voisin o filtro mgico que escraviza o corao, a droga afrodisaca que arrebata os sentidos.
  Alguns cobiavam a herana de um velho tio, que no se decidia a desaparecer, ou, ento, a morte de um velho marido, de uma rival, de um nascituro.
  Fazedora-de-anjos, envenenadora, feiticeira: La Voisin era tudo isso.
  Que queriam mais? Achar tesouros, falar ao Demnio, rever um defunto, maar  distncia por meio de magia? Bastava procurar La Voisin. Tratava-se somente de fazer 
o preo, e La Voisin apelava para os seus cmplices: o sbio que fabricava os venenos, o lacaio ou a criada que roubavam as cartas, o padre transviado que rezava 
missas negras e tambm a criana que era imolada, no instante do sacrifcio, enterrando-se-lhe uma longa agulha no pescoo, e da qual se bebia o sangue...
  Precipitada nos basfonds do Ptio dos Milagres, por um processo de falso bruxedo, Anglica descobria, pelas narrativas de Barcarola, a verdadeira bruxaria. Barcarola 
desvendava-lhe tambm a assombrosa corrupo do sentimento religioso no sculo XVIII.
  Um certo Joo Podre vendia muitas crianas a La Voisin para os sacrifcios.
  Fora por ele, alis, que Barcarola entrara como porteiro da adivinha.
  Joo Podre amava o trabalho srio, bem-feito, bem organizado.
  Anglica no podia encontrar a ignbil personagem sem estremecer.
  Quando, pela desmantelada porta da sala, se introduzia aquele pequeno homem de rosto plido, de olhos turvos de peixe morto, ela tremia. Uma serpente no a teria 
aterrorizado mais.
  Joo Podre era mercador de crianas. Em algum lugar para os lados do Faubourg Saint-Denis, no feudo mesmo do Grande Cosre, havia um grande casebre de barro do 
qual os mais empedernidos no falavam sem baixar a voz. Dia e noite elevavam-se os prantos dos inocentes martirizados. Crianas achadas, crianas roubadas amontoavam-se 
ali. Aos mais franzinos torciam-lhes os membros, a fim de alug-los aos mendigos, que deles se serviam para apiedar os transeuntes. Os mais bonitos, meninos e meninas, 
eram educados com cuidado e vendidos, ainda jovens, a senhores viciosos, que os reservavam antecipadamente para seus abominveis prazeres. Os mais felizes eram os 
comprados pelas mulheres estreis, ansiosas de ter um sorriso de criana no lar, ou ainda de alegrar um marido descontente. Outros asseguravam, ainda, alguma herana 
por meio de uma descendncia aparente.
  Saltimbancos e charlates adquiriam por alguns soldos crianas sadias s quais ensinavam a fazer peloticas.
  Um trfico enorme, incessante, tinha por objeto essa lastimvel mercadoria. As pequenas vtimas morriam s centenas. Sempre havia novos suprimentos. Joo Podre 
era infatigvel. Visitava as amas-de-leite, enviava seus agentes aos campos, recolhia os abandonados, subornava as empregadas das creches pblicas e dos orfanatos, 
fazia raptar os pequenos da Savoie ou da Auvergne que, vindos a Paris com seus lenos de cabea e seu material de limpeza de chamins ou de engraxate, desapareciam 
para sempre.
  Paris os tinha engolido como engolia os fracos, os pobres, os isolados, os doentes incurveis, os aleijados, os velhos, os soldados sem penso, os camponeses expulsos 
de sua terra pelas guerras, os comerciantes arruinados.
  A estes a matterie abria o seio nauseabundo e oferecia todos os recursos de suas artimanhas codificadas pelos sculos.
  Uns aprendiam a tornar-se epilpticos e outros a roubar. Velhos e velhas alugavam-se para formar o cortejo dos enterros. As moas prostituam-se e as mes vendiam 
os filhos.
  s vezes um gentil-homem pagava a um grupo de espadachins para matar um inimigo em qualquer canto de rua. Ou ento buscava no Ptio dos Milagres os elementos de 
um tumulto destinado a fazer triunfar uma intriga de corte. Paga para gritar e injuriar, a gente da matterie fazia-o de corao alegre. Diante de um grupo de farroupilhas 
ameaadores, muitos ministros se viram na iminncia de ser lanados ao rio, e cederam s presses dos rivais.
  Em vsperas de dias santos, figuras eclesisticas introduziam-se nos mais perigosos covis. No dia seguinte o relicrio de Santa Oportuna ou de So Marcelo passaria 
pelas ruas. Os cnegos do captulo desejavam que um bem-vindo milagre reanimasse, no momento psicolgico, a f da multido. Onde poderiam encontrar os miracules 
seno no Ptio dos Milagres? Bem pagos, o falso cego, o falso surdo, o falso paraltico esperavam a passagem da procisso e de repente proclamavam sua cura, vertendo 
lgrimas de jbilo.
  Quem podia dizer que os sditos do reino de Thunes viviam na ociosidade?
  Belo Rapaz no tinha tanta canseira com seu batalho de prostitutas, que lhe traziam, com pontualidade, o seu salrio, mas cujas querelas ele tinha de apaziguar 
e para as quais tinha de roubar os atavios necessrios ao seu comrcio?
  Penia, Gobert e todos os drilles enarquois do lugar achavam, por vezes, a noite fria e rara a caa.
  Por um casaco que arrancavam, quantas horas de espreita e quantos gritos e desassossegos!
  E ver os falsos epilpticos cuspirem bolhas de sabo, rolando por terra no meio de um crculo de basbaques estpidos, era assim to divertido?
  Particularmente quando no fim da jornada no esperava alguma daquelas pessoas seno a morte, solitria, num canial de beira de rio ou, pior ainda, a tortura nas 
prises do Chtelet, a tortura que fazia rebentar os nervos e saltar os olhos, e, para terminar, a forca da Place de Greve - VAbba-ye de Monte--Regret, Abadia de 
Sobe-com-Relutncia, como a chamavam no reino de Thunes.
  Entretanto, no reino de Thunes, Anglica, protegida por Calembredaine e pela amizade de Traseiro de Pau, desfrutava uma vida livre e resguardada.
  Ela era intocvel. Tinha pago seu dzimo tornando-se a companheira de um tunante. As leis da classe eram duras. Sabia-se que o cime de Calembredaine nada perdoaria, 
e Anglica podia achar-se, alta noite, ao lado de homens grosseiros e perigosos como Penia ou Gobert, sem estar exposta ao menor gesto equvoco. Quaisquer que fossem 
os desejos que ela inspirasse, enquanto o chefe no houvesse levantado o interdito ela no pertenceria seno a ele.
  Era assim que sua vida, miservel na aparncia, se repartia quase inteiramente entre longas horas de sono e prostrao e passeios sem destino atravs de Paris. 
Na Tour de Nesle sempre havia para ela algum alimento e um bom fogo na lareira.
  Poderia trajar-se decentemente, pois s vezes os ladres traziam belos vestidos que recendiam ris e alfazema. Ela, contudo, perdera o gosto. Havia guardado o 
mesmo costume de sarja escura, cuja saia j se desfiava. A mesma touca de pano prendia-lhe os cabelos. Mas a Polaca havia-lhe dado um cinto especial para a faca 
que ela escondia debaixo do corpete.
  -        Se quiser, ensin-la-ei a us-la - oferecera aquela.
  Aps a cena do vaso de estanho e do guarda estripado, havia-
  se estabelecido entre as duas uma estima que no estava longe de converter-se em amizade.
  Anglica saa pouco de dia e no se distanciava muito. Ado-tava, por instinto, o ritmo de vida de seus companheiros, aos quais os burgueses, os comerciantes e 
os beleguins, por acordo tcito, entregavam a noite.
  Foi, pois, em uma noite que o passado ressurgiu diante dela e a despertou to cruelmente que ela esteve a ponto de morrer.
  O bando de Calembredaine assaltou uma casa do Faubourg Saint-Germain. A noite no tinha luar, a rua estava mal iluminada. Quando Gazua, um rapazinho de dedos geis, 
conseguiu abrir a fechadura de uma pequena porta de servio, os ladres entraram sem muitas precaues.
  -        A casa  grande, e h nela somente um velho com uma criada que mora na parte mais alta - explicou Nicolau. - Estaremos  vontade em nosso trabalho.
  Depois de acender sua lanterna de furta-fogo, levou os companheiros para o salo. Po Negro, que tinha vindo mendigar frequentemente naquelas paragens, indicara-lhe 
a exata disposio dos aposentos.
  Anglica cerrava a fila. No era a primeira vez que se envolvia numa aventura desse gnero. A princpio Nicolau no queria lev-la.
  -        Voc no tem jeito para isso - dizia ele.
  Mas a jovem agia a seu modo. No tinha ido para roubar. Aprazia-lhe somente aspirar o odor das casas adormecidas: tapearia, mveis bem lustrados, cheiros de cozinha, 
de bolos e tortas. Ela pegava os bibels, repunha-os no lugar. Nunca uma voz se elevou dentro dela para dizer-lhe: "Que faz voc aqui, Anglica de Peyrac?" Salvo 
nessa noite em que Calem-bredaine roubou a casa do velho sbio Glazer, no Faubourg Saint-Germain...
  Nessa noite, Anglica encontrou sobre um consolo um castial com vela. Acendejj-a na lanterna dos ladres, enquanto esses entulhavam seusrsacos. Depois, avistando 
uma pequena porta ao fundo do aposento, abriu-a com curiosidade.
  -        Cus! - cochichou Prudente atrs dela. - Que  isso?
  A chama refletia-se em grandes globos de vidro com longos bicos, e distinguiam-se tubos de cobre entrelaados, vasos de faiana com inscries latinas, garrafas 
de todas as cores.
  - Que  isso? - repetiu Prudente, aturdido.
  -  um laboratrio.
  Muito lentamente, Anglica avanou e parou perto de um balco de tijolos sobre o qual havia um fogareiro.
  Ela observava cada detalhe. Havia um pequeno pacote, selado com cera vermelha, sobre o qual leu: "Para o Sr. de Sainte-Croix". Depois, em uma caixa aberta, um 
p branco. O nariz de Anglica tremeu: o odor no lhe era desconhecido.
  -        E isto - perguntou Prudente -,  farinha? Cheira bem.
Cheira a alho...
  Ele tomou uma picada do p e levou-a  boca. Com gesto irrefletido, Anglica bateu-lhe na mo. Ela revia Fritz Hauer exclamando: "Gift gndige Dame!"
  -        Largue isso, Prudente. E veneno, arsnico.
E lanou um olhar espantado em volta de si.
  -        Veneno! - repetiu Prudente nervoso.
  Recuando, esbarrou numa retorta, que foi ao cho e se quebrou com um rudo cristalino.
  Precipitadamente, todos os intrusos deixaram a pea. Agora o salo estava vazio. Ouviram, ento, uma bengala bater no pavimento superior, e uma voz de velho gritou 
na escada:
  -        Maria Jos, voc esqueceu outra vez de prender os gatos. E insuportvel. Tenho de descer para ver.
  Depois, inclinado para o vestbulo, o velho perguntou:
  -         voc, Sainte-Croix? Veio buscar a frmula?
  Anglica e Prudente apressaram-se a ganhar a cozinha, depois a despensa, para a qual abria a pequena porta forada  pelos ladres. Algumas ruas mais adiante, 
pararam.
  - Uf! - suspirou Prudente. - Que medo que eu tive! Se algum podia desconfiar que ia  casa de um feiticeiro!... Tomara que no nos traga infelicidade! Onde esto 
os outros?
  - Devem ter tomado outro caminho.
  - Bem que podiam ter-nos esperado. Aqui no se enxerga nada.
  - Oh! No se lamente tanto, meu pobre Prudente. As pessoas da sua laia devem enxergar na escurido.
  Mas ele segurou-lhe o brao.
  - Escute! - disse.
  - Que  que h?
  - No ouviu? Escute... - repetiu ele apavorado. Sbito acrescentou, numa espcie de estertor:
  - O co!... O co!
  E, jogando no cho o seu saco, fugiu correndo.
  "O pobre rapaz est maluco", pensou Anglica, inclinando-se maquinalmente para apanhar o esplio. Ento, por sua vez, ela ouviu. O rudo vinha do fundo das ruelas 
silenciosas.
  Era como um leve galope, muito rpido, que se aproximava. Subitamente, ela divisou o animal no outro extremo da rua, como um branco fantasma saltador. Anglica, 
dominada por um medo inexprimvel, tambm fugiu. Corria como uma louca, sem prestar ateno s pedras que lhe torciam os ps. Estava cega. Sentia-se perdida e queria 
gritar, mas nenhum som lhe saa da garganta.
  O choque do animal, que lhe pulara aos ombros, projetou-a de rosto na lama.
  Sentiu sobre si o peso dele e, contra a nuca, a presso de um maxilar de dentes pontiagudos como pregos.
  - Sorbonne! - gritou ela. E repetiu mais baixo:
  - Sorbonne!
  Depois, muito lentamente, virou a cabea. Era Sorbonne, sem dvida nenhuma, pois ele a deixara prontamente. Ela ergueu a mo e acariciou a grande cabea do dinamarqus. 
Ele a farejava com surpresa.
  -        Sorbonne, meu querido Sorbonne, voc me pregou um susto! Isso no se faz.
  O co deu-lhe uma lambidela em pleno rosto com sua enorme e spera lngua.
  Anglica se levantava com dificuldade. Machucara-se bastante ao cair.
  Nesse momento percebeu um rumor de passos. Seu sangue se congelou. Depois de Sorbonne... no podia ser seno Desgrez.
  De um salto, Anglica se ps de p.
  -        No me traia - suplicou ela baixinho, dirigindo-se ao co. - No me traia.
  Mal teve tempo de se esconder na reentrncia de uma porta. Seu corao batia como se fosse explodir. Ela teve uma vaga esperana de que no fosse Desgrez. Ele 
tivera de deixar a cidade. No podia retornar. Pertencia a um passado morto...
  Os passos estavam muito prximos. De repente, cessaram.
  -        Que  que h, Sorbonne? - disse a voz de Desgrez. - Que lhe aconteceu? No agarrou a bandida?
  O corao de Anglica lhe doa,  fora de tamborilar em seu peito.
  Aquela voz familiar, aquela voz do advogado! "E agora, senhores, chegou a hora de fazer-lhes ouvir uma voz grandiosa, uma voz que, acima das torpezas humanas..."
  A noite era profunda e negra como um abismo. No se enxergava nada, mas, em dois passos, Anglica teria podido chegar perto de Desgrez. Ela sentia-lhe os movimentos 
e percebia-lhe a perplexidade.
  -        Maldita Marquesa dos Anjos! - exclamou ele bruscamente. - Diabos me levem se ela nos fizer andar por muito tempo. Vamos, fareje, Sorbonne, fareje. A bandida 
teve a feliz ideia de deixar seu leno de pescoo na carruagem. Assim sendo, no nos pode escapar. Venha, voltemos as proximidades da Porte de Nesle. A pista est 
por l, tenho certeza.
  Distanciou-se, assoviando para atrair o co.
  O suor escorria pelas tmporas de Anglica. Suas pernas tremiam. Decidiu-se, enfim, a dar alguns passos para fora de seu esconderijo. Se Desgrez se dirigia para 
os lados da Porte de Nesle, seria prefervel que ela no voltasse para l.
  Procuraria ganhar o antro de Traseiro de Pau e pedir-lhe asilo pelo resto da noite.
  Sua boca estava seca. Ouviu murmurar a gua de uma fonte. A pequena praa em que se achava essa fonte era fracamente alumiada por um lampio, pendurado diante 
da loja de um merceeiro.
  Anglica aproximou-se e lavou na gua fresca o rosto sujo de lama. Deu um suspiro de alvio.
  Quando se endireitava, um forte brao a enlaou, enquanto uma mo brutal lhe tapava a boca.
  -        Apanhei-a, minha bela! - disse a voz de Desgrez. -Voc acreditava que podia escapar-me to facilmente?
  Anglica procurou desvencilhar-se. Mas ele a segurava de tal maneira que ela no podia mover sem gritar de dor.
  -        No, no, minha franguinha, voc no pode escapar!
- disse ainda Desgrez com um riso surdo.
  Paralisada, ela reencontrava o odor familiar de suas vestes surradas: couro do cinturo, tinta e pergaminho, tabaco. Era o advogado Desgrez, com sua face noturna. 
Ela desfalecia, dominada por um s pensamento: "Tomara que ele no me reconhea... Eu morreria de vergonha... Tomara que eu consiga fugir antes que ele me reconhea!"
  Segurando-a sempre com uma s mo, Desgrez levou  boca um apito e lanou trs silvos estridentes.
  Alguns minutos mais tarde, cinco ou seis homens desembocaram das ruelas vizinhas. Ouvia-se o rudo de suas esporas e do boldri de suas espadas. Eram os homens 
da ronda.
  -        Creio que peguei a marreca - disse Desgrez.
  - Otimo! Foi uma noite rendosa. Prendemos dois ladres que fugiam. Se tambm apanhamos a Marquesa dos Anjos, podemos dizer, senhor, que nos guiou muito bem. O 
senhor conhece os recantos...
  - Foi o co que nos guiou. Com o leno de pescoo desta mendiga, ele nos haveria de trazer aqui. Mas... existe algo que eu no compreendo. Por um triz ela no 
me escapou... Conhecem essa Marquesa dos Anjos?
  -  o arranjo de Calembredine. No sabemos de outra. O nico de ns que pde v-la de perto est morto. Foi o polcia Martin, que ela esfaqueou numa taberna. 
Mas basta levar a pequena que est com o senhor. Se for ela, a Sra. de Brinvilliers a reconhecer. Ainda era dia quando seu coche foi assaltado pelos bandoleiros, 
e ela viu bem a mulher que era cmplice deles.
  - Que audcia! - rosnou um dos homens. - Eles no temem mais nada, esses bandidos. Assaltar a carruagem da prpria filha do tenente de polcia civil, e isso em 
pleno dia, em plena Paris!
  - Eles pagaro, acredite-me.
  Anglica escutava essa conversao. Procurava ficar imvel, na esperana de que Desgrez relaxasse o aperto. Ento, de um pulo, ela mergulharia na noite cmplice 
e fugiria. Estava certa de que Sorbonne no a perseguiria. E no seriam aqueles homens pesados e estorvados pelos uniformes que poderiam apanha-la.
  Mas o ex-advogado no parecia disposto a esquecer sua captura. Com a mo experiente, ele a apalpou.
  -        Que  isso? - perguntou ele.
  Ela sentiu os dedos do homem descerem sob o seu corpete. Ele soltou um pequeno assovio.
  -        Um punhal, palavra! No  um canivete, podem acreditar. Muito bem, pequena, voc no tem para mim um ar to ingnuo.
  Introduziu o punhal de Rodoguno, o Egpcio, em um dos seus bolsos e continuou ^a inspeo.    -
  Ela estremeceu quando a mo quente e rude lhe passou sobre o peito e ali se demorou.
  -        Como pulsa esse corao! - gracejou Desgrez a meia voz. - Eis uma que no tem a conscincia tranquila. Vejamos sob o candeeiro da loja com quem ela se 
assemelha. Com um sobressalto ela tentou soltar-se. Mas dez punhos de ferro a subjugaram, e uma saraivada de golpes se abateu sobre ela.
  -        Marafona! Quer dar-nos mais trabalho?
  Levaram-na at o candeeiro. Desgrez agarrou-lhe os cabelos fortemente e puxou-lhe a cabea para trs. Anglica cerrou os olhos. Com aquela mistura de lama e sangue 
que a sujava, Desgrez no poderia reconhec-la. Ela tremia de tal maneira que seus dentes castanholavam.
  Os segundos que se escoaram enquanto ela permanecia assim exposta  crua claridade do lampio pareceram-lhe sculos.
  Depois Desgrez soltou-a com um grunhido de decepo.
  - No, no  ela. No  a Marquesa dos Anjos. Os beleguins praguejaram em unssono.
  - Como o sabe, senhor? - ousou perguntar um deles.
  - Eu j a vi. Mostraram-ma um dia no Pont Neuf. Essa moa parece-se com ela, mas no  ela.
  - Levemo-la, mesmo assim. Ela poder dar-nos algumas pequenas informaes.
  Desgrez, indeciso, parecia refletir.
  -        Alm disso, qualquer coisa no est bem clara - tornou ele em tom pensativo. - Sorbonne nunca se engana. Pois bem, ele no agarrou esta jovem. Deixou-a 
tranquila a alguns passos dele... Prova de que ela no  perigosa.
  E concluiu com um suspiro:
  -- Errei o alvo. Ainda bem que vocs apanharam dois ladres. Onde fizeram eles o servio?
  - Na Rue du Petit-Lion, na casa de um velho boticrio chamado Glazer.
  - Voltemos l. Pode ser que encontremos uma pista.
  -        E a rapariga, que faremos dela?
Desgrez hesitava.
  -        Estou pensando se no seria melhor deix-la em liberdade. Agora eu lhe conheo o rosto e no o esquecerei.
  Sem insistir, os beleguins soltaram a jovem e, retimindo as esporas, desapareceram na sombra.
  Anglica se afastou para fora do crculo de claridade. Passava rente s paredes e foi com alvio que se achou na escurido. Mas distinguiu uma mancha branca perto 
da fonte e ouviu o rudo caracterstico da lngua de um co a beber. A sombra de Desgrez estava junto de Sorbonne.
  Anglica imobilizou-se de novo. Viu Desgrez meter a mo no bolso do casaco e lanar um objeto na sua direo.
  -        Toma - disse a voz do ex-advogado -, entrego-lhe sua faca. Nunca roubei uma jovem; E, depois, para uma donzela que passeia a estas horas, um punhal pode 
ser til. Vamos, boa noite, formosa.
  Como Anglica permanecesse calada, ele acrescentou:
  -        Voc no diz boa noite?
  Ela reuniu toda a coragem para murmurar:
  -        Boa noite.
  Sobre as pedras sonoras ouviu distanciarem-se os grossos sapatos ferrados do policial Desgrez. Depois, voltou a errar atravs de Paris.
  CAPITULO V
  
  O gal desconhecido do barco de feno
  
  A alva encontrou-a na orla do Quartier Latin, perto da Rue des Bernardins. O cu comeava a espargir uma claridade rosa sobre os telhados dos negros colgios. 
Viam-se nas trapeiras os reflexos das velas dos estudantes madrugadores. Anglica cruzava com outros que, bocejando, com os olhos turvos, acabavam de deixar o bordel, 
onde a compassiva prostituta havia embalado durante algumas horas aqueles rapazolas de aspecto lamentvel. Eles roavam por ela atirando-lhe uma palavra insolente. 
Tinham voltas imundas, surradas vestimentas de sarja que cheiravam a tinta, e meias pretas que lhes caam sobre as magras panturrilhas.
  Os sinos das capelas comeavam a repicar.
  Anglica titubeava de fadiga. Tinha os ps descalos, pois perdera ambos os sapatos. Seu rosto estava congelado pela insensibilidade.
  Ao chegar ao Quai de la Tournelle, sentiu o cheiro do feno fresco. O primeiro feno da primavera. As chalanas ali estavam, atracadas em fila, com seu carregamento 
leve e odorfero. Na aurora parisiense, elas expiravam um anlito de incenso morno, o aroma de mil flores secas, a promessa dos belos dias que viriam.
  Ela desceu ate a margem. A alguns passos, os embarcadios aqueciam-se em volta de um fogo e no a viram. Ela entrou na gua e subiu para a proa de uma chalana. 
Depois, penetrou no feno com voluptuosidade. Sob o toldo, o aroma era ainda mais embriagante: mido, quente e carregado de tormenta, como um dia estival. De onde 
poderia vir aquele feno temporo? De uma campina silenciosa e rica, fecunda, batida pelo sol. Aquele feno fazia pensar em paisagens arejadas, secas pelo vento, de 
cus cheios de luz, e tambm no mistrio dos pequenos vales cerrados, que conservam o calor e com ele alimentam a terra.
  Anglica deitou-se, com os braos cruzados. Tinha os olhos fechados. Ela mergulhava, ela se afogava no feno. Vogava sobre uma nuvem de perfumes intensos, e no 
mais sentia o corpo magoado. Monteloup a envolvia, recebia-a em seu seio. O ar tinha reencontrado seu sabor de flores, seu gosto de rosas. O vento a acariciava. 
Ela flutuava lentamente, rumo ao sol. Abandonava a noite e seus horrores. O sol a afagava. Havia muito tempo que ela no era acarinhada assim.
  Tinha sido presa do selvagem Calembredaine; tinha sido a companheira do lobo que, s vezes, durante um breve amplexo, conseguia arrancar-lhe um grito de volpia 
animal, um estertor de besta possuda. Mas seu corpo esquecera a doura de uma verdadeira carcia.
  Ela vogava para Monteloup e reencontrava no feno o odor das framboesas. Sobre suas faces ardentes, sobre seus lbios secos, a gua do regato fazia chover carcias 
refrescantes. Ela abriu a boca e suspirou: "De novo!"
  Em seu sono, lgrimas corriam-lhe pelo rosto e perdiam-se nos seus cabelos. No eram lgrimas de dor, mas de muito grande doura.
  Ela se estirou, entregou-se toda a prazeres reencontrados.
  Deixava-se ir, ninada pelas vozes murmurantes dos campos dos bosques, que lhe sussurravam ao ouvido:
  -No chore... No chore, minha amiga... No  nada... sofrimento acabou... No chore, pobrezinha.
  Anglica abriu os olhos. Na penumbra do toldo distinguiu um vulto estendido perto dela, no feno. Dois olhos risonhos a contemplavam.        -
  Ela balbuciou:
  -        Quem  voc?
  O desconhecido ps um dedo sobre os lbios.
  -        Sou o vento. O vento de um pequeno recanto de campina do Berry. Quando segaram o feno, segaram-me com...
Olha,  bem verdade que eu fui segado.
  Ele se ps rapidamente de joelhos e revirou os bolsos.
  - Nem um soldo! Completamente ceifado. Com o feno. Meteram-me em uma chalana e eis-me aqui em Paris. Divertida histria para um pequeno vento de campina.
  - Mas... - disse Anglica. E procurou coordenar seus pensamentos.
  O rapaz estava vestido com um traje negro pudo e mesmo furado em certos lugares. Usava em redor do pescoo uma volta de pano em farrapos, e o cinto de seu casaco 
acentuava-lhe a magreza.
  Mas ele tinha um rosto vivo, quase belo, malgrado sua cor plida de esfomeado. Seus lbios largos e finos pareciam feitos para falar sem cessar e rir de tudo e 
de nada. Suas feies nunca estavam em repouso. Ele fazia caretas, ria, esboava toda sorte de mmicas. A essa curiosa fisionomia, uma gaforina de um louro de linho, 
com uma franja que lhe caa sobre os olhos, ajuntava um no-sei-qu de ingenuidade camponesa, que a expresso astuta do olhar desmentia.
  Enquanto Anglica o examinava, ele continuou a falar copiosamente:
  -        Que pode fazer um pequeno vento como eu em Paris?
Eu, que estou habituado a soprar nas sebes, soprarei nas saias das damas e receberei um sopapo... Arrancarei os chapus dos padres e serei excomungado. Entrarei 
nas torres de Notre-Dame e farei soar os sinos em sentido contrrio... Que escndalo!
  - Mas... - repetiu Anglica, procurando levantar-se. Ele a conteve com gesto rpido.
  - No se mexa... Quietinha!
  "E um estudante meio maluco", pensou ela. Ele se deitou de novo e, erguendo a mo, acariciou-lhe a face, murmurando:
  -        No chore mais.
  - Eu no estou chorando - disse Anglica. Mas percebeu que tinha o rosto inundado de lgrimas.
  - Eu tambm gosto de dormir no feno - continuou o outro. - Quando me introduzi na chalana, j a encontrei aqui. Voc chorava dormindo. Ento eu a acarinhei, para 
consol-la, e voc me disse: "De novo!"
  - Eu?
  - Sim. Eu enxuguei seu rosto e vi que voc era muito bela. Seu nariz tem a delicadeza de uma dessas conchinhas que a gente encontra na areia. Voc sabe, essas 
conchinhas que so to brancas e to finas que ;se diriam translcidas. Seus lbios so ptalas de clematite. Seu pescoo  torneado.
  Anglica escutava como que sonhando. Sim, na verdade, havia muito tempo que nenhuma boca lhe falava assim. Aquilo parecia vir de muito longe, e ela receava que 
ele estivesse zombando. Como poderia ele dizer que ela era bela, quando ela se sentia descorada, abatida, para sempre maculada por aquela terrvel noite, em que 
compreendera que no mais poderia olhar de frente as testemunhas do seu passado?
  Ele continuou a sussurrar:
  - Suas espduas so duas bolas de marfim. Seus seios no se comparam seno a si mesmos, to belos so. Eles so feitos na medida exata para caberem no cncavo 
da mo de um homem, e tm um pequeno boto delicioso, como os que se vem por toda parte, na natureza, quando chega a primavera. Suas coxas so fuseladas e sedosas. 
Seu ventre  uma almofada de cetim branco, tmida e firme, onde faz bem repousar a face.
  - Eu gostaria muito de saber - disse Anglica, chocada - como voc pode julgar tudo isso!
  - Enquanto voc dormia, eu a examinei inteiramente. Anglica sentou-se bruscamente no feno.
  - Insolente! Estudante dissoluto! Arquissequaz do Diabo!
  -        Psiu! Mais baixo! Quer que os barqueiros venham jogar-nos  gua?... Por que se zanga, formosa dama? Quando encontramos uma jia no caminho, no  razovel 
que a examinemos? Desejamos saber se  de ouro fino,. se  verdadeiramente to bela como parece; em resumo, se ela nos convm ou se  prefervel deix-la onde estava. 
Um prn
cipe deve escolher com cuidado o objeto de suas paixes, pois o mundo o observa - sentenciou ele em latim.
  -         voc o prncipe que o mundo observa? - interrogou Anglica sarcstica.
  Ele franziu as plpebras com sbito espanto.
  - Voc entende latim, pequena mendiga?
  - Um mendigo como voc fala-o bem...
  O estudante, perplexo, mordeu o lbio inferior.
  -        Quem  voc? - disse ele docemente. - Seus ps esto ensanguentados. Parece que teve de correr muito tempo. Que foi que lhe fez medo?
  E como ela no respondesse:
  -        Voc tem uma faca a... Uma arma terrvel, um punhal de egpcio. Sabe servir-se dele?
  Anglica olhou-o com malcia entre os clios.
  - Talvez!
  - Ai! - interjecionou ele, afastando-se.
  Tirou um talo do feno e ps-se a mordisc-lo. Seus olhos plidos tornaram-se pensativos. Bem depressa ela teve a impresso de que ele no mais pensava nela. Em 
que pensava ento? Talvez nas torres de Notre-Dame... Assim, imvel e distante, seu rosto descorado parecia menos jovem. Ela descobriu, no canto de suas plpebras, 
aqueles estigmas com que a misria ou a devassido podem marcar um homem na plena fora da idade.
  Alm do mais, ele no era idoso. Seu corpo magro, metido em suas vestes muito amplas, parecia imaterial. Ela temeu que ele desaparecesse como uma viso.
  -        Quem  voc? - murmurou ela tocando-lhe o brao.
Ele voltou para ela uns olhos que no pareciam feitos para a luz.
  - J lhe disse: sou o vento. E voc?
  - Sou a brisa.
  Ele ps-se a rir e segurou-a pelos ombros.
  -        Que fazem o vento e a brisa quando se encontram?
  Docemente, ele se inclinou sobre a jovem. Ela se encontrou de novo estendida no feno, tendo sobre a prpria, muito prxima, aquela boca longa e sensvel. Havia 
uma pequena ruga na expresso daqueles lbios que a intimidou sem que ela soubesse por qu. Uma prega irnica, um tanto cruel. Mas o olhar era terno e risonho.
  Ele permaneceu assim em suspenso, at que Anglica, magnetizada por aquela muda solicitao, esboou um movimento de entrega. Ento ele se deitou a meio sobre 
ela e beijou-a.
  Esse beijo durou muito tempo, o tempo de dez beijos que fossem interrompidos e reiniciados lentamente.
  Para os sentidos brutalizados de Anglica, aquilo foi uma renovao. Velhas delcias renasciam, bem diferentes do prazer grosseiro que lhe proporcionara o antigo 
criado - com que ardor, no entanto! - e aoxmal a tinha acostumado.
  "Eu estava sempre muito fatigada", pensou ela, "e agora no estou mais. Meu corpo no mais me parece triste e aviltado. Eu, ento, no estou inteiramente morta..."
  Mexeu-se um pouco no feno, feliz de encontrar no ntimo de seu ser o despertar de um desejo muito sutil e que logo se tornaria lancinante.
  O homem tinha-se erguido um pouco e, apoiado sobre um cotovelo, continuava a contempl-la com um leve sorriso.
  Ela no mais estava impaciente, atenta somente ao calor que se lhe espraiava pelo corpo. Da a pouco ele voltou a acarici-la. Tinham tempo de sobra.
  -         curioso - murmurou ele -, voc tem finuras de grande dama. Ningum o diria, a julgar por suas roupas em farrapos.
  Ela teve um pequeno riso.
  - Realmente? Voc frequenta as grandes damas, messire de la basoche?
  - s vezes.
  Ele fez-lhe ccegas na ponta do nariz com uma flor seca e explicou:
  -        Quando estou com a barriga muito vazia, vou alugar-me a Mestre Georges, nas estufas de So Nicolau. E l que elas vo, as grandes damas, em busca de um 
pouco de condimento para os seus amores mundanos. Oh! Decerto eu no sou um bruto como Belo Rapaz, e os favores da minha pobre carcaa de mal nutrido se pagam menos 
caro que os de um forte descarregador de barco, bem. felpudo, que fede a cebola e a vinho negro. Mas eu tenho outros recursos. Sim, minha cara. Ningum, em Paris, 
tem uma seleo de histrias obscenas to bem achadas como eu tenho. Minhas companheiras gostam muito disso para ficarem em forma. Eu as fao rir, s belas prostitutas... 
As mulheres o que lhes falta, sobretudo,  a pndega. Quer que eu lhe conte a histria do martelo e da bigorna?
  -        Oh! No - disse vivamente Anglica -, eu lhe peo, eu no gosto desse gnero de histrias.
  Ele pareceu comovido.
  - Voc  um amor de criatura! J encontrei grandes damas que pareciam prostitutas, mas nunca prostitutas que parecessem grandes damas. Voc  a primeira... Voc 
 to bela que parece um sonho... Escute, voc ouve o carrilho da Samaritana, no Pont Neuf?...  quase meio-dia. Quer ir comigo ao Pont Neuf?... Furtaremos algumas 
mas para o nosso almoo. E tambm um buque de flores no qual voc esconder sua carinha... Ouviremos a propaganda bombstica do Grande Mateus e veremos o sanfonineiro 
fazer danar sua marmota... E troaremos do guarda que procura prender-me.
  - Por que querem prend-lo?
  - Mas... voc no sabe ento que sempre querem prender-me? - respondeu ele com espanto.
  "Decididamente ele  um pouco doido, mas  engraado", pensou Anglica.
  Ele se estirou. Ela desejava muito que ele voltasse a acarici-la. No entanto, ele parecia pensar em outra coisa.
  -        Agora eu me lembro - disse ele de repente -, eu j a vi no Pont Neuf. Ser que voc no pertence ao bando de Calembredaine, o ilustre libertino?
  -        Sim,  verdade, perteno a Calembredaine.
Ele recuou com uma expresso de terror cmico.
  - Ai! Ai! Onde me meti, incorrigvel galanteador que eu sou! No ser voc, porventura, essa Marquesa dos Anjos de quem o nosso libertino  to furiosamente ciumento?
  - Sou, sim, mas...
  - Veja at onde vai a inconscincia das mulheres! - exclamou ele, dramtico. - Ser que voc no vai contar-lhe tudo, miservel? Quer ento ver correr o triste 
sangue de nabo que eu carrego nas veias? Ai! Ai! Calembredaine! No era a minha oportunidade! Encontrei a mulher da minha vida, e  preciso que ela seja de Calembredaine!... 
Mas no importa! A mais adorvel das amantes ainda  a prpria vida. Adeus, minha bela!
  Apanhou um velho chapu de fundo cnico, semelhante aos que usavam os mestres-escolas, e, cobrindo sua trunfa loura, deslizou para fora do toldo.
  - Seja gentil - cochichou ele ainda, com um sorriso -, no fale de minha ousadia ao seu homem... Sim, vejo que voc nada dir. Voc  um amor,Marquesa dos Anjos... 
Pensarei em voc at o dia em que' me prenderem... e mesmo depois... Adeus!
  Ela ouviu-o patinhar nas proximidades da embarcao. Viu-o depois ao sol, correndo pela margem. Todo vestido de negro, com seu chapu pontudo, suas magras panturrilhas, 
seu casaco furado flutuando ao vento, ele parecia um estranho pssaro.
  Marinheiros que o tinham visto saindo da chalana jogaram-lhe pedras. O rapaz voltou para eles seu rosto extremamente plido e soltou uma gargalhada. Aps o qu, 
desapareceu subitamente, como num sonho.
  
  CAPITULO VI
  
  Passeio no Pont Neuf
  
  Aquela apario fantstica serenou Anglica e empurrou para o ltimo plano de seu pensamento a lembrana do amargo encontro que tivera com Desgrez.
  Era melhor no pensar mais nisso. A jovem sacudiu a cabea e passou a mo nos cabelos para limp-los dos fragmentos de erva seca. No momento, no era preciso quebrar 
o encanto daquela hora. Suspirou com leve pesar. Estivera verdadeiramente a ponto de enganar Nicolau?
  A Marquesa dos Anjos encolheu as espduas e teve um risinho malicioso. No se engana um amante dessa espcie. Nada a ligava a Nicolau, a no ser a escravido da 
misria.
  Pelo instantneo movimento de recuo do rapaz, ela mediu mais uma vez o poder da proteo de que a cercara o bandido. Sem ele e sem seu amor exclusivo no teria 
ela descido mais ainda?
  Em compensao, ela lhe entregara seu corpo, legado nobre de sua alta linhagem, com o qual ele sempre sonhara.
  Estavam quites. Ela no teria nenhum escrpulo em desfrutar com outro os prazeres mais doces, cujo sabor esquecera. Mas o outro tinha fugido, e fora melhor assim. 
Ela no suportaria saber que a faca de Calembredaine havia reduzido ao silncio aquele brilhante tagarela.
  Esperou um momento antes de se retirar, por seu turno, da embarcao. Ao tocar a gua, achou-a fria, mas no gelada, e, olhando em volta de si, foi ofuscada pela 
luz e compreendeu que era chegada a primavera.
  O estudante no falara de flores e de frutos no Pont Neuf? Anglica descobriu, como sob um golpe de varinha mgica, o desabrochar da suave estao.
  O cu enevoado apresentava um tom rseo, e o Sena tinha sua couraa prateada. Por sua superfcie lisa e calma passavam os barcos. Ouviam-se as pancadas dos remos 
na gua. Mais abaixo, as ps das lavadeiras respondiam ao tique-taque dos barcos-moinhos.
  Ocultando-se ao olhar dos marinheiros, Anglica lavou-se na gua fria, que lhe fustigou agradavelmente o sangue. Depois, tendo tornado a vestir-se, seguiu pela 
margem e alcanou o Pont Neuf.
  As palavras do desconhecido haviam despertado o esprito de Anglica, entorpecido pelo inverno.
  Pela primeira vez, ela viu o Pont Neuf em seu esplendor, com seus belos arcos brancos e sua vida espontnea, alegre, infatigvel.
  Era a mais bela ponte de Paris, e tambm a preferida, porque somente ela ligava pelo caminho mais curto as duas margens do Sena com a ilha da Cite.
  Um clamor ininterrupto se elevava dali, no qual se mesclavam os gritos dos biscateiros, as exortaes dos empricos e dos arrancadores de dentes, o refro das 
canes, o carrilho da Samaritana, as lamentaes dos mendigos.
  Anglica se ps a caminhar entre as fileiras de lojas e de barracas. Estava descala. Seu vestido estava rasgado. Perdera a touca e seus longos cabelos caam-lhe 
sobre as espduas. Mas isso no tinha importncia. No Pont Neuf, os ps descalos misturavam-se com os grossos sapatos dos artesos e com os taces vermelhos dos 
senhores.
  Ela parou diante do reservatrio da Samaritana para olhar o "industrioso relgio" que marcava no somente as horas, mas tambm os dias e os meses, e punha em movimento 
um carrilho que seu construtor, como flamengo que era, tivera o cuidado de no omitir.
  Na fachada dessa bomba monumental, que fornecia gua ao Louvre e s Tulherias, havia um baixo-relevo que representava a cena do Evangelho em que a Samaritana mata 
a sede a Jesus, perto do poo de Jac.
  Anglica parou diante de cada loja, diante do brinquinhei-ro, do vendedor de aves, do passarinheiro, do mercador de jogos e de bilboqus, do vendedor de tinta 
e de cores, do exi-bidor de marionetes, do tosador de ces, do pelotiqueiro. Viu Po Negro e suas conchas, Veneno de Rato e sua velha espada com a triste caa, e 
tambm o casal Hurlurette e Hurlu-rot, na esquina da Samaritana.
  No meio de um crculo de basbaques, o velho cego zan-garreava sua rabeca e a megera berrava um romance sentimental, em que havia enforcados, cadveres cujos olhos 
os corvos comiam e toda sorte de horrores, que as pessoas escutavam abaixando a cabea e enxugando os olhos. Os enforcamentos e as procisses eram os bons espetaculos 
da gentalha de Paris, espetaculos que no custavam muito caro e em que se sentia, profundamente, que se tinha um corpo e uma alma.
  Hurlurette soltava sua cantilena com grande convico:
  " - Escutem todos a minha arenga!
  Quando eu for
  A Abadia de Monte--Regret,
  Por vocs rezarei
  Pondo a lngua pra fora".
  Via-se at o fundo de sua boca desdentada. Uma lgrima corria de seu nico olho e se perdia em suas rugas. Ela era espantosa, admirvel...
  Quando terminava sua cano com um tremolo, molhava o grande polegar e comeava a distribuir folhetos, dos quais carregava uma pilha debaixo do brao, gritando:
  -        Quem no tem seu enforcado?
  Chegando perto de Anglica, deu um grito de alegria.
  -        Ei, Hurlurot, eis a menina! Voc no sabe a serenata que seu homem nos fez hoje! Ele disse que o maldito co a havia estrangulado. Ele fala de fazer correr 
sobre o Chtelet todos os mendigos e todos os aleijados de Paris. E a marquesa a passear pelo Pont Neuf!
  - E por que no? - protestou Anglica, com altivez. - Tambm vocs no passeiam?
  - Mas eu trabalho - disse a velha, azafamada. - Esta cano, voc no pode saber o que ela rende. Eu digo sempre ao Poeta Pobre: "D-me enforcados''. Nada rende 
mais do que os enforcados. Tome, quer um?  de graa, porque voc  a nossa marquesa.
  - Haver chourio para voc esta noite na Tour de Nesle - prometeu Anglica.
  E arastou-se entre os basbaques, lendo seu pequeno papel:
  "Escutem todos a minha arenga!
  Quando eu for
  A Abadia de Monte--Regret,
  Por vocs rezarei,
  Pondo a lngua pra fora".
  No canto, ao p d pgina, havia uma assinatura que ela j conhecia: Poeta Pobre. Uma amarga lembrana de dio subiu ao corao de Anglica. Ela olhou para o lado 
do cavalo de bronze, no terrapleno. Era l, haviam-lhe dito, entre as patas do cavalo, que o poeta do Pont Neuf s vezes subia para dormir. Os ladres respeitavam 
seu sono. Alis, ele no tinha nada que lhe pudessem roubar. Era mais pobre que o mais pobre dos mendigos, sempre errante, sempre faminto, sempre perseguido e sempre 
a lanar o escndalo como um jato de peonha atravs de Paris.
  "Como no houve at agora quem o matasse?", pensou Anglica. "Eu o mataria, se o encontrasse. Mas gostaria de dizer-lhe antes por qu..."
  Amassou o papel e atirou-o na vala. Passou um coche, precedido de seus corredores, que saltavam como esquilos. Com suas librs de seda e as plumas de seus chapus, 
eles eram magnficos.
  A turba procurava descobrir quem ia na carruagem. Anglica observou os corredores e pensou em P Ligeiro, cujo corao estourara de tanto correr.
  O bom rei de bronze Henrique IV cintilava ao sol e sorria por sobre um canteiro de guarda-sis vermelhos e rosa. O
  terrapleno era ocupado pelos vendedores de laranjas e de flores. Um grande prego anunciava os frutos dourados:
  -        Portugal! Portugal!
  As floristas do Pont Neuf iam instalar-se ali de madrugada. Desciam da Rue de la Bouqueterie, perto de Saint-Julien-le-Pauvre, onde se achava a sede de sua corporao, 
ou da Rue de l'Arbre-Sec, onde elas se abasteciam nos jardins dos Irmos Provenais.
  Carregando suas corbelhas de tuberosas, de rosas e de jasmins, as mais jovens misturavam-se  multido, enquanto as mais idosas tomavam conta de um aafate fixo, 
abrigado por um guarda-sol vermelho.
  Uma dessas floristas admitiu Anglica para ajud-la a fazer buques e, como ela trabalhasse com gosto, deu-lhe vinte soldos.
  -        Voc tem cara de muita idade para ser aprendiz - disse-lhe ela, aps t-la examinado. - Mas uma garota levaria dois anos para aprender a fazer buques 
como voc. Se quiser trabalhar comigo, poderemos entender-nos.
  Anglica sacudiu a cabea negativamente, apertou na mo os vinte soldos e afastou-se. Vrias vezes seguidas ela olhou as poucas moedas que lhe havia dado a florista. 
Era o primeiro dinheiro que ganhava.
  Foi comprar dois filhoses e os devorou, misturando-se aos basbaques que riam destampadamente diante do carro do Grande Mateus.
  Esplndido, o Grande Mateus! Estava instalado bem defronte do Rei Henrique IV, de quem no temia nem o sorriso nem a majestade.
  De p sobre seu carro-plataforma de quatro rodas, cercado de uma balaustrada, ele arengava com voz tonitruante  turba que se estendia de um ao outro extremo do 
Pont Neuf.
  Sua orquestra particular, composta de trs msicos - um trombeteiro, um tamborileiro e um tocador de cmbalo -, marcava seus discursos e cobria com um barulho 
aturdidor as queixas dos clientes cujos dentes ele arrancava.
  Entusiasta, perseverante, prodigioso de vigor e de habilidade, o Grande Mateus triunfava sobre os dentes mais tenazes, ainda que tivesse de fazer ajoelhar o paciente 
e levant-lo  na ponta da torqus. Depois disso, ele mandava sua vtima arquejante lavar a boca no vendedor de aguardente.
  Entre os dois clientes, o Grande Mateus, com a pluma do chapu ao vento, seu duplo colar de dentes em exposio sobre a casaca de cetim, o grande sabre batendo-lhe 
nos taces, ia de um extremo ao outro da plataforma glorificando sua alta cincia e a excelncia de suas drogas, pos, eleturios e unguentos de toda sorte, preparados 
em fogo lento com grande quantidade de manteiga, azeite, cera e algumas ervas inocentes.
  - Tm diante de vocs, senhoras e senhores, a maior personagem do mundo, um virtuoso, uma fnix na sua profisso, o prottipo da medicina, o sucessor de Hipcrates 
em linha reta, o perscrutador da natureza, o flagelo de todas as faculdades; vem aqui um mdico metdico, galnico, hipo-crtico, patolgico, qumico, espagrico, 
emprico. Eu curo os soldados por cortesia, os pobres pelo amor de Deus e os ricos mercadores pdr dinheiro. No sou nem doutor nem filsofo, mas meu unguento faz 
tanto quanto os filsofos e os doutores. A experincia vale mais que a cincia. Tenho ali uma pomada para branquear a pele:  alva como a neve, odorfera como blsamo 
e como algalia... Tenho ali tambm um unguento de valor inestimvel, pois esse unguento, escutem-me bem, homens galantes e mulheres galantes, preserva aqueles e 
aquelas que o usam dos traioeiros espinhos do roseiral dos amores.
  E, levantando os braos com lirismo:
  " - Venham, senhores, acorram para comprar
  Q grande remdio para todos os males.
  E um p admirvel
  Que d esprito aos tolos,
  Honra aos gatunos,
  Inocncia aos culpados,
  Amante s velhas mulheres,
  Uma jovem amante aos velhos amorosos
  E cincia aos ignorantes..."
  Esta ltima tirada, que ele declamava revirando os olhos enormes, fez Anglica soltar uma gargalhada. Ele o percebeu e dirigiu-lhe um sinal amistoso.
  "Eu ri. Por que ri?", pensou Anglica. " completamente idiota o que ele diz."
  Mas ela estava com vontade de rir.
  Um pouco mais longe, sobre um pequeno estrado, um velho bonacho com perna de pau procurava atrair a ateno dos transeuntes.
  -        Venham ver o homem vermelho. O mais curioso fenmeno da natureza. Vocs se julgam muito sbios porque viram alguns homens de pele negra. Mas que coisa 
mais banal existe doravante que esses marroquinos de que o gro-turco nos inunda? Porm, eu lhes mostrarei o homem des
conhecido do mundo desconhecido: refiro-me s Amricas, terra prodigiosa, de onde eu prprio acabo de chegar...
  A palavra "Amrica" reteve Anglica perto do estrado.
  O saltimbanco de perna de pau era um velho homem mal barbeado e tinha a cabea coberta por um leno vermelho. No parecia ter o cuidado de se enfeitar, como os 
outros exibidores ou empricos do Pont Neuf, com ouropis rutilantes. Sua camisa imunda, com listras vermelhas e brancas, seu colete remendado, sua voz tremula no 
prendiam muito os espectadores. Ostentava em uma das orelhas uma pequena argola de ouro.
  -        Eu, que sou um velho marujo e que viajei e viajei sem cessar nos navios do rei, o que no poderia dizer-lhes dessas regies desconhecidas? Mas vocs esto 
apressados, senhoras e senhores, bem o vejo. Tambm eu no trouxe seno lembranas e este curioso fenmeno que eu prprio capturei, l longe, nas Amricas.
  Apontou com uma vara uma espcie de guarita fechada com cortina e que era todo o arsenal de sua demonstrao.
  -        O homem vermelho, senhoras e senhores, o homem vermelho!
  Anglica atirou numa escudela colocada diante do estrado alguns soldos que lhe restavam. Outros basbaques a imitaram.
  Quando o invlido achou que o crculo de espectadores era suficiente, puxou a cortina com um gesto teatral.
  No fundo da guarita, havia uma esttua que se diria de terracota e cuja cabea e rins estavam cobertos de penas.
  A esttua mexeu-se e avanou alguns passos ao sol. Houve um sussurro entre os assistentes. No havia dvida: era um homem. Tinha nariz, boca, orelhas guarnecidas 
de argolas, compridos olhos que fixavam sobre a multido um olhar distante, mos e ps. Sua pele tinha um tom bastante acobreado, mas no muito mais - achavam os 
espectadores - do que a tez de certos montanheses espanhis ou italianos. Em suma,  parte aquelas penas quelrazia nos rins e na cabea, o homem de pele vermelha 
no era to extraordinrio.
  Depois de hav-lo contemplado bem e trocado seus comentrios, as pessoas se afastaram, e o velho marinheiro reintroduziu o fenmeno em sua guarita. Em seguida, 
comeou a ralar um pouco de fumo e fez com ele uma bolinha que se ps a mascar.
  Anglica tinha ficado perto do estrado. O vento que soprava do Sena e revolvia seus cabelos fortalecia a iluso do mar alto, que acabava<le fazer surgir estas 
palavras: as Amricas. Ela pensou em seu irmo Josselino, reviu-o pousando sobre ela seu olhar brilhante e selvagem enquanto murmurava: "Quanto a mim, vou para o 
mar".
  O Pastor Rochefort tinha vindo uma tarde, sentara-se ao lado do fogo dos filhos de Sanc, e estes o haviam cercado, abrindo os olhos maravilhados. Josselino... 
Raimundo... Hortnsia... Gontran... Anglica... Madelon... Dionsio... Maria Ins... Como eram belos os filhos de Sanc, em sua inocncia e ignorncia de seus destinos! 
Eles escutavam o estrangeiro, cujas palavras haviam excitado seus coraes:
  -        Quanto a mim, sou apenas um viajante curioso de ver terras novas, vido de conhecer esses lugares onde ningum tem fome nem sede e onde o homem se sente 
livre. Foi ali que eu compreendi que todo o mal provm dos homens de raa branca, que no atenderam  palavra do Senhor, mas a desviaram de seu verdadeiro sentido. 
Porque o Senhor no mandou matar nem destruir, mas que se amassem uns aos outros.
  Anglica fechou os olhos. Ao reabri-los, viu a alguns passos, no bulcio do Pont Neuf, Jactncia, Grande Saco, Pe-nia, Gobert, Belo Rapaz e os outros, que a olhavam.
  -        Maninha - disse Penia, segurando-lhe o brao -, vou acender uma vela diante do Padre Eterno em Saint-Pierre-aux-Boeufs. Chegamos a pensar que nunca mais 
a veramos!
  - O Chtelet ou o Hospital Geral eram as alternativas para voc.
  - A menos que tivesse sido trincada pelo co maldito.
  - Gazua e Prudente deixaram-se prender. Foram enforcados esta manha na Place de Greve.
  Eles a rodearam e foi assim que ela reencontrou aquelas faces sinistras, aquelas vozes roucas de brios contumazes e tambm as cadeias do crculo da matterie, 
cadeias que no podiam romper-se em um dia. No entanto, depois daquele a que ela chamaria "o dia do barco de feno" ou "o dia do Pont Neuf", houve nela um raio de 
esperana. Ela no sabia por qu. No se sobe dos bas-fonds to rapidamente quanto se desce a eles.
  -        Vamos divertir-nos, minha bela - disse Penia. - Sabe por que passevamos em pleno dia no Pont Neuf?  por
que o pequeno Flipot vai fazer seu exame de rapa-bolsas.
  Flipot, um dos garotos da Tour de Nesle, tinha trocado, para a ocasio, seus andrajos por um costume de sarja violeta e grossos sapatos que o incomodavam. Tinha 
mesmo posto uma gola branca pregueada e, com um saco de pelcia em que aparentava carregar seus livros e suas penas, parecia muito bem um filho de arteso fazendo 
gazeta no Pont Neuf, diante do teatro de marionetes.
  Jactncia fez-lhe as ltimas recomendaes:
  - Escute, pequeno. No se trata somente de roubar uma bolsa, como voc j tem feito... Queremos saber se voc  capaz de esquivar-se em uma confuso e trazer o 
bocado. Compreendeu?
  - Gy - respondeu Flipot em gria. - Sim.
  Depois, fungou nervosamente e passou vrias vezes a manga no nariz. Os companheiros examinavam com cuidado os transeuntes.
  -        Vejamos, eis um belo senhor que s tem olhos para a sua bonita dama e que vem a p...  uma oportunidade! Viu o ja
nota que se aproxima, Flipot? Pararam diante do Grande Mateus. E o momento! Pegue suas tesouras, e v l, para a vindima.
  Com gesto solene, Jactncia passou ao garoto uma grossa tesoura cuidadosamente amolada e empurrou-o para o meio da multido. Seus cmplices j se tinham infiltrado 
entre os espectadores do Grande Mateus.
  O olho experiente de Jactncia seguia com ateno os movimentos de seu aprendiz. De repente, ps-se a gritar:
  -        Cuidado, senhor! Senhor! Ei! Esto roubando sua bolsa, senhor!...
  Alguns passantes olharam na direo que ele indicava e puseram-se a correr. Penia bradava:
  -        Distinto, cuidado. Um guri o alivia!
  O gentil-homem levou a mo  bolsa e encontrou a mo de Flipot.
  -        Rapa-bolsas! - berrou ele.
  Sua companheira soltou um grito estridente.
  O pandemnio foi imediato e total. Pessoas gritavam, batiam, engalfinhavam-se, enquanto os sequazes de Calembre-
daine aumentavam o tumulto, com seus gritos e suas exclamaes.        
  - Segurei-o!
  -  ele!
  - Agarrem-no! Escapou!
  - Est ali!
  - Est aqui!
  As crianas, espremidas, choravam. Mulheres desfaleciam. Lojas foram destrudas. Guarda-sis vermelhos voaram para dentro do Sena. A fim de se defender, os vendedores 
de frutas puseram-se a jogar mas e laranjas.
  Os animais do tosador de ces, assustados, passavam entre as pernas, como bolas de plos cerrados, ganindo e babando.
  Belo Rapaz ia de uma mulher a outra: enlaava as burguesas pela cintura, beijando-as e acariciando-as da mais audaciosa forma, sob os olhos espantados dos maridos, 
que em vo procuravam dar-lhe com a bengala. Os golpes atingiam outros, que se vingavam arrancando as perucas dos maridos ultrajados.
  No meio daquele turbilho, Jactnciaeseus cmplices roubavam as bolsas, esvaziavam as algibeiras, arrebatavam os casacos, enquanto o Grande Mateus, do alto de 
seu carro, ao som da furiosa, brandia o sabre, berrando:
  -        Vo l, rapazes! Mexam-se!  bom para a sade!
  Anglica se tinha refugiado sobre os degraus do terrapleno, de onde dominava o espetculo. Firmando-se nas grades, ela ria a ponto de lhe correrem lgrimas. O 
dia terminava muito bem. Era exatamente aquilo que lhe faltava para satisfazer seu desejo de rir e de chorar, que a atormentava desde que acordara no barco de feno, 
sob as carcias do desconhecido.
  Ela distinguiu Hurlurot e Hurlurette agarrados um ao outro, flutuando na vaga da batalha, como enorme bia de trapos sujos.
  Seu/iso redobrou. Ela sentia-se sufocar.
  -         assim to divertido, garota? - resmungou uma voz
lenta atrs dela.
  E uma mo segurou-lhe o pulso. "Um guarda - isso no se reconhece; sente-se", dissera Penia. Desde aquela noite, Anglica aprendera a farejar de onde vinha o 
perigo. Ela continuou a rir, mas moderadamente, e afetou um ar de inocncia.
  - Sim,  divertido, essas pessoas a lutarem sem saber por qu.
  - E voc, voc talvez o saiba, hem?...
  Anglica inclinou-se com um sorriso para o rosto do policial. De repente, com mo vigorosa, segurou-lhe o nariz, torceu-lhe a cartilagem nasal, e como, sob o efeito 
da dor, ele deitasse a cabea para trs, ela deu-lhe um golpe com a borda externa da mo no saliente gog.
  Fora-lhe ensinado pela Polaca. No era bastante rude para atordoar um policial, mas suficiente para faz-lo soltar a presa.
  Libertada, Anglica fugiu, saltando como uma gazela.
  Na Tour de Nesle, cada qual regressava de seu lado.
  -        Podemos contar nossos despojos - disse Jactncia. - Mas que vindima, meus amigos, que vindima!
  E sobre a mesa caam os casacos, as espadas, as jias, as bolsas sonantes.
  O pequeno Flipot, coberto de equimoses, tinha trazido a bolsa do gentil-homem que lhe haviam indicado.
  Foi festejado e comeu, entre os veteranos,  mesa de Calembredaine.
  
  CAPITULO VII
  
  O sonho das Amricas
  
  - Anglica - murmurou Nicolau -, Anglica, se eti no a houvesse reencontrado...
  - Que aconteceria?
  - No sei...
  Ele a puxou e apertou-a contra o peito possante.
  -        Oh! Por favor! - suspirou ela desprendendo-se.
Apoiou a fronte contra as barras da seteira. As estrelas do cu, de um azul profundo, eram refletidas na gua calma do Sena. O ar estava impregnado do odor das amendoeiras 
que floresciam nos jardins e pomares do Faubourg Saint-Germain. Nicolau aproximou-se de Anglica e continuou a devor-la com os olhos. Ela ficou comovida pela intensidade 
daquela paixo que no esmorecia.
  -        Que faria voc se eu no tivesse voltado?
  -        Depende. Se voc tivesse sido aprisionada pelos guardas, eu poria em movimento todos os meus esbirros. Vasculharamos as prises, os hospitais, as cadeias 
de mulheres. F-la-amos evadir. Se o co a houvesse estrangulado, eu buscaria por toda parte o co e seu dono para mat-los... Enfim, se...
  Sua voz tornou-se rouca.
  -        Se voc tivesse partido com outro... eu a reencontraria e, quanto ao outro, eu o sangraria.
  Ela sorriu, lembrando-se de certa face plida e zombeteira. Mas Nicolau era mais arguto do que ela pensava, e o amor aguava-lhe o instinto.
  - No creio que voc possa escapar-me facilmente - tornou ele em tom de ameaa. - Na mendicncia, no se trai como na alta roda. Mas, se algum o faz,  morto. 
No haveria refgio para voc em nenhum lugar... Ns somos muito numerosos, muito poderosos. Busc-la-amos por toda parte, nas igrejas, nos conventos e at no palcio 
do rei... Somos bem organizados, voc sabe. Eu, no fundo, gosto de organizar batalhas.
  Tirou o casaco em frangalhos e mostrou um pequeno sinal perto do mamilo esquerdo.
  - Est vendo isto? Minha me sempre me dizia: " a marca de seu pai!" Porque meu pai no era aquele gordo campons Merlot. No. Minha me teve-me antes, com um 
militar, um oficial, pessoa de qualidade. Ela nunca me disse o nome dele, mas, s vezes, quando papai Merlot queria bater-me, ela gritava-lhe: "No toque no primognito, 
ele tem sangue nobre!" Voc ignorava este detalhe, no ?
  - Bastardo de soldado!  mesmo para se orgulhar! - disse ela desdenhosa.
  Ele esmagou-lhe os ombros entre as mos possantes.
  - H momentos em que tenho vontade de esmigalh-la como a uma avel. Mas, agora, voc j est prevenida. Se um dia me enganar... Se dormir com outro...
  - No tenha receio. Seus braos so mais que suficientes para mim. Por que diz isso com ar malicioso?
  - Porque seria preciso ser dotada de um temperamento excepcional para pedir mais. Se voc pudesse ser um pouco mais delicado...!
  - E eu no sou delicado? - rugiu ele. - Eu, que a adoro! Repita que eu no sou delicado.
  Levantou um punho macio. Ela gritou-lhe com voz estridente:
  -        No me toque, miservel! Bruto! Lembre-se da Polaca!
Ele arriou o brao. Por fim, depois de contempl-la som briamente, soltou um suspiro.
  - Perdoe-me, Anglica. Voc  sempre a mais forte. Teve um sorriso, estendeu-lhe os braos com ar canhestro.
  - Deite-se. Vou procurar ser delicado.
  Ela se deixou tombar sobre o catre e, indiferente, passiva, ofereceu-se ao amplexo tornado familiar.
  Quando ele ficou satisfeito, ainda permaneceu por muito tempo aconchegado  mulher. Ela sentia sobre a face a rude escova dos cabelos de Nicolau, que ele cortava 
muito curto por causa da peruca.
  Ele disse, afinal, com voz surda:
  - Agora eu sei... Voc nunca ser minha. Porque no  somente isto o que eu quero.  o seu corao.
  - No se pode ter tudo, meu pobre Nicolau - filosofou Anglica. - Antigamente, voc tinha uma parte do meu corao, agora tem o meu corpo inteiro. Antigamente, 
voc era meu amigo Nicolau, agora  meu dono Calembredaine. Matou at a lembrana do afeto que eu lhe dedicava quando ramos crianas. Em todo caso, sou sua, de 
qualquer maneira, porque voc  forte.
  O homem impacientou-se. Resmungou e suspirou de novo:
  -        Fico pensando s& no serei obrigado a mat-la qualquer dia.
  Ela bocejou, procurando dormir.
  -        No diga tolices.
  Pela janela, as estrelas refletiam-se nos vidros dos espelhos roubados. A melopeia dos sapos, ao p da torre, no cessava.
  - Nicolau - disse de repente Anglica.
  - Que ?
  - Lembra-se de que desejvamos partir para as Amricas?
  - Lembro.
  - Pois bem, e se partssemos agora de verdade?
  - Para onde?
  - Para as Amricas.
  - Voc est louca!
  - No estou, garanto-lhe... Um pas onde ningum tem frio', nem fome... onde todos so livres.
  Ela insistiu.
  - Que nos espera aqui? A voc no pode ser seno o crcere, a tortura, as galeras ou o patbulo'. A mim... a mim que nada mais tenho, que me espera, se voc desaparecer?
  - No Ptio dos Milagres, nunca  preciso pensar no que nos espera. No existe amanh.
  - L longe, ns poderamos, talvez, ter terras novas por nada. Cultiv-las-amos... Eu o ajudaria.
  -        Voc est louca! - repetiu ele em novo acesso de clera. - Acabo de lhe explicar que no descendo de um joo-ningum. E voc acredita que vou desertar, 
deixando a Rodoguno, o Egpcio, a clientela da feira de Saint-Germain?
  Ela no respondeu e recaiu em sua passividade. Ele grunhiu ainda alguns instantes.
  -        Essas mulheres, quando metem uma ideia na cachola!...
  Furioso, ele se revirava e no se acalmava. Uma voz dentro dele repetia: "Que lhe espera? O crcere, o patbulo? Sim. E depois? Mas pode-se viver em alguma parte 
que no seja Paris?..."
  Na noite primaveril, o vasto peito de Nicolau Calembre-dain estava cheio de suspiros abafados.
  Anglica dormia e ele a olhava, transtornado pelo cime. Esteve prestes a acord-la, porque ela sorria.
  Estava sonhando que ia sobre o mar, em um barco de feno.
  
  CAPTULO -VIII
  
  Joo Podre, mercador de crianas
  
  Numa tarde de vero, Joo Podre entrou no covil de Ca-lembredaine, na Tour de Nesle. Vinha ver uma mulher chamada Fanny Poedeira e que tinha dez filhos que ela 
alugava, alternadamente, a uns e outros. Havia-se estabelecido com essa sinecura, s se entregando  mendicncia por passatempo e  prostituio por hbito, o que, 
afinal de contas, no prejudicava suas qualidades de procriadora - antes pelo contrrio.
  Joo Podre vinha "reservar" uma criana que ela esperava. Fanny o advertiu, como boa comerciante:
  - Voc vai pagar mais caro, pois ele ter um p deformado.
  - Como o sabe?
  - Quem o fez era aleijado.
  - Ah, ah, ah! - escarneceu a Polaca com um grande riso. - Voc tem sorte em saber como era aquele que a emprenhou. Est certa de que no confundiu?
  -        Eu posso escolher - respondeu a outra com dignidade.
E ps-se a fiar uma roca de l suja. Era uma mulher ativa e que no gostava de estar desocupada.
  O macaquinho Piccolo saltou sobre a espdua de Joo Podre e arrancou-lhe com vivacidade um punhado de cabelos.
  -        Animal horrvel! - gritou o homem, defendendo-se com seu chapu.
  Anglica estava bastante contente por essa iniciativa de seu favorito. Este no escondia a repulsa que lhe inspirava o algoz de crianas. Mas, como Joo Podre 
era indivduo temvel e estimado do Grande Cosre, cujo covil compartilhava, ela chamou o animalzinho.
  Joo Podre esfregava o crnio, resmungando injrias. Ele j tinha dado a conhecer ao Grande Cosre: a gente de Calembredaine era insolente e perigosa. Acreditavam-se 
os senhores. Mas chegaria um dia em que os outros bandidos se revoltariam. Nesse dia...
  -        Venha beber um trago - disse-lhe a Polaca para acalm-lo.
Ela serviu-lhe uma concha cheia de vinho fervente. Joo Podre sempre sentia frio, mesmo no auge do vero. Devia trazer nas veias sangue de peixe. Ele tinha, alis, 
olhos glaucos, a pele mida e viscosa de um peixe.
  Quando ele acabou de beber, um sorriso horrvel entreabriu-lhe os lbios sobre uma fileira de dentes estragados.
  Thibault, o Sanfonineiro, chegava da rua, seguido do pequeno Linot.
  -        Ah! Que bonito menino - disse Joo Podre, esfregando as mos. - Desta vez, Thibault, est decidido, eu fico com ele e lhe darei, preste bem ateno, lhe 
darei cinquenta libras: uma fortuna.
  O velho lanou um olhar embaraado pela abertura do chapu de palha.
  - Que quer que eu faa com cinquenta libras? Depois, quem bater meu tambor quando ele for embora?
  - Voc arranjar outro garoto.
  - Este  meu neto.
  - Ento no quer a sua felicidade? - disse o horrvel Joo Podre, com um sorriso astuto. - Pensa que seu neto ser vestido de veludo e rendas. No estou mentindo, 
Thibault. Sei a quem vou vend-lo. Ele ser o favorito de um prncipe e, mais tarde, se for hbil, poder ascender s mais altas posies.
  Joo Podre afagou os anis castanhos do menino.
  -        No lhe agradar, Linot, ter belas roupas, comer at se fartar, em prato de ouro, mastigar confeitos?
  -        No sei - respondeu o menino, fazendo tromba.
Ele no tinha ideia de semelhantes delcias, pois jamais conhecera seno a misria no rasto de seu av.
  Um raio de sol enxofrado, insinuando-se pela porta entreaberta, iluminou-lhe a pele dourada. Tinha longos clios espessos, olhos negros e grandes, lbios rubros 
como cerejas. Usava com graa os seus farrapos. Dava a impresso de um pequeno nobre fantasiado em um baile de mscaras e parecia surpreendente que tal flor tivesse 
podido crescer em semelhante esterqueira.
  -        Vamos! Vamos! Ns dois nos entenderemos muito bem-        disse Joo Podre.
  E passou a mo branca em volta dos ombros do menino.
  - Vem, meu lindo, vem, meu cordeiro.
  - Mas eu no estou de acordo! - protestou o sanfonineiro, que comeou a tremer. - Voc no tem o direito de tomar o meu neto.
  - Eu no o tomarei; quero compr-lo. Cinquenta libras! No acha que  um preo justo? Portanto, fica tranquilo. Seno, nada ter.
  Ele arredou o sanfonineiro e caminhou para a porta puxando Linot. Diante da porta, encontrou Anglica.
  -        Voc no pode lev-lo sem autorizao de Calembredaine - disse ela com muita calma.
  E, tomando a mo do menino, reconduziu-o  sala.
  A cor de sebo do mercador de crianas no podia empalidecer-se mais. Joo Podre ficou sufocado por alguns segundos.
  - Essa agora! Essa agora! E, puxando um escabelo:
  - Est bem, eu esperarei Calembredaine.
  -        Pode esper-lo - disse a Polaca. - Mas, se ela se opuser, voc no ter o pequeno. Ele faz tudo o que ela quer -concluiu, com um misto de ressentimento 
e admirao.
  Calembredaine, seguido de seus homens, s regressou  noite. Antes de mais nada, pediu de beber. Depois falariam de negcios.
  Enquanto ele se dessedentava copiosamente, bateram  porta. Isso no era muito usado entre os mendigos. Todos se olharam, e Penia, asindo da espada, foi abrir.
  Uma voz de mulher perguntou do lado de fora:
  - Joo Podre est a?
  - Pode entrar - disse Penia.
  As tochas de resina fixadas s paredes por argolas de ferro alumiaram a entrada imprevista de uma jovem alta, envolta em seu manto, e de um lacaio de libr vermelha, 
que carregava um cesto.
  -        Fomos procur-lo no Faubourg Saint-Denis - explicou a moa a Joo Podre. - Mas disseram-nos que voc estava em casa de Calembredaine. Voc nos fez caminhar, 
quando teramos vindo mais depressa das Tulherias a Nesle diretamente.
  Sempre falando, ela retirara o manto e fez entufar as rendas do corpete, onde brilhava uma pequena cruz de ouro, presa ao pescoo por uma fita de veludo negro. 
Os olhos dos homens faiscaram diante daquela mulher bonitona, cuja flamejante cabeleira ruiva era mal dissimulada por uma fina touca de rendas.
  Anglica se refugiara na sombra. Um suor ligeiro aljofrava-lhe as tmporas. Acabava de reconhecer Bertlia, a camareira da Condessa de Soissons, que, alguns meses 
antes, havia negociado com ela a compra de Kuassi-Ba.
  -        Voc tem alguma coisa para mim? - perguntou Joo Podre.
  Com ar prometedor, a jovem suspendeu a toalha do cesto que o lacaio acabava de pr sobre a mesa e tirou uma criana recm-nascida.
  -        Aqui est - disse ela.
  Joo Podre examinou o beb com ar ctico.
  - Gordo! Bem-feito... - disse ele franzindo os lbios. - Mas eu no poderia dar-lhe mais de trinta libras por ele.
  - Trinta libras! - exclamou a jovem indignada. - Est ouvindo, Jacinto? Trinta libras. No, voc no o olhou! No  capaz de apreciar a mercadoria que euThe trago.
  Arrancou a fralda e exps o recem-nascido inteiramente nu  claridade das tochas.
  -        Olha-o bem.
  O pequeno ser, tirado de seu sono, mexia-se vagamente.
  -        Oh! - exclamou a Polaca. - Ele tem as partes negras!
  -         um filho de mouro - cochichou a criada -, uma mistura de preto e branco. Voc sabe como eles se tornam belos, os mulatos, com uma pele dourada. No 
se conseguem muitos. Mais tarde, quando ele tiver seis ou sete anos, voc poder revend-lo por bom preo, como pajem.
  Riu com malcia e acrescentou:'
  -        Quem sabe? Voc poder talvez revend-lo a sua prpria me, a Soissons.
  Os olhos de Joo Podre brilhavam de cobia.
  - Est bem - decidiu ele. - Dar-lhe-ei cem libras.
  - Cento e cinquenta.
  A ignbil personagem ergueu os braos para o ar.
  -        Voc quer minha runa! Pode imaginar o que vai custar-me a educao desse menino, sobretudo se eu quiser mant-lo gordo e forte?
  Seguiu-se uma srdida discusso. Para melhor perorar, com os punhos nas cadeiras, Bertlia pusera o beb sobre a mesa, e todos se apressaram em olh-lo, um tanto 
receosos. Afora o sexo muito escuro, ele no era muito diferente de outro recm-nascido qualquer. S que sua pele parecia mais vermelha.
  - E quem me diz que ele  verdadeiramente um mulato? - perguntou Joo Podre como ltimo argumento.
  - Juro-lhe que seu pai era mais negro que o fundo de uma panela.
  Fanny Poedeira soltou um pequeno grito:
  - Oh! Estou at arrepiada. Como pde sua patroa...?
  - No dizem que basta um mouro olhar uma mulher no branco do olho para torn-la grvida? - interrogou a Polaca.
  A servilheta soltou uma gargalhada.
  -         o que dizem... E porfiam mesmo em diz-lo das Tulherias ao Palais-Royal, desde que a gravidez de minha patroa se tornou indisfarvel. Os mexericos 
chegaram a invadir a cmara do rei. Sua Majestade respondeu: "Verdade?  preciso ento que seja uma olhadela muito profunda". E, encontrando minha patroa na antecmara, 
deu-lhe as costas. Pode imaginar como isso aborreceu a Soissons! Ela que tanto esperava pr-lhe as garras em cima! Mas o rei est furioso, desde que desconfiou que 
um homem de pele negra foi
recebido pela Soissons da mesma maneira que ele. E, por cmulo da infelicidade, nem o marido nem o amante, esse pequeno e indecente Marqus de Vardes, concordam 
em assumir a paternidade. Mas minha patroa tem ainda um bom trunfo. Ela saber tapar a boca dos intrigantes. Em primeiro lugar, oficialmente, ela no vai parir antes 
de dezembro. E Bertlia sentou-se, olhando em volta com ar triunfante.
  - D-me um gole, Polaca, e eu lhes contarei isso.  tudo muito simples, como se ver. Basta saber contar nos dedos. O mouro deixou o servio de minha patroa em 
fevereiro. Se ela tiver a criana em dezembro, pode ser ele o pai? Ento ela vai afrouxar um pouco a cintura do vestido e queixar-se: "Oh! Minha cara, esta criana 
mexe-se demais. Ela me paralisa. Nem sei se poderei ir ao baile do rei esta noite!" Depois, em dezembro, um parto com grande estardalhao, nas prprias Tulherias. 
Esse ser o momento, Joo Podre, de voc nos vender uma criana fresquinha, com um dia de vida. Ser o pai quem quiser. O mouro estar fora de cogitao:  tudo 
o que se deseja. Todos sabem que ele rema nas galeras do rei desde fevereiro.
  - Por que motivo est nas galeras?
  - Por uma suja histria de magia.
  - Ele era cmplice de um feiticeiro que foi queimado na Place de Greve.
  Malgrado seu autodomnio, Anglica no pde deixar de lanar um olhar na direo de Nicolau. Mas ele bebia e comia com indiferena. Ela mergulhou na sombra. Gostaria 
de poder abandonar a sala e, ao mesmo tempo, ardia por ouvir o resto da conversao.
  -        Sim, uma suja histria - continuou Bertlia abaixando a voz. - Esse diabo negro sabia fazer feitio. Foi condenado.
Por isso mesmo  que La Voisin no quis negcio com ela, quando minha patroa foi procur-la para fazer saltar o caroo.
  O ano Barcarola pulou sobre a mesa, perto do copo da criada.
  - Uh! Eu j vi essa dama e a voc tambm, eu a vi vrias vezes, bela cenoura encrespada. Eu sou o pequeno demnio que abre a porta de minha clebre patroa, a adivinha.
  - Com efeito, eu o reconheceria por sua insolncia.
  - La Voisin no quis fazer a condessa abortar porque era um filho de mouro que ela trazia no ventre.
  - Como foi que ela o soube? - perguntou Fanny.
  - Ela sabe tudo. E uma pitonisa.
  -  Aps olhar a palma da mo de minha patroa, ela disse-lhe tudo de um golpe - comentou a criada com ar assombrado. - Que era um menino de sangue mestio, que 
o homem negro que o havia gerado conhecia os segredos da magia, que ela no podia mat-lo, pois isso.lhe traria desgraa, a ela que tambm era feiticeira. Minha 
patroa estava bem arrependida: "Que faremos, Bertlia?", dizia-me ela. Encolerizou-se terrivelmente. Mas La Voisin no cedeu. Disse que ajudaria minha patroa a parir, 
quando chegasse a ocasio, e que ningum saberia de nada. Que no poderia, no entanto, fazer mais. E exigiu muito dinheiro. A coisa se passou na ltima noite, em 
Fontainebleau, onde toda a corte se acha veraneando. La Voisin veio comum de seus homens, um mgico chamado Lesage. Minha patroa teve o parto em uma pequena casa 
que pertence  famlia de La Voisin, bem perto do castelo. Ao amanhecer, reconduzi minha patroa e, desde as primeiras horas, com todos os seus atavios, arrebicada 
at os olhos, ela se apresentou  rainha, como  de hbito, pois  ela quem lhe dirige a casa. Isso vai decepcionar muitas pessoas que esto esperando v-la confinar-se 
por estes dias. A Sra. de Soissons ainda .est prenhe, no parir seno em dezembro, uma criana bem branca, e pode ser mesmo que o Sr. de Soissons a reconhea.
  Uma formidvel gargalhada sublinhou a concluso da histria. Barcarola deu uma cambalhota e disse:
  - Ouvi minha patroa confiar a Lesage que esse negcio da Soissons valia bem a descoberta de um tesouro escondido.
  - Oh! La Voisin  ambiciosa - resmungou Bertlia em tom de queixa. - Ela tanto reclamou que seria bem justo se minha patroa pudesse dar-me um pequeno colar em 
paga da minha ajuda.
  A criada olhou para o ano com ar pensativo.        /
  - Voc - disse ela subitamente -, creio que voc faria a felicidade de algum de muito alta posio que eu conheo.
  - Eu sempre pensei que fui feito para grandes destinos - respondeu Barcarola, firmando-se nas pequenas pernas tortas.
  - O ano da rainha morreu, e isso causou imenso pesar  soberana, que se contraria com tudo, desde que concebeu. E a an est desesperada. Ningum pode consol-la. 
 preciso arranjar-lhe um novo companheiro... do seu tamanho.
- Oh! Estou certo de que agradarei a essa nobre dama! -exclamou Barcarola, agarrando-se  saia da criada. - Leve-me, bela cenoura, leve-me para o palcio da rainha. 
No tenho o ar admirvel e sedutor?
  - Realmente ele no  feio, no acha, Jacinto? - disse ela divertida.
  - Sou mesmo belo - afirmou o pigmeu. - Se a natureza me houvesse dado mais alguns centmetros, eu seria o mais solicitado dos alcovetos. E para dizer galanteios 
s mulheres minha lngua nunca est em repouso, acredite-me.
- A an s fala espanhol.
- Eu falo o espanhol, o alemo e o italiano.
-  preciso leva-lo! - exclamou Bertlia, batendo as mos.-Este negcio  excelente, e far nosso prestgio perante
Sua Majestade. Despachemo-nos. Devemos estar em Fontainebleau de manh a fim de que nossa ausncia no seja nota
da. Ser preciso voc se meter na canastra do mulatinho?
  -        Esta zombando de mim, senhora - protestou Barcarola, que se sentia j um grande senhor.
Todos riram e se congratularam. Barcarola com a rainha!... Barcarola com a rainha! Calembredaine contentou-se em tirar o nariz da escudela.
  - No esquea os companheiros quando for rico - disse ele. E fez o gesto muito significativo de esfregar a ponta do polegar na do indicador.
  - Que voc me sangre se eu os esquecer! - protestou o ano, que conhecia as impiedosas leis da mendicncia.
  E, saltando para o canto em que se encontrava Anglica, fez-lhe uma grande saudao cortes.
-        Adeus,  bela, adeus, irmzinha, Marquesa dos Anjos.
O curioso homnculo ergueu para ela os seus olhos vivos, estranhamente perspicazes. E acrescentou, arremedando a afe-tao de um peralvilho:
  -        Espero, minha cara, que nos tornemos a encontrar. Espero-a... no palcio da rainha.


AS CRIANAS NO PTIO DOS MILAGRES

CAPTULO-IX

Anglica em busca de seus dois filhos

A corte estava em Fontainebleau. Durante os dias quentes de vero, nada havia mais encantador do que aquele castelo branco, inundado de verdura, com seu lago em 
que as carpas faziam evolues e, entre elas, a velha av toda branca, que trazia ao nariz o anel de Francisco I. guias, flores, bosquetes...
  O rei trabalhava, o rei danava, o rei caava a cavalo com seus ces. O rei estava enamorado. A doce Lusa de La Valli-re, tremula de haver despertado a paixo 
daquele corao real, erguia para o soberano seus olhos magnficos, de um pardo azulado cheio de langor. E a corte, em sugestivas alegorias nas quais Diana, correndo 
atravs dos bosques, afinal se entrega a Endimio, porfiava em celebrar a ascenso da modesta jovem loura cuja virgindade Lus XIV acabava de colher.
  Com dezessete anos, sada havia pouco da pobreza de uma numerosa famlia provincial, isolada entre as donzelas de honor de Madame, no havia de que tremer Lusa 
de La Valli-re quando todas as ninfas e silvanos dos bosques de Fontainebleau cochichavam, ao luar,  sua passagem: "Ali vai a favorita!" Que solicitude ao seu 
redor! Ela no sabia mais onde esconder a intensidade do seu amor e a vergonha do seu pecado! Mas os cortesos conheciam o mecanismo de sua sutil profisso de parasitas. 
Era por intermdio da amante que se chegava ao rei, que se teciam as intrigas, que se conseguiam as nomeaes, os favores, as penses. Enquanto a rainha, devido 
 maternidade, ficava recolhida aos seus aposentos, ierto da an inconsolvel, havia,  luz dos dias de vero, ma sequncia ininterrupta de festas e de prazeres. 
Durate uma refeio, no canal, como no mais houvesse lugares as embarcaes para os oficiais-de-boca, era um gosto ver o Fncipe de Conde, em vez de ganhar batalhas 
e de conspirr contra o rei, pegar os pratos que lhe estendiam de um Sara vizinho e apresent-los ao rei e  sua amante, como  seridor modelo.
  Sentaa s margens do Sena, Anglica, no mau cheiro da vasa supraquecida de Paris, olhava o crepsculo descer sobre Nore-Dame.
  Por ema das altas torres quadradas e da bojuda nave da abside, cu era amarelo, povoado de andorinhas. De quando em uando, um pssaro, passando perto da jovem, 
roava a mrgem com um grito agudo.
  Do otro lado do rio, sob as casas canonicais de Notre-Darne, ma longa encosta de barro marcava o local do maior behvedoro de Paris. Aquela hora, inmeros cavalos 
para ali se dirigim, conduzidos por carreteiros ou criados de equipagem. 5eus relinchos alternados subiam na tarde pura.
De roente, Anglica se levantou.
"Votver meus filhos", pensou.
  Um hteleiro, por vinte soldos, transportou-a ao porto de Saint-Lndry. Anglica entrou pela Rue de l'Enfer e parou a alguns pssos da casa do Procurador Fallot de 
Sanc. No tinha a ireno de apresentar-se em casa de sua irm no estado em quee achava, com a saia em molambos, os cabelos em de-sordempresos num leno, os sapatos 
acalcanhados. Mas tivera a idi de que, postando-se na vizinhana, poderia ver, talvez, seus do; filhinhos. Isso se tornara, para ela, desde algum tempo, umdia 
fixa, uma necessidade que a cada dia se acentuava e lrie oapava todo o pensamento. O pequeno rosto de Flori-mond energia do abismo de olvido e insensibilidade em 
que ela subrergira. Ela revia-o, com seus cabelos negros cacheados, sob a toca vermelha. Ouvia-o tagarelar. Que idade teria ele agora? Urmouco mais de dois anos. 
E Cantor? Sete meses. Ela no consegta imaginar-lhe as feies. Deixara-o to pequeno!
Apoida  parede, junto  oficina de um sapateiro, Anglica ps-se a olhar fixamente a fachada daquela casa em que ela vivera quando ainda era rica e considerada. 
Um ano atrs, sua equipagem obstrura a estreita ruela. De l, ela sara para assistir  entrada triunfal do rei, vestida luxuosamente. E Ca-teau, a Caolha, lhe 
transmitira as vantajosas propostas do Superintendente Fouquet. "Aceite, minha cara... Isso no  melhor do que perder a vida?"
  Ela havia recusado. Assim perdera tudo e no estava longe de perguntar a si mesma se, na realidade, no perdera tambm a vida, pois j no tinha nome nem direito 
 existncia. Estava morta aos olhos de todos.
  O tempo passava e nada se movia na fachada da casa. No entanto, por trs das vidraas sujas do escritrio do procurador, adivinhavam-se as silhuetas necessitadas 
dos escreventes.
Um deles saiu para acender a lanterna.
Anglica o abeirou:
  -        Ser que Matre Fallot de Sanc est em casa ou foi para suas terras?
 Antes de responder, o escrevente examinou detidamente a interlocutora.
  - J faz algum tempo que Matre Fallot no mora aqui - respondeu. - Ele vendeu o cargo. Teve aborrecimentos por causa de um processo de feitiaria em que estava 
envolvida sua famlia. Isso foi muito mau para a sua profisso. Ele foi instalar-se em outro bairro.
  - E... no sabe que bairro?
 - No - disse o outro em tom arrogante. - E, se o soubesse, no lhe diria. Voc no  cliente para ele.
  Anglica estava aterrada. Desde alguns dias, ela no vivia seno da ideia de olhar, nem que fosse por um segundo, os rostos de seus filhos. Imaginava-os voltando 
de um passeio; Cantor nos braos de Brbara, Florimond saltitando alegremente ao lado dela. E eis que eles tambm tinham desaparecido para sempre de seu horizonte!
Teve de apoiar-se  parede, presa de uma vertigem.
O sapateiro, que estava colocando as tbuas de sua oficina para a noite, e que tinha ouvido a conversa, disse-lhe:
- Voc precisa tanto assim ver Matre Fallot? E para um processo?
  - No - disse Anglica procurando dominar-se -, mas eu... gostaria de ver uma jovem que estava a seu servio... Chama-se Brbara. Ser que ningum sabe o novo 
endereo do senhor procurador?
  - O de Matre Fallot e de sua famlia no poderei contar-lhe. Mas o de Brbara  possvel. Ela no trabalha mais para eles. Da ltima vez em que a vi, ela trabalhava 
para um rtis-seur da Rue de la Valle-de-Misre, no Galo Atrevido.
- Obrigada.
 J Anglica corria pelas ruas escuras. A Rue de la Vale-de-Misre, por trs da priso do Grande Chtelet, era o feudo dos rtisseurs. Dia e noite no cessavam 
os gritos das aves degoladas e o rudo dos espetos a girarem diante de grandes fogos.
  A rtisserie do Galo Atrevido era afastada e no apresentava nada de atraente. Ao contrrio, observando-a poder-se-ia crer que a Quaresma j comeara.
  Anglica entrou em uma sala mal iluminada por duas ou trs velas. Amesendado diante de uma jarra de vinho, um homem gordo, com um sujo gorro de cozinheiro, parecia 
muito mais ocupado em beber do que em servir seus clientes. A freguesia no era numerosa e compunha-se sobretudo de artesos e de um viajante de pobre aspecto. Com 
passo arrastado, um rapaz, cingindo um avental gordurento, trazia pratos cuja composio era difcil distinguir.
Anglica dirigiu-se ao gordo cozinheiro:
-        O senhor tem aqui uma criada de nome Brbara?
Com um polegar negligente, o homem mostrou-lhe, aos fundos, a cozinha.
  Anglica reconheceu Brbara. Estava sentada diante do fogo e depenava uma ave.
-        Brbara!
  A outra ergueu a cabea e enxugou com o brao a fronte coberta de suor.
- Que quer, moa? - perguntou ela com voz lassa.
- Brbara! - repetiu Anglica.
  A criada arregalou os olhos. Depois, soltou subitamente uma exclamao sufocada:
- Oh! Senhora!... Que a senhora me desculpe...
- No  mais preciso chamar-me senhora - disse Anglica.
 E deixou-se tombar sobre a pedra da lareira. O calor era sufocante.
-        Brbara, onde esto meus filhos?
 As gordas bochechas de Brbara tremiam como se ela estivesse a ponto de explodir em soluos. Engoliu a saliva e conseguiu, afinal, responder:
  - Esto com uma ama, senhora... Fora de Paris, m uma aldeia, perto de Longchamp.      
- Minha irm Hortnsia no os conservou consigo?
  - A Sra. Hortnsia, logo em seguida, entregou-os a uma ama. Eu "fui uma vez  casa da ama para entregar-lhe o dinheiro que a senhora me deixou. A Sra. Hortnsia 
tinha exigido que eu lhe entregasse, a ela, esse dinheiro, mas eu nada lhe dei. Eu no queria que ele servisse seno s crianas. Depois, no pude voltar  ama... 
Eu tinha deixado a Sra. Hortnsia... Trabalhei em vrios lugares... E difcil ganhar a vida.
 Agora, ela falava precipitadamente, evitando olhar para Anglica. Esta refletia. Longchamp no era uma aldeia muito distante. As damas da corte faziam dali local 
de passeios. Elas ouviam ali os ofcios das freiras da abadia... Com gestos nervosos, Brbara recomeou a depenar a ave. Anglica experimentou a sensao de que 
algum a olhava fixamente. Virando-se, reparou que o ajudante de cozinha a contemplava, de boca aberta, com uma expresso que no deixava qualquer dvida sobre os 
sentimentos que lhe inspirava aquela bela mulher em farrapos. Anglica estava habituada a esses olhares lascivos dos homens. Mas dessa vez rritou-se. Ergueu-se 
rapidamente.
-        Onde voc mora, Brbara?
-        Nesta casa, em um pequeno quarto improvisado.
Naquele momento, o dono do Galo Atrevido entrou, com o gorro de travs.
  - Ento, por que esto todos pregados a? - perguntou ele com voz pastosa. - Davi, os fregueses o chamam... E essa galinha, quando ficar pronta, Brbara? Palavra, 
quase  preciso que eu faa todo o servio enquanto vocs se refestelam... E essa mendiga, que faz ela a? Anda, mexa-se, fora! E no procure roubar-me um capo...
- Oh! Senhora!
Mas, nessa noite, Anglica no estava de bom humor. Ps as mos nas cadeiras e todo o vocabulrio da Polaca lhe veio  boca.
  -        Feche-se, gordo tonel! No quero seus velhos galos de papelo. Quanto a voc, Romeu sem Julieta, melhor faria
abaixando os olhos e fechando a boca, se no quiser receber um tabefe.
-        Oh! Senhora! - gritou Brbara, cada vez mais espantada.
Anglica aproveitou o estupor dos dois homens para se retirar.
-        Espero-a l fora, no ptio.
  Um pouco mais tarde, quando Brbara passou com um castial na mo, Anglica seguiu-a pela escada desmantelada at o pequeno quarto que mestre Bourjur alugava  
servilheta por alguns soldos.
  -        Meu aposento  bem pobre, senhora - disse Brbara humildemente.
-        No se incomode. Eu conheo a pobreza.
Anglica tirou os sapatos para gozar a frescura do lajedo e sentou-se no leito, que era uma enxerga sem cortina montada sobre quatro ps.
  - E preciso desculpar mestre Bourjur - continuou Brbara. - Ele no  mau sujeito. Mas, desde a morte da mulher, anda desanimado e no faz seno beber. O moo 
 um sobrinho que ele fez vir da provncia para ajud-lo, mas no  muito esperto. Por isso, os negcios no vo bem.
  - Se isso no incomod-la, Brbara - disse Anglica -, posso passar a noite aqui? Amanh partirei, ao amanhecer, e irei ver meus filhos. Posso partilhar seu leito? 
- A senhora me d muita honra.
  - A honra... - disse Anglica amargamente. - Olhe para mim e no fale mais assim.
Brbara rompeu em soluos.
  - Oh! Senhora... - balbuciou ela. - Seus belos cabelos... Seus to belos cabelos! Quem os escova agora?
- Eu mesma... s vezes. Brbara, no chore tanto, peo-lhe.
  - Se a senhora me permite - murmurou a criada -, tenho aqui uma escova... Poderia talvez... aproveit-la... j que estou com a senhora.
-  Se quer...
 As mos hbeis da criada comearam a desembaraar os belos cachos de reflexos quentes. Anglica fechou os olhos.  grande o poder dos gestos cotidianos. Bastaram 
aquelas mos cuidadosas de uma criada para reviver uma atmosfera para sempre desaparecida. Brbara "fungava as lgrimas.
  -        No chore - repetiu Anglica -, tudo isto acabar...
Sim, eu creio que isto ter um fim. No j, sei-o bem, mas chegar o dia... Voc no pode compreender, Brbara.  como um crculo infernal de onde no se pode escapar 
seno pela morte. Mas comeo a crer que poderei escapar, em todo caso. No chore, Brbara, minha filha...
  Dormiram lado a lado. Brbara comeou seu trabalho  primeira luz da manh. Anglica acompanhou-a  cozinha. Brbara f-la beber vinho quente e deu-lhe dois pastis.
  Agora, Anglica seguia pela estrada de Longchamp. Tinha franqueado a Porte Saint-Honor e, aps ter seguido os quin-cunces areentos de um;passeio denominado Champs-lyses, 
chegou  aldeia de Neuflly, onde Brbara assegurara que se achavam as crianas. Ela ainda no sabia o que ia fazer. Talvez observ-los de longe. E, se acaso Florimond 
se aproximasse dela brincando, ela procuraria atra-lo oferecendo-lhe um pastel.
 Fez que lhe indicassem a habitao da Sra. Mavaut. Ao aproximar-se, viu crianas que brincavam na poeira, sob a guarda de uma mocinha de uns treze anos. Estavam 
bastante sujas e mal vestidas, mas pareciam bem-dispostas.
Procurou em vo reconhecer Florimond entre elas.
  Quando uma alta mulher de tamancos saiu da casa, ela sups que se tratasse da ama e decidiu entrar no ptio.
  -        Gostaria de ver dois meninos que lhe foram confiados pela Sra. Fallot de Sanc.
 A camponesa, que era uma forte mulher trigueira e mscula, mediu-a dos ps  cabea com uma desconfiana no dissimulada.
- Trouxe o dinheiro atrasado?
- Existe atraso no pagamento das mesadas?
  - Se existe? - explodiu a mulher. - Com o que a Sra. Fallot me deu quando os recebi e o que sua criada me trouxe depois, eu no poderia aliment-los seno durante 
um ms. Fui a Paris, para reclamar, mas os Fallot se tinham mudado. So maneiras bem prprias desses corvos de procuradores!
- Onde esto eles? - perguntou Anglica.
- Quem?
- As crianas.
  - Como posso saber? - disse a ama, encolhendo os ombros. - J fao muito em me ocupar com os fedelhos das pessoas que pagam.
A mocinha, que se aproximara, disse com vivacidade:
-        O menorzinho est l dentro. Eu o mostrarei a voc.
Puxou Anglica, f-la atravessar a sala principal da granja e conduziu-a ao estbulo, onde havia duas vacas. Atrs da grade da manjedoura, ela descobriu uma caixa 
em que Anglica distinguiu, com dificuldade, na penumbra, um menino com cerca de seis meses. Estava quase nu, coberto apenas por um trapo sujo que lhe cobria o ventre 
e cuja extremidade ele chupava com avidez. Anglica pegou a caixa e tirou-a daquele lugar.
  -        Eu o pus no estbulo, porque  mais quente que a adega durante a noite - murmurou a mocinha. - Ele tem crostas por toda parte, mas no est magro. Sou 
eu que ordenho as vacas de manh e de tarde. Dou-lhe um pouco de leite, a cada vez.
  Aterrada, Anglica olhava o beb. No podia ser Cantor, aquela hedionda pequena larva coberta de pstulas e piolhos! Alm disso, Cantor tinha nascido com os cabelos 
louros, e o menino tinha anis castanhos. Nesse momento, ele abriu os olhos e mostrou umas pupilas claras e magnficas.
-        Ele tem olhos verdes como os seus - disse a mocinha.-        Ser voc a sua me?
-        Sim, eu sou sua me - disse Anglica com voz sumida. -        Onde est o mais velho?
- Deve estar no canil.
  - Javotte, meta-se com o que  da sua conta! - gritou a camponesa.
  Ela observava as duas, mas no intervinha, esperando talvez que, no final das contas, aquela mulher de triste aparncia entregasse o dinheiro.
O canil estava ocupado por um molosso de ar feroz. Javotte teve de empregar toda sorte de sedues e de promessas para faz-lo sair.
- Fl sempre se esconde atrs de Patou, porque tem medo.
- Medo de qu?
A menina lanou um olhar vivo em torno de si.
-        De que lhe batam.
  Tirou qualquer coisa do fundo da casinhola. Uma bola negra e encrespada apareceu.
- Mas  outro co! - exclamou Anglica.
- No, isto so os seus cabelos.
- Com certeza - murmurou Anglica.
 De fato, semelhante cabeleira no podia pertencer seno ao filho de Joffrey de Peyrac. Mas, sob aquele velo abundante, escuro e cerrado, havia um pobre corpinho 
esqueltico e acinzentado, coberto de andrajos.
  Anglica ajoelhou-se e, com mo tremula, separou a gaforina. Descobriu o rosto magro, sem cor, no qual brilhavam dois olhos negros dilatados. Embora fizesse muito 
calor, uma tremura incessante agitava o menino. Seus ossos midos formavam salincias como pontas e sua pele era spera e suja.
Anglica endireitou-se e avanou para a ama.
  -        Voc os deixa morrer de fome - disse com voz lenta e grave. - Voc os deixa morrer de misria... H meses essas crianas no recebem nenhum cuidado, nenhum 
alimento. Somente os restos do co ou os bocados que essa menina separa do seu magro jantar.  uma miservel.
  A camponesa tornara-se muito vermelha. Cruzou os braos sobre o corpete.
  -        Esta  muito boa! - exclamou ela sufocando de clera. - Enchem-me de fedelhos sem vintm, desaparecem sem deixar endereo e ainda  preciso que me deixe 
injuriar por uma mendiga de estrada, uma cigana, uma egpcia, uma...
Sem escut-la, Anglica entrara de novo na casa.
  Pegou um pano de cozinha que pendia diante do fogo e, segurando Cantor, colocou-o s costas, prendendo-o com o pano amarrado ao peito,  moda, precisamente, pela 
qual os ciganos transportam seus filhos.
  -        Que vai fazer? - perguntou a ama, que a tinha seguido. - No vai lev-los, hem? Ou ento tem de dar o dinheiro.
  Anglica esquadrinhou os bolsos e atirou ao cho algumas moedas. A camponesa zombou.
  -        Cinco libras! Faz-me rir. Devem-me bem trezentas. Vamos, pague! Seno, chamo os vizinhos e seus ces e fao
enxot-la. 
  Alta e macia, ela se mantinha diante da porta, com os braos estendidos. Anglica enfiou a mo debaixo de seu corpe-te e tirou o punhal. A lmina de Rodoguno, 
o Egpcio, brilhou na penumbra, com o mesmo fulgor dos olhos verdes de quem o empunhava.
  -        Desguia - disse Anglica com voz surda. - Desguia, ou a sangro.
  Ouvindo aquele calo, a camponesa tornou-se lvida. Conhecia-se muito bem, s portas de Paris, a audcia das prostitutas e sua habilidade para manejar a faca.
  Ela recuou, terrificada. Anglica passou diante dela, conservando a ponta do punhal em sua direao, como lhe havia ensinado a Polaca.
  -        No chame ningum! No lance nem ces nem vizinhos
aos meus calcanhares, seno isso lhe trar infelicidade. Amanh sua granja se incendiar... E voc, voc acordar com a garganta cortada... Compreendeu?...
  Chegada ao meio do ptio, recolocou o punhal na cinta e, carregando Florimond nos braos, foi-se rumo a Paris.
  Ofegante, atirou-se para a capital devoradora de seres humanos, onde ela no dispunha de outro refgio, para seus dois filhos semimortos, que no fossem as runas 
e a proteo sinistra de mendigos e de bandidos.
  Carruagens passavam por ela, levantando nuvens de poeira, que se colava ao seu rosto suado. Ela, porm, no afrouxava a marcha, insensvel ao peso de seu duplo 
fardo.
  "Isto acabar", pensava Anglica. " bem preciso que isto se acabe, que eu um dia me evada, que os reconduza para o meio dos vivos..."
  Na Tour de Nesle, ela encontrou a Polaca, que curtia a sua bebedeira e que a ajudou a cuidar das crianas.

CAPITULO X

Florimond e o Grande Mateus

Ao ver as crianas, Calembredaine no se mostrou nem furioso nem enciumado, como ela receara. Mas uma expresso aterrada estampou-se na sua rude e trigueira face.
 -        Voc no est louca? - disse ele. - No est louca em trazer seus filhos? No viu ainda o que  feito das crianas aqui? Quer que algum os alugue para 
ir mendigar?... Que os ratos os devorem?... Que Joo Podre os roube de voc?
 Acabrunhada com esses reproches inesperados, ela se agarrou a ele.
 -        Para onde quer que os leve, Nicolau? Olhe o que fizeram deles... Morriam de fome! No os trouxe para que lhes faam mal, mas para p-los sob a sua proteo. 
Voc  forte, Nicolau.
 Ela se aconchegou a ele, desvairada, e olhou-o como nunca o fizera. Mas ele no o percebeu e sacudiu a cabea, repetindo:
 - No poderei proteg-los sempre... a esses meninos de sangue nobre. No poderei.
- Por qu? Voc  forte, todos o temem.
 - No sou to forte assim. Voc tem explorado meu corao. Para homens como ns, quando o corao se intromete,  o comeo das idiotices. Algumas vezes eu acordo 
de noite e digo comigo mesmo: "Cuidado, Calembredaine... No fica to distante a Abadia de Monte--Regret..."
  -        No fale assim.  a primeira vez que lhe peo alguma coisa. Nicolau, meu Nicolau, ajude-me a salvar meus filhos!
  Todos lhes chamavam "anjinhos". Protegidos por Calembredaine, compartilhavam a vida de Anglica no seio da misria e do crime. Dormiam numa grande mala de couro 
guarnecida de casacos confortveis e de tecidos finos. Tinham, a cada manh, seu leite fresco. Para eles, Gobert ou Penia iam tocaiar as camponesas que se dirigiam 
ao mercado de Pierre-au-Lait, com sua vasilha de cobre  cabea. As leiteiras acabaram por no mais querer passar pelo caminho do Sena. Foi preciso busc-las at 
no Vaugirard. Finalmente compreenderam que no se tratava seno de dar um pouco de leite para ter direito de passagem, e os narquois j no tinham necessidade de 
puxar das espadas.
  Florimond e Cantor haviam despertado o corao de Anglica.
  Quando regressou de Neuilly, ela os levou ao Grande Mateus. Queria uma pomada para as feridas de Cantor; e, para Florimond... que seria preciso para reconduzi-lo 
 vida, aquele pequeno corpo enfraquecido, tremulo, que se retraa com medo sob as carcias de sua me?
  -        Quando eu o deixei, ele falava - disse Anglica  Polaca -, e agora ele no diz nada.
  A Polaca acompanhou-a ao Grande Mateus. Este levantou a cortina carmesim que dividia em dois o seu estrado e f-las entrar, como damas, em seu gabinete particular, 
onde se viam, alm de uma confuso incrvel de dentaduras, supositrios, bisturis, caixas de ps, panelas e ovos de avestruz, dois crocodilos empalhados.
  O prprio mestre untou, com sua mo augusta, a pele de Cantor com uma pomada de sua composio e prometeu que dentro de oito dias ele pareceria outro. A predio 
mostrou-se acertada: as crostas caram, e surgiu um menino gordinho e manso, de tez branca, cabelos castanhos e cacheados e que gozava de sade.
  Para Florimond, o Grande Mateus foi menos encorajador.
  Pegou o menino com muita precauo, examinou-o, fez-lhe festinhas e entregou-o a Anglica. Depois coou o queixo com perplexidade. Anglica estava mais morta que 
viva.
- Que  que ele tem?
  - Nada.  preciso que ele coma... muito pouco de incio. Depois, dever comer tanto quanto puder. Talvez isso lhe restitua um pouco de carne.
  - Quando eu o deixei, ele falava e andava - repetiu ela, aflita. - E agora ele no diz mais nada. E com dificuldade que se mantm em p.
- Que idade tinha ele, quando o deixou?
- Vinte meses, quase dois anos.
  -  uma pssima idade para aprender a sofrer - disse o Grande Mateus, pensativo. -  melhor que seja antes, logo aps o nascimento. Ou mais tarde. Mas a essas 
crianas, que comeam a abrir os olhos para a vida, no convm que a dor as surpreenda to cruelmente.
  Anglica ergueu para o Grande Mateus um olhar brilhante de lgrimas contidas. Ela perguntava  si mesma como podia aquele bruto vulgar e tonitruante saber coisas 
to delicadas.
- Ser que ele vai morrer?   .
- Talvez no.
- D-lhe um remdio - suplicou ela.
  O emprico despejou num cartucho de papel um p de ervas e recomendou que desse de beber ao menino, cada dia, uma decoco.
  -        E um bom fortificante - disse ele.
  Mas, to prolixo sobre a virtude dos seus medicamentos, no se entregou a qualquer verborreia suplementar. Aps um momento de reflexo, continuou:
  -        O que  preciso  que ele doravante no tenha fome, nem frio nem medo, e que no se sinta abandonado. Que tenha em volta de si os mesmos semblantes... 
Necessita de um remdio que no tenho nos meus potes... Precisa ser feliz. Compreendeu, filha?
  Anglica moveu a cabea afirmativamente. Estava estupe-rata e perturbada. Nunca lhe haviam falado sobre crianas
  aquela maneira. No mundo em que ela vivera outrora, no se Usava aquilo. Mas os simples tinham talvez as luzes de certas coisas...
  Um cliente, com a cara inchada, envolvida num leno, estava sobre o estrado, e a orquestra tinha recomeado a sua cacofonia. O Grande Mateus impeliu as duas mulheres 
para fora, dando em cada uma delas uma palmada no ombro.
  -        Procurem faz-lo sorrir! - gritou-lhes ainda, antes de agarrar a torqus.
  Desse dia em diante, na Tour de Nesle, todos se empenharam em fazer Florimond sorrir. Hurlurot e Hurlurette danavam para ele, com as suas velhas pernas endiabradas. 
Po Negro emprestou-lhe, para brincar, suas conchas de peregrino. Trazia-lhe do Pont Neuf laranjas, bolos, moinhos de papel. Um dos saltimbancos da feira de Saint-Germain 
veio exibir seus oito ratos ensinados que danavam o minueto ao som do violino. Mas Florimond teve medo e fechou os olhos.
  Piccolo, o smio, s conseguiu distra-lo. Malgrado suas caretas e suas cabriolas, no chegou a faz-lo sorrir.
  A honra desse milagre pertenceu a Thibault, o Sanfonineiro. Um dia, o velho msico ps-se a tocar a Cano do Moinho Verde. Anglica, que tinha Florimond sobre 
os joelhos, sentiu-o estremecer. Ele levantou os olhos para ela. Sua boca fremiu, mostrou uns dentes minsculos como gros de arroz. E, com voz fraca e baixa, rouca, 
vinda de muito longe, ele disse:
  -        Mame!
  
  CAPTULO-XI
  
  A batalha da feira de Saint-Germain
  
  Veio o ms de setembro, frio e chuvoso.
  - Eis o Homicida, o inverno, que chega - queixou-se Po Negro, aproximando-se do fogo, com seus andrajos molhados. A madeira mid rechinava na lareira. Excepcionalmente, 
os burgueses e os ricos comerciantes de Paris no esperaram o Dia de Todos os Santos para envergar seus trajes de inverno e fazer-se sangrar, segundo as tradies 
de higiene que recomendavam entregar-se  lanceta do cirurgio quatro vezes por ano, quando da mudana das estaes.
  Mas os nobres e os mendigos tinham outro motivo de preocupao alm de falar da chuva ou do frio.
  Todas as altas personagens da corte e das finanas estavam aturdidas pela priso do riqussimo superintendente das Finanas, Sr. Fouquet.
  E todo o populacho fazia conjeturas sobre o rumo que tomaria a luta que ia travar-se, no momento da abertura da feira de Saint-Germain, entre Calembredaine e Rodoguno, 
o Egpcio.
  A priso do Sr. Fouquet fora como um raio num cu de estio. Algumas semanas antes, o rei e a rainha-me, recebidos em Vaux-le-Vicomte pelo faustoso superintendente, 
mais uma vez haviam admirado o magnfico castelo concebido pelo arquiteto Le Vau, contemplado os afrescos do pintor Le Brun, degustado os pratos de Vatel. Haviam 
percorrido os esplndidos jardins desenhados por Le Ntre, jardins que eram refrescados pelas guas captadas pelo engenheiro Francini e dirigidas a tanques, repuxos, 
grutas e fontes. Enfim, toda a corte pudera aplaudir, no teatro ao ar livre, uma comdia das mais espirituosas: Os importunos, de um jovem autor chamado Molire.
  Depois, apagadas as ltimas luzes, todos se dirigiram a Nantes, para os Estados da Bretanha. Foi l que, certa manh, um obscuro mosqueteiro se apresentou a Fouquet 
quando ele ia subir para o seu coche.
  - No  a, senhor, que deve subir - disse o oficial -, mas naquela cadeirinha de portinholas gradeadas, que se v a quatro passos.
- Que significa isso?
- Que o senhor est preso em nome do rei.
  - O rei  o meu senhor - murmurou o superintendente, que se tornara muito plido. - Mas eu desejaria, para sua glria, que ele agisse mais abertamente.
  O caso levava, mais uma vez, o selo do real discpulo de Mazarino. No deixava de ter analogia com a priso, efetua-da um ano antes, de um grande vassalo tolosano, 
o Conde de Peyrac, que fora queimado como feiticeiro na Place de Greve...
  Mas, no meio de todo aquele pnico e ansiedade em que a desgraa do superintendente mergulhara a corte, ningum se lembrou de estabelecer um paralelo em conexo 
com a ttica outra vez empregada em semelhante circunstncia.
  Os grandes refletiam pouco. No entanto, eles sabiam que, nas contas de Fouquet, se encontrariam no somente o trao de suas malversaes, mas tambm os nomes de 
todos aqueles... e de todas aquelas cuja complacncia ele havia pago. Falava-se mesmo de certos documentos terrivelmente comprometedores, pelos quais grandes senhores 
e at prncipes de sangue se haviam vendido, durante a Fronda, ao matreiro financista.
  No, ningum reconhecia ainda nesta segunda priso, mais espetacular e fulminante que a primeira, a mesma mo autoritria.
  Somente Lus XIV, rompendo os selos de uma carta que lhe comunicava perturbaes no Languedoc, sublevado por um gentil-homem gasco de nome Andijos, suspirou: 
"Era tempo!"
  O esquilo, fulminado na coma da rvore, desabara de galho em galho. Era tempo: a Bretanha no se revoltaria por Fouquet como o Languedoc se revoltara pelo outro, 
aquele estranho homem que ele fora obrigado a fazer queimar vivo na Place de Greve.
  A nobreza, que Fouquet cobrira de prodigalidades, no o defenderia, por medo de ir fazer-lhe companhia na sua desgraa. E as imensas riquezas do superintendente 
retornariam aos cofres do Estado, o que no era seno justia. Le Vau, Le Brun, Francini, Le Ntre, at o risonho Molire e mesmo Vatel, todos os artistas que Fouquet 
havia escolhido e mantido com suas equipes de desenhistas, pintores, operrios, jardineiros, comediantes e ajudantes de cozinheiro, trabalhariam doravante para um 
nico senhor. Seriam conduzidos a Versalies, aquele "pequeno castelo de cartas" perdido entre pntanos e bosques, mas onde Lus XIV havia pela primeira vez estreitado 
nos braos a doce La Vallire. Em homenagem a esse amor ardente, edificar-se-ia ali o mais brilhante testemunho  glria do Rei-Sol.
  Quanto a Fouquet, seria necessrio instaurar longussimo processo. Trancariam o esquilo em uma fortaleza. Ele seria esquecido...
  Anglica no tinha lazer para meditar sobre esses novos acontecimentos. O destino queria que a runa daquele a quem Joffrey de Peyrac tinha sido secretamente sacrificado 
seguisse bem de perto sua vitria. Mas era. muito tarde para Anglica. Ela no mais buscava recordar, compreender... Os grandes passavam, conspiravam, traam, retornavam 
s graas do soberano, desapareciam. Um jovem rei autoritrio e impassvel nivelava as cabeas a golpes de foice. O pequeno cofre de veneno permanecia escondido 
em uma torrinha do Castelo do Plessis-Bellire...
  Anglica no era mais que uma mulher sem nome, apertando seus filhos ao corao e olhando com temor a aproximao do inverno.
  Se a corte era semelhante a um formigueiro destrudo com um sbito pontap, a mendicncia fervia  espera de uma batalha que se anunciava terrvel. E, no momento 
em que a rainha e as floristas do Pont Neuf aguardavam um delfim, os ciganos entravam em Paris...
  Essa batalha da feira de Saint-Germain, que ensanguentou a clebre feira logo no primeiro dia da sua abertura, desconcertou, mais tarde, aqueles que buscavam descobrir 
sua origem.
  Ali se viram lacaios sovarem estudantes, senhores passarem suas espadas atravs do corpo de saltimbancos, mulheres serem violadas no cho, carruagens incendiadas. 
No conjunto ningum sabia onde fora acesa a primeira tocha.
  Mas houve um que no se enganou. Era um rapaz chamado Desgrez, homem instrudo e que tivera uma vida movimentada. Desgrez acabava de obter um lugar de capito 
de polcia no Chatelet. Muito temido de todos, comeava-se a falar dele como um dos mais hbeis policiais da capital. Posteriormente, com efeito, esse jovem ganharia 
renome procedendo  priso da maior envenenadora de seu tempo e talvez de todos os tempos, a Marquesa de Brinvilliers, e, em 1678, levantaria o vu do famoso drama 
dos venenos, cujas revelaes iriam salpicar de lama os degraus do trono.
  Entrementes, naquele fim do ano de 1661, admitia-se que o policial Desgrez e seu co Sorbonne eram os dois habitantes de Paris que melhor conheciam os recantos 
e a fauna da cidade.
  Havia muito tempo que Desgrez seguia a rivalidade existente entre dois poderosos capites de bandidos, Calembre-daine e Rodoguno, o Egpcio, pela posse do territrio 
da feira de Saint-Germain. Ele sabia-os igualmente rivais no amor, disputando entre si os favores de uma mulher de olhos de esmeralda, que se chamava Marquesa dos 
Anjos.
  Pouco antes da abertura da feira, ele farejou movimentos estratgicos no seio da matterie.
  Embora policial subalterno, conseguiu, na manh mesmo da abertura da feira, arrancar de seus superiores a autorizao de levar todas as foras de polcia da capital 
para as proximidades do Faubourg Saint-Germain. No pde evitar o incio da luta, que se expandiu com uma rapidez e violncia extremas, mas a reduziu e circunscreveu 
com a mesma brutal subitaneidade, extinguindo a tempo os incndios, organizando em quadrados de defesa os gentis-homens portadores de espada que ali se encontravam, 
procedendo a prises em massa. Mal comeou a despontar a aurora dessa noite sangrenta, vinte mendigos "de qualidade" foram conduzidos para f0ra da cidade, at o 
sinistro cadafalso comum de Montfaucon, e ali enforcados.
  Indubitavelmente, a celebridade da feira de Saint-Germain justificava, por mais de um ttulo, a spera contenda a que os bandos de larpios de Paris se entregavam 
para ter a exclusividade da "vindima".
  De outubro a dezembro, e de fevereiro  Quaresma, toda Paris passava por ali. O prprio rei no se dedignava de ir at l certas tardes, com sua corte. Que sorte 
para os rapa-bolsas e ladres de casacos, aquele bando de fabulosos pssaros!
  Vendia-se de tudo na feira de Saint-Germain. Os comerciantes das grandes cidades de provncia - Amiens, Ruen, Reims - faziam-se representar ali por amostras de 
seus artigos. Em lojas de luxo disputavam-se os casacos de Marselha, os diamantes de Alenon, os confeitos de Verdun.
  O portugus vendia mbar cinzento'e porcelana fina. O provenal vendia a retalho laranjas e limes. O turco louvava seu blsamo da Prsia, suas guas aromticas 
de Constantinopla. O flamengo apresentava seus quadros e queijos. Era o Pont Neuf ampliado em escala mundial, ao som de campainhas, de flautas, gaitas e tamborins.
  Os exibidores de animais e de fenmenos atraam a multido. Muitos iam ver os ratos que danavam ao som do violino e duas moscas que se batiam em duelo com duas 
palhinhas.
  Entre os espectadores, a plebe andrajosa misturava-se com pessoas ricamente vestidas. Cada um, na feira de Saint-Germain, vinha encontrar, alm de uma exibio 
cintilante e variada, uma liberdade de maneiras que no se via em nenhuma outra parte.
  Tudo ali estava organizado para a felicidade dos sentidos.
  Um deboche desenfreado imperava nas casas de glutoneria, nas belas tabernas ornadas de espelhos e de ouro e nos cassinos em que se jogavam as trincas e o lansquen.
  No havia rapaz ou moa espicaado pelo demnio do amor que l no pudesse encontrar a satisfao de seus desejos, Mas, de longa data, os ciganos constituam a 
grande atrao da feira de Saint-Germain. Eles eram ali os prncipes, com seus acrobatas e seus ledores da buena-dicha.
  Desde o meio do vero viam-se chegar suas caravanas dei magros sendeiros com crinas tranadas, carregados de mulheres e de crianas amontoadas de mistura com os 
utenslios de cozinha, os presuntos e os frangos roubados.
  Os homens, arrogantes e silenciosos, com os longos cabelos negros cobertos por chapus de feltro emplumados, a cuja sombra brilhavam olhos esbraseados, carregavam 
ao ombro interminveis mosquetes.
  Os parisienses olhavam-nos com a mesma curiosidade vida de seus maiores, que, pela primeira vez, em 1427, tinham visto surgir sob os muros de Paris aqueles eternos 
nmades cor de buxo. Apelidaram-nos de egpcios e tambm lhes chamavam bomios ou ciganos. Os mendigos reconheciam a filiao de sua influncia sobre as leis da 
matterie e, na festa dos loucos, o duque do Egito caminhava perto do rei de Thunes, e os altos dignitrios do imprio da Galileia precediam os arquissequazes do 
Grande Cosre.
  Rodoguno, o Egpcio, ele prprio de raa cigana, no podia ter seno uma altssima situao entre os mendigos de Paris. Era de justia que ele quisesse reservar 
para si as vizinhanas daqueles santurios mgicos decorados com sapos, esqueletos e gatos pretos, que as ledoras da buena-dicha, as  feiticeiras morenas, como as 
chamavam, estabeleceram no corao da feira de Saint-Germain.
  No entanto, Calembredaine, como senhor da Porte de Nesle e do Pont Neuf, exigia para si s o melhor bocado. A rivalidade no podia acabar seno com a morte de 
um ou dei outro.
  Durante os ltimos dias que precederam a abertura da feira, numerosas rixas estalaram no quartier.
  Na vspera, as tropas de Calembredaine tiveram de recuar em desordem e refugiar-se nas runas da Tour de Nesle, enquanto Rodoguno, o Egpcio, estabelecia uma espcie 
de cordo protetor em torno do quartier, ao longo dos velhos fossos e do Sena.
  Os homens de Calembredaine reuniram-se na grande sala, em volta da mesa em que Traseiro de Pau vociferava como um demnio:
  -        H meses que eu esperava essa pancadaria. Voc  o culpado, Calembredaine! Sua mendiga o ps louco. Voc no sabe mais bater-se; os outros mendigos se 
acautelam. Sentem que voc perde terreno, e vo dar ajuda a Rodoguno para faz-lo cair. Eu vi Jaqueta Azul uma noite destas...
  Em p diante do fogo, contra o qual sua possante estatura se destacava em negro, Nicolau enxugava o torso ensanguentado por um tiro de bacamarte. Ele rugiu mais 
forte que Traseiro de Pau:
  -        Sei bem que voc  um traidor do bando; que reuniu todos os mendigos, que vai v-los, que se prepara para substituir o Grande CosrerMas tome cuidado! 
Eu irei prevenir Rolin Tarraco.
  -        Porcalho! Voc nada pode contra mim...
Anglica tornava-se louca  ideia de que esses rugidos de feras pudessem acordar Florimond e aterroriz-lo.
  Voou at o quarto redondo. Mas as crianas dormiam serenamente. Cantor parecia um anjinho de pintura holandesa. Florimond havia recuperado as carnes do rosto. 
Com as plpebras cerradas sobre os grandes olhos negros, ele reencontrava no sono uma expresso infantil e feliz.
  Os gritos atrozes no cessavam.
  " preciso que isso acabe!  absolutamente necessrio que isso termine", disse Anglica consigo mesma, fechando o melhor que pde a porta desmantelada.
  Ela ouviu a voz rouca de Traseiro de Pau:
  -        No se iluda, Calembredaine: se voc recuar, pobre de voc! Rodoguno ser impiedoso! No  somente a feira que ele deseja, mas tambm a mulher que lhe 
disputou no Cimetiere des SaintsTnnocents. Ele a deseja terrivelmente! No Pode t-la se voc no desaparecer.
  Nicolau pareceu acalmar-se.
  -        Que quer que eu faa? Toda essa gente, esses malditos egpcios, esto ali, do lado de fora, debaixo do nosso nariz e, depois da surra que acabamos de 
receber, no vale a pena recomear. Seria suicdio.
  Anglica voltou ao quarto, apanhou um manto e cobriu o rosto com a mscara de veludo vermelho que conservava  numa caixa com outras miudezas.
  Depois, assim aparelhada, desceu para o meio das vocife-raes.
  A discusso entre Calembredaine e Traseiro de Pau tornava-se pica. O chefe poderia esmagar sem dificuldade o homem-tronco em seu prato de madeira. Mas tal era 
o ascendente de Traseiro de Pau que este dominava completamente a situao.
  Ao verem Anglica mascarada de vermelho, o tom baixou um pouco.
  - Que significa esse carnaval? - rosnou Nicolau. - Aonde voc vai?
  - Muito simplesmente fazer decampar as tropas de Rodoguno. Dentro de uma hora a praa estar vazia, senhores. Podero retornar a suas reas.
  Calembredaine tomou Traseiro de Pau como testemunha:
- No acha voc que ela se torna cada vez mais louca?
  - Acho, sim, mas afinal de contas, se isso lhe sugere ideias, deixe-a agir. Nunca se podem prever as coisas, com essa maldita Marquesa dos Anjos! Ela fez de voc 
um trapo. E bom,  pelo menos, que repare os danos.
  Anglica dirigiu-se  Porte Saint-Jacques e, l somente, procurou atravessar os fossos. Um dos bomios de Rodoguno ergueu-se diante da moa. Ela algaraviou-lhe 
em alemo uma histria complicada: era uma comerciante da feira de Saint-Germain regressando ao seu negcio. Ele deixou passar sem suspeita aquela mulher mascarada, 
envolta num manto negro. Ela correu, sem parar,  casa de um saltimbanco seu amigo, que era proprietrio de trs ursos enormes. Anglica seduzira esses trs ursos 
e o velho dono, assim como a jovem que recolhia o dinheiro.
  O negcio foi rapidamente concludo, por amor aos belos olhos da visitante.
  Soavam as duas horas na Abadia de Saint-Germain-des-Prs, quando os homens de Rodoguno, que vigiavam como sentinelas ao longo dos velhos fossos, viram, ao nevoento 
luar, crescer para eles uma enorme massa a rosnar. Um dos vigilantes, que tentou perceber quem procurava assim forar sua barragem, recebeu em pleno peito um golpe 
de garras que lhe arrancou o casaco e um bom pedao de carne.
  Os outros, sem aguardar mais amplas explicaes, saltaram para trs das muralhas. Alguns cprreram para o Sena, a fim <je prevenir seus cmplices. Mas esses haviam 
igualmente recebido, em dois lugares, a mesma desagradvel visita. J a maior parte dos bandidos estava dentro d'gua, nadando para a margem do Louvre e de outros 
stios menos perigosos. Bater-se, deixar-se matar em franco duelo com mendigos e narquois era coisa que no amedrontava os valentes. Mas lutar corpo a corpo com 
um urso que, quando se erguia sobre as patas traseiras, tinha suas duas toesas bem contadas, a isso no se animava nenhum dos homens de Rodoguno!
  Anglica reapareceu: tranquilamente na Tour de Nesle e avisou que o bairro estava inteiramente livre das presenas indesejveis. O estado-maior de Calembredaine 
foi fazer um reconhecimento e teve de render-se  evidncia.
  As gargalhadas cavernosas de Traseiro de Pau fizeram tremer as damas do bairro por trs de suas cortinas.
  -        Ah! Ah! Ah! Essa Marquesa dos Anjos! - repetia ele. - Voc fala de um milagre!
  Mas Nicolau no pensou assim.
  -        Voc se conciliou com eles para nos trair - repetia ele, moendo o pulso de Anglica. - Foi vender-se a Rodoguno, o Egpcio!
  Para acalmar seu furor ciumento, ela teve de lhe explicar seu estratagema.
  Dessa vez, a hilaridade do aleijado estrondeou como o trovo. Alguns vizinhos puseram-se s janelas, gritaram que iam descer com suas espadas ou alabardas para 
dar uma lio queles malandrins que impediam as pessoas honestas de dormir.
  O homem-tronco no lhes deu ateno. De pedra em pedra, ele atravessou todo o Faubourg Saint-Germain rindo a bandeiras despregadas. Decorridos anos, ainda se contava, 
nos seres dos mendigos, a histria dos trs ursos da Marquesa dos Anjos!
  O supremo ardil no evitou o drama. Era o capito de polcia Desgrez quem tinha razo quando, na manh do 1o de outubro, foi procurar o Sr. Dreux d'Aubrays, senhor 
d'Offmont e de Villiers, tenente-civl da cidade de Paris, e o persuadiu a colocar nas vizinhanas da feira de Saint-Germain todas as foras de polcia disponveis.
  O dia, no entanto, foi calmo. Os homens de Calembredaine dominaram como senhores entre a multido cada vez mais densa. Ao crepsculo, as carruagens da alta sociedade 
comearam a chegar.
  Entre as centenas de velas acesas em cada loja, a feira tomava o aspecto de um palcio encantado.
  Anglica estava junto de Calembredaine e acompanhava com ele as peripcias de uma luta de animais: dois dogues contra um javali. A turba, fascinada por esses espetculos 
cruis, comprimia-se contra a cerca da minscula arena.
  Anglica estava um pouco tonta, por ter provado seguidamente vinhos moscatis, cidra cida e gua de canela. Gastara prodigamente e sem escrpulos o dinheiro de 
uma bolsa que Nicolau lhe entregara. Havia comprado para Florimond marionetes e bolos. Pela primeira vez, a fim de no ser notado, pois suspeitava que os tiras deviam 
estar  espreita, Nicolau se barbeara muito bem e vestira uma roupa menos furada que aquela com que fazia seu disfarce habitual. Com o largo chapu a ocultar-lhe 
os olhos inquietantes, havia retomado o aspecto de um pobre campons que vem, malgrado sua pobreza, divertir-se na feira.
  Esquecia-se tudo. As luzes se refletiam nos olhos: recordavam-se as belas feiras da infncia nas vilas ou nas aldeias.
  Nicolau havia passado o brao em volta da cintura de Anglica. Ele tinha um modo pessoal de cingi-la. Ela ficava com a impresso absoluta de estar fechada em um 
desses anis de ferro que se pem  cintura dos prisioneiros. Mas aquele rude amplexo no era sempre desagradvel. Assim, nessa noite, retida por aquele brao musculoso, 
ela se sentia diminuta e dcil, frgil e protegida. Com as mos cheias de bombons, de brinquedos e de pequenos frascos de perfumes, ela se apaixonava pelo combate 
de animais, gritava e pulava com o pblico quando a bola negra e feroz do javali, sacudindo seus atacantes, fazia voar na ponta de suas presas um dos dogues estripados.
  Subitamente, defronte deles, do outro lado da arena, ela viu Rodoguno, o Egpcio.
  Ele balanava um longo e fino punhal na ponta dos dedos. A arma lanada silvou por cima da arena. Anglica se jogara para o lado, arrastando seu companheiro. A 
lmina passou a uma polegada do pescoo de Nicolau e foi enterrar-se na garganta de um comerciante de bibels chineses. Fulminado, o homem ergueu os braos num espasmo, 
desdobrando os panos de seu manto variegado. Por um momento, ele semelhou uma imensa borboleta espetada. Depois, revessou uma torrente de sangue e desabou.
  Ento a feira de Saint-Germain explodiu.
  Por volta da meia-ndite, Anglica, com uma dezena de mulheres, duas das quais pertenciam ao bando de Calembredai-ne, foi atirada a um calabouo do Chtelet. Fechada 
de novo a pesada porta, pareceu-lhe ouvir ainda o clamor da turba histrica, os gritos dos mendigos e os bandidos empurrados pelo ancinho implacvel de archeiros 
e-policiais, e que tinham sido trazidos, em vrias levas, da feira de Saint-Germain para a priso comum.
 - Bem o merecemos - disse uma meretriz. -  a minha sorte! Pela primeira vez que fui dar um passeio fora de Gla-tigny, estava escrito que eu me deixaria prender. 
E so capazes de me fazer passar pelo potro por no ter ficado no quarteiro reservado.
-  ruim o potro? - perguntou uma mocinha.
 - Ah! Meu Deus, ainda tenho as veias e os nervos estirados como malvasco. Quando o verdugo me colocou nele, eu gritei: "Doce Jesus! Virgem Maria, tenha piedade 
de mim!"
 - A mim - disse outra -, o verdugo introduziu-me um chifre oco at o fundo da garganta e me entornou para dentro perto de seis bules de gua fria. Ainda se fosse 
vinho! Pensei que ia estourar como uma bexiga de porco. Depois, colocaram-me diante de um bom fogo, na cozinha do Ch-telet, para me reanimar.
  Anglica escutava essas vozes que saam da escurido ptrida e registrava essas palavras sem se impressionar com tais detalhes. A ideia de que ela, sem dvida, 
seria torturada no decorrer da questo preventiva, obrigatria para todos os acusados, no penetrava em seu esprito. Um s pensamento a dominava: e os meninos?... 
Que iria suceder-lhes?... Quem iria ocupar-se deles? Talvez fossem esquec-los na torre! Os ratos os comeriam...
  Embora a atmosfera da enxovia fosse glacial e mida, o suor lhe perlava as tmporas.
  Agachada sobre uma camada de palha podre, ela apoiava-se  parede e, com os braos unidos em volta dos joelhos, esforava-se por no tremer e por encontrar razes 
para tranqilizar-se.
  "Haver certamente alguma mulher que se ocupe deles. Elas so negligentes, incapazes, mas em todo caso pensam em dar po aos seus filhos... Elas o daro aos meus. 
Alm disso, se a Polaca estiver l, saber cuidar deles... E Nicolau velar..."
  Mas Nicolau no teria sido preso tambm? Anglica revivia seu prprio pnico quando, de ruela em ruela, para escapar  rixa sangrenta, vira, por toda parte, levantar-se 
diante dela uma barreira de archeiros e policiais.
  Todas as sadas da feira e do faubourg estavam tomadas, parecendo que a polcia e a guarda de Paris se haviam subitamente multiplicado.
  Anglica procurava recordar se a Polaca tinha podido deixar a feira antes do conflito. Da ltima vez que a vira, a prostituta arrastava um jovem provinciano, ao 
mesmo tempo assustado e feliz, para as margens do Sena. Mas, antes, eles poderiam ter parado em vrias lojas, passeado, bebido em uma taberna...
  Anglica conseguiu convencer-se de que a Polaca no tinha sido presa e esse pensamento acalmou-a um pouco. Do fundo de sua angstia, uma splica se elevava, e 
fragmentos de preces esquecidas lhe vinham aos lbios, maquinalmente:
  "Piedade para eles! Proteja-os, Virgem Maria... Eu juro", repetia ela, "que se meus filhos forem salvos eu me libertarei deste atoleiro degradante... Fugirei desta 
companhia de criminosos e ladres. Tentarei ganhar a vida trabalhando com as minhas mos..."
  Pensou na florista e fez alguns projetos. As horas pareceram-lhe menos longas.
  De manh houve um grande rudo de fechaduras e ranger de chaves, e a porta se abriu. Um archeiro da ronda proje-tou para o interior o claro de uma tocha. A luz 
que vinha da seteira, rasgada nas duas toesas de espessura da muralha, era to fraca que no se distinguia grande coisa na enxovia.
  -        Eis as marquesas, rapazes - gritou o archeiro com ar jovial. - Aproximem-se um pouco. A colheita ser bela.
  Trs outros soldados da ronda entraram por seu turno e fincaram a tocha em uma argola da parede.
  -        Vamos, queridas, vo ser boazinhas, hem?
  E um dos homens tirou de baixo do casaco uma tesoura.
  -        Tire a touca - disse ele  mulher que se achava junto da porta. - Oh! Cabelos cinzentos... Enfim, render-me-o alguns soldos. Conheo um barbeiro nas 
proximidades da Place Saint-Michel que faz perucas com eles, a bom preo, para os velhos escreventes.
  Cortou a cabeleira cinza, atou-a com um barbante e atirou-a num cesto. Seus companheiros examinaram as cabeas das outras prisioneiras.
  - Comigo no tero trabalho - disse uma delas. - Voces me tosquiaram nao faz muito tempo.
  - Sim,  verdade - disse o archeiro, jovial. - Eu a reconheo, mezinha. Pelo que vejo, voc tomou gosto pelo albergue!
  Um soldado aproximara-se de Anglica. Ela sentiu a mo grosseira apalpar-lhe a cabeleira.
  -        Ei, amigos - chamou ele -, eis uma maravilha. Aproximem um pouco a tocha para que eu veja isto de perto.
  A chama resinosa alumiou os belos cabelos castanhos e anelados que o soldado acabara de libertar, retirando a touca de Anglica. Ele soltou um assovio admirativo.
  -        Magnfico! No so louros, evidentemente, mas tm brilho. Vamos poder vender esses cabelos ao Sr. Binet, da Rue Saint-Honor. Ele no se importa com o 
preo, mas com a qualidade: "Levem seus pacotes de piolhos", diz-me todas as vezes que lhe levo crina de prisioneiros. "Eu no fabrico perucas com cabelos que j 
esto bichados!" Mas, desta vez, ele no poder fazer-se desdenhoso.
  Anglica levou as mos  cabea. No iriam cortar-lhe os cabelos. Era uma coisa inconcebvel!
  -        No, no, no faam isso! - suplicou ela. Mas um punho slido afastou-lhe as mos.
  -        Vamos, minha bela, voc no precisava vir ao Chtelet se queria guardar suas crinas. Ns, voc compreende, bem precisamos ter nossos pequenos lucros.
  Com grandes rudos de ao, a tesoura cortou os cachos castanhos com reflexos dourados, que Brbara recentemente havia escovado com tanto carinho.
  Quando os soldados saram, Anglica passou a mo trmula sobre a nuca rapada. Sua cabea parecia-lhe ter ficado menor e mais leve.
  -        No chore - disse uma das mulheres. - Eles crescero de novo. Mas  preciso que no mais se- deixe prender. Por que os homens da ronda so uma raa de 
ceifeiros.  isso, os cabelos vendem-se caro em Paris, com todos os gamenhos que querem usar peruca.
  Sem responder, a jovem recolocou a touca. Suas companheiras criam que ela chorava, porque era sacudida por grandes tremores nervosos. Mas o incidente j ia sendo 
esquecido. Afinal de contas, no tinha importncia. Uma s coisa lhe interessava: a sorte de seus filhos.
  
  CAPTULO, XII
  
  Anglica  condenada ao aoite
  
  As horas passavam com uma lentido acabrunhante. O calabouo em que haviam amontoado as prisioneiras era to pequeno que ali se respirava mal. Uma das mulheres 
disse:
  -  bom sinal terem-nos posto nesta pequena cela.  esta que designam pelo nome de "Entre-duas-portas". Nela colocam as pessoas que no se sabe ao certo se devem 
ser consideradas em estado de priso. Afinal de contas, quando fomos presas, nada fazamos de mau. Estvamos na feira, como todo mundo. A prova de que todo mundo 
estava l  que no nos revistaram, pois as prprias matronas juramentadas do Chtelet tinham ido divertir-se na feira de Saint-Germain.
  - A polcia tambm l estava - fez notar uma das meretrizes, com amargura.
  Anglica apalpou, sob suas vestes, o punhal. Era um punhal semelhante ao que Rodoguno, o Egpcio, havia lanado ao rosto de Nicolau.
  -        Uma sorte que no nos tenham revistado - repetiu a mulher, que tambm devia ocultar uma arma ou talvez uma pobre bolsa com alguns escudos.
  -        Isso vir, no se preocupe - retorquiu sua companheira.
A maior parte das mulheres no se mostrou muito otimista. Contavam histrias de prisioneiras que tinham ficado encarceradas dez anos, antes que se lembrassem delas. 
E as que conheciam o Chtelet descreviam as prises contidas na sinistra fortaleza. Havia o calabouo "Fim-do-conforto", cheio de imundcies e de rpteis, onde o 
ar era to infecto que no se podia ter uma vela acesa; o "Aougue", assim denominado porque ali se respiravam as exalaes nauseabundas do grande talho vizinho; 
as "Correntes", grande sala em que os prisioneiros eram acorrentados uns aos outros; a "Barbaria"; a "Gruta"; e outros ainda: o "Poo", a "Fossa", que tinha a forma 
de um cone invertido. Os presos ali permaneciam com os ps dentro d'gua e no podiam ficar aprumados nem deitados. Ordinariamente, morriam ao fim de quinze dias 
de deteno. Afinal, abaixavam a voz para falar da "Ou-bliette", masmorra subterrnea donde ningum voltava.
  Uma claridade cinza entrava pela seteira gradeada. Era impossvel adivinhar-se a hora. Uma velha tirou os sapatos acalcanhados, arrancou os pregos da sola e enfiou-os 
ao contrrio, com as pontas para fora. Mostrou a suas companheiras essa arma estranha e recomendou-lhes que fizessem o mesmo, para poderem matar os ratos que viriam 
durante a noite.
  L para o meio-dia, a porta abriu-se com rudo, e alabardeiros fizeram sair as prisioneiras. De corredor em corredor, eles as conduziram a uma grande sala forrada 
de tapetes azuis com flores-de-lis amarelas.
  Ao fundo, sobre um estrado em semicrculo, havia uma espcie de ctedra de madeira esculpida, por baixo de um quadro que representava o Cristo crucificado, e de 
um pequeno dossel de tapearia.
  Um homem de beca, usando volta agaloada de branco e peruca branca, estava sentado nela. Outro, tendo um mao de pergaminhos, achava-se ao seu lado. Eram o preboste 
de Paris e seu lugar-tenente.
  Meirinhos e soldados da Guarda Real cercaram as mulheres. Foram empurradas para perto do estrado e tiveram de passar diante de uma mesa onde um escrivo anotava 
seus nomes.
  Anglica hesitou quando lhe perguntaram o seu. Ela no tinha mais nome!... Finalmente, disse chamar-se Ana Sauvert, o nome de uma aldeia dos arredores de Monteloup, 
que lhe veio subitamente  memria.
  O julgamento foi rpido. O Chtelet, nesse dia, transbordava. Era preciso joeirar depressa.
  Depois de dirigir algumas perguntas a cada uma das detidas, o lugar-tenente do preboste leu a lista que lhe haviam entregue e declarou que "todas as supraditas 
pessoas eram condenadas a ser publicamente aoitadas, depois seriam conduzidas ao Hospital Geral, onde pessoas piedosas lhes ensinariam a coser, bem como a rezar 
a Deus".
  -        Ser fcil a fuga - cochichou uma das meretrizes a Anglica. - O Hospital Geral no i priso.  o asilo dos pobres. Metem-nos l, por bem ou por mal, 
mas no ficamos guardadas. No nos ser difcil escapar.
  Em seguida, um grupo de umas vinte mulheres foi conduzido a uma vasta sala do rs-do-cho e fizeram-nas enfileirar-se ao longo da parede. Abriu-se a porta e um 
militar alto e corpulento entrou. Usava belssima peruca escura que emoldurava um rosto corado, dividido em dois por um bigode negro. Com sua tnica azul esticada 
sobre as espduas rolias de gordura, seu largo boldri sobre a pana avantajada, os vastos punhos das mangas cobertos de passamanes, sua espada e sua enorme volta 
com borlas douradas, tinha um pouco o aspecto do Grande Mateus, mas sem apresentar a bonomia nem a jovialidade do charlato. Seus olhos enterrados sob superclios 
espessos eram pequenos e duros.
  Estava calado com botas de taces altos, que aumentavam ainda mais sua possante estatura.
  -         o oficial da ronda - cochichou a vizinha de Anglica. - Oh! Ele  terrvel. Chamam-lhe Ogro.
  O Ogro passava diante das prisioneiras fazendo retinir suas esporas sobre as lajes.
  -        Ah! Ah!, minhas pequenas, levaro uma boa escovade-la! Vamos, baixai as camisas. E ateno: para aquelas que gritarem muito alto haver uma chibatada 
a mais!
  Mulheres que j tinham conhecido o suplcio do ltego tiraram docilmente os corpetes. As que usavam camisa fizeram-na escorregar ao longo dos braos e cair sobre 
as saias. Os soldados caminhavam para aquelas que mostravam hesitao e despiam-nas brutalmente. Um deles, tentando arrancar o corpete de Anglica, rasgou-o parcialmente. 
Ela prpria se apressou em pr o busto nu, com medo de que notassem o cinto em que estava o seu punhal.
  O oficial da ronda ia e vinha, examinando as mulheres. Parava diante das mais jovens e um fogo se acendia em seus pequenos olhos porcinos. Enfim, com gesto imperativo, 
ele apontou Anglica.
  Cacarejando um riso cmplice, um dos soldados f-la sair da fileira.
  - Vamos, levem toda essa canalha - ordenou o oficial. - E que a pele lhes arda! Quantas so?
  - Uma vintena, senhor.
  - So quatro horas da tarde. Devem terminar antes do pr-do-sol.
  - Est bem, senhor.
  Os soldados fizeram sair as mulheres. Anglica percebeu no ptio uma carroa cheia de varas que devia seguir o lastimvel cortejo at o lugar reservado para os 
castigos pblicos, perto da Igreja de Saint-Denis-de-la-Chtre. A porta fechou-se outra vez. Anglica permaneceu sozinha com o oficial da ronda. Dirigiu-lhe um olhar 
surpreso e inquieto. Por que no seguia a sorte de suas companheiras? Iriam devolv-la  priso?
  Aquela sala, baixa e abobadada com as paredes midas, estava glacial. Embora ainda fosse dia l fora, a escurido j a invadia, e foi preciso acender uma vela. 
Anglica, trmula, cruzava os braos e apertava os ombros com as mos, menos talvez para se proteger do frio do que para furtar seu peito ao olhar impudente do Ogro.
  Este aproximou-se pesadamente e tossiu fraco.
  -        Ento, minha pequena, voc tem mesmo vontade de fazer esfolar suas bonitas costas brancas?
  Como ela no respondesse, ele insistiu:
  -        Responda! Tem mesmo vontade?
Evidentemente, Anglica no podia dizer que tinha vontade. Sacudiu negativamente a cabea.
  -        Pois bem, podemos arranjar isso - tornou o militar num tom adocicado. - Seria uma pena estragar uma to be
la franguinha. Talvez possamos entender-nos, ns dois.
  Ele passou-lhe um dedo sob o queixo, para obrig-la a erguer a cabea, e assoviou de admirao.
  -        Com os diabos! Belos olhos! Sua me deve ter bebido absinto enquanto a esperava! Vamos, d-me um risinho.
  Dissimuladamente, seus grossos dedos afagaram o pescoo delicado, acariciaram o ombro redondo.
  Ela recuou, sem poder dominar um estremecimento de averso. O Ogro deu uma risada que lhe sacudiu o ventre. Ela olhou-o fixamente, com seus olhos verdes. Enfim, 
embora ele a dominasse com toda a sua, corpulncia, foi quem primeiro pareceu embaraado.
  -        Estamos de acordo, no ? - tornou ele. - Voc vir comigo ao meu apartamento. E depois se juntar s companheiras. Mas os soldados deix-la-o em paz. 
Voc no ser aoitada... Est satisfeita, meu bem?
  Ele deu uma gargalhada alegre. Depois, com passo decidido, puxou-a para si e comeou a dar-lhe no rosto grandes beijos sonoros e vidos.
  O contato daquele focinho mido, com hlito de tabaco e de vinho tinto, repugnou Anglica. Ela se debatia como uma enguia para fugir aquele abrao. O boldri e 
os passa-manes do uniforme do capito arranhavam-lhe o peito.
  Conseguiu, afinal, livrar-se e apressou-se a vestir, to bem quanto pde, a camisa em farrapos.
  - Ei! Que  isso? - disse o gigante, espantado. - Que foi que lhe deu? No compreendeu que-quero poup-la ao castigo?
  - Agradeo-lhe - disse Anglica em tom firme. - Mas prefiro ser aoitada.
  O Ogro escancelou a boca, seus bigodes tremeram e ele se tornou carmesim como se os cordes de sua volta o houvessem subitamente estrangulado.
  - Que ... Que  que voc diz?...
  - Prefiro ser aoitada - repetiu Anglica. - O senhor preboste de Paris condenou-me ao aoite. No devo fugir a justia.
  E caminhou resolutamente para a porta. De um s passo, ele a alcanou e agarrou-a pela nuca.
  "Oh, meu Deus", pensou Anglica. "Nunca mais agarrarei um frango pelo pescoo. D uma impresso horrvel!"
  O capito examinou-a com ateno.
  -        Voc  uma beleza de mendiga - disse ele, ofegando um pouco. - Pelo que acaba de dizer, eu poderia dar-lhe pranchadas de sabre e deix-la por morta sobre 
o lajedo. Mas no quero estrag-la. Voc  bela, bem-feita. Quanto mais a olho, mais a desejo. Seria uma pena no nos entendermos. Eu posso ser-lhe til. Escute, 
no faa cara feia. Seja gentil para comigo e, quando se juntar s outras... Bem!... Talvez o guarda que a conduz olhe para outro lado...
  Em um relmpago, Anglica entreviu a evaso. Os mimosos rostos de Florimond e Cantor danaram diante de seus olhos.
  Viu a face brutal e vermelha inclinar-se para ela. Contra a vontade, seu corpo se revoltou. Era impossvel. Nunca ela poderia! Alm disso, fugia-se do Hospital 
Geral... e mesmo durante o trajeto para l ela poderia tentar...
  -        Prefiro o Hospital Geral! - gritou ela, fora de si. - Prefiro...
  O resto perdeu-se em um turbilho de tempestade. Sacudida a ponto de perder o flego, ouvia chover sobre si um rosrio de injrias tonitruantes. O abismo claro 
de uma porta abriu-se, e ela foi projetada por ali como uma bala.
  -        Que me sovem essa puta at arrancar-lhe a pele! 
  E a porta bateu como um trovo.
  Anglica foi cair num grupo de homens da guarda civil, que vinham fazer a ronda da noite. Estes eram, pela maior parte, artesos e comerciantes pacficos, que 
no deixavam de cacetear-se com essa obrigao imposta alternadamente s corporaes, para a segurana da cidade. Constituam a ronda "sentada" e "dormente", o que 
era todo um programa. Apenas comeavam a tirar seus baralhos e cachimbos, quando receberam nas pernas aquela moa seminua. A ordem do capito fora rugida em tal 
diapaso que ningum a compreendera.
  - Mais uma que o nosso valoroso capito maltrata - disse um deles. - No se pode dizer que o amor o enternece.
  - No entanto, faz sucesso. Suas noites nunca no solitrias.
  - Ora essa! Ele tira prisioneiras do lote e lhes d a escolher entre a priso e o seu leito.
  - Se o preboste de Paris soubesse disso, ele poderia arrepender-se.
  Anglica erguera-se, contundida. Os homens da ronda olharam-na calmamente. Enchiam seus cachimbos e emba-ralhavam as cartas.
  Hesitante, a jovem caminhou at a parta do corpo da guarda. Ningum a deteve.
  Achou-se na passagem abobadada da Rue Saint-Leufroy, que comunicava, pela fortaleza do Chtelet, a Rue Saint-Denis com o Pont au Change.
  Pessoas iam e vinham. Anglica compreendeu que estava livre. Ps-se a correr espavorida.
  
  CAPTULO XIII
  
  Anglica arranca seu filho Cantor aos ciganos
  
  -Psiu! Marquesa dos Anjos!... Cuidado, no prossiga!
A voz da Polaca fez parar Anglica, quando esta se aproximava da Tour de Nesle.
  Ela se voltou e viu a mulher, que, dissimulada na sombra de um prtico, lhe fazia sinais. Juntou-se a ela.
  - Oh! Minha pobre menina - suspirou a outra -, estamos em apuros! Felizmente Belo Rapaz acaba de chegar. Ele se fez tonsurar por um "irmo", e depois disse aos 
guardas que era um frade. Ento, enquanto o transferiam do Chte-let para a priso do arcebispado, ele se arrancou.
  - Por que voc me impede de ir  Tour de Nesle?
  - Ento voc no sabe? Rodoguno, o Egpcio, e todo o seu bando esto l.
  Anglica ficou lvida. A Polaca explicou:
  - S vendo como eles nos fizeram decampar! Nem tivemos tempo de apanhar nossas roupas! Olhe, ainda assim pude salvar seu cofre e seu macaco. Esto na Rue du Vald'Amour, 
em uma casa onde Belo Rapaz tem amigos e onde vai alojar suas mulheres.
  - E meus filhos? - interrogou Anglica.
  - Quanto a Calembredaine, ningum sabe o que lhe aconteceu - continuou a Polaca, falando apressadamente. - Prisioneiro? Enforcado?... H quem diga que o viu lanar-se 
no Sena. Talvez tenha alcanado o campo...
  -        Que v para o diabo Calembredaine - disse Anglica, com os dentes cerrados.
  Ela havia segurado a outra pelos ombros e enterrava-lhe as unhas na carne.
  -        Onde esto meus filhos?
  A Polaca olhou-a com seus olhos negros, um tanto perturbada, e depois abaixou as plpebras.
  - Eu no queria, asseguro-lh&... mas os outros eram mais fortes...
  - Onde esto eles? - repetiu-lhe Anglica com voz sem timbre.
  - Joo Podre apanhou-os... com todas as crianas que pde encontrar.
  - Levou-os para l... para o Faubourg Saint-Denis?
  - Levou. Isto , levou Florimond. Cantor, no. Disse que no podia alug-lo a mendigos, por ser muito gordo.
  - Que foi que fez dele?
  - Ele... ele o vendeu... Vendeu por trinta soldos... a ciganos que precisavam de um menino para aprender acrobacia.
  - Onde esto os ciganos?
  - Como posso saber? - protestou a Polaca, desprendendo-se com irritao. - Tire de mim as suas garras, pois est-me ferindo... Que quer que eu lhe diga?... Eram 
ciganos... Eles foram embora. A batalha da noite os assustou. Deixaram a cidade.
  - Em que dreo partiram?
  - Faz apenas duas horas que os vi dirigindo-se para Porte Saint-Antoine. Vim rondar por aqui, na esperana de encontr-la. Voc  me, e as mes atravessam muralhas...
  Anglica estava dilacerada de dor. Sentia-se enlouquecer.
  Florimond entre as mos do ignbil Joo Podre, chorando, chamando sua me!... Cantor levado para sempre, rumo ao desconhecido!
  - E preciso ir buscar Cantor - disse ela. - Talvez os ciganos ainda no estejam longe de Paris.
  - Voc perdeu o juzo, minha pobre Marquesa?
  Mas Anglica j se tinha posto em marcha. A Polaca, resignada, acompanhou-a.
  -        Eu tambm vou. Tenho algum dinheiro. Talvez eles no-lo queiram revender...
  Havia chovido durante o dia. O ar estava mido e cheirava a outono. As lajes luziam.
  As duas mulheres seguiram o Sena pela margem direita e saram de Paris pelo Quai de 1'Arsenal. No horizonte, sobre a campina, o cu baixo abria-se largamente num 
vermelho profundo. Um vento frio soprava quela hora. Pessoas dos arrabaldes disseram s duas mulheres que tinham visto os ciganos na vizinhana do Pont de Charenton.
  Elas caminhavam depressa. De quando em quando, a Polaca erguia os ombros e soltava uma imprecao, mas no protestava. Acompanhava Anglica com o fatalismo de 
um ser que muito havia caminhado e seguido outros, sem compreender, em todos os tempos, por todos os caminhos.
  Quando se aproximavam do Pont de Charenton, notaram fogos acesos em um prado, abaixo da estrada.
   Polaca parou.
  -        So eles - disse.em voz baixa. - Estamos com sorte.
  Dirigiram-se para o acampamento. Um bosquete de grandes cavalos havia, sem dvida, convidado a tribo a interromper a marcha naquele lugar. Telas estendidas de 
um ramo a outro constituam o nico abrigo dos bomios para aquela noite chuvosa. Mulheres e crianas estavam sentadas em volta dos fogos. Assavam um carneiro num 
espeto grosseiro. Separadamente, alguns magros cavalos pastavam.
  Anglica e sua companheira aproximaram-se.
  -        Tome cuidado para no irrit-los - cochichou a Polaca. - Voc no imagina como so maus! Eles nos espetariam to calmamente como ao seu carneiro, e ningum 
falaria mais nisso. Basta que me deixe conversar. Conheo um pouco a lngua deles...
  Um dos zngaros, de alta estatura e coberto por um barrete de pele, deixou a claridade do fogo e encaminhou-se para as duas mulheres. Elas deram as senhas da mendicncia; 
o homem respondeu com altivez. Depois disso, a Polaca procurou explicar o fim da visita. Anglica no entendia as palavras que eram trocadas. Buscava descobrir no 
rosto do cigano o que ele pensava, mas a escurido agora era quase completa e ela no podia distinguir-lhe os traos.
  Finalmente, a Polaca tirou sua bolsa. O homem a sopesou, devolveu-a e afastou-se em direo dos fogos.
  -        Ele disse que vai falar com os demais da tribo.
  Elas esperaram, geladas pelo vento que provinha da plancie. Depois, o homem voltou cprn o mesmo passo tranquilo e flexvel.
  Pronunciou algumas palavras.
  - Que disse ele? - reclamou Anglica, anelante.
  - Ele disse... que eles no querem entregar o menino. Acham-no belo e gracioso e j lhe tm afeio. Dizem que tudo est bem assim.
  - Mas isso no  possvel!... Quero meu filho - gritou Anglica.
  E fez um movimento para se precipitar em direo do acampamento. A Polaca reteve-a com mo firme. O cigano havia puxado da espada e outros se aproximavam. A prostituta 
arrastou sua companheira para a estrada.
  - Voc est maluca!... Quer a morte?
  - No  possvel - repetia Anglica. - E preciso fazer alguma coisa. Eles no podem levar Cantor para longe... longe...
  - No se aflija,  a vida! Cedo ou tarde, os filhos se vo... Um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, tudo d na mesma. Eu tambm tive filhos! Nem ao menos sei 
onde eles esto. Isso no me impede de viver!
  Anglica sacudiu a cabea para no ouvir aquela voz. A chuva comeara a cair, fina e abundante. Era preciso fazer alguma coisa.
  -        Tenho uma ideia - declarou ela. - Regressemos a Paris. Quero voltar ao Chtelet.
  -        Otimo! Voltemos a Paris - aprovou Polaca.
Puseram-se de novo a caminhar, escorregando nas poas de lama. Os ps de Anglica, em seus sapatos rotos, estavam sangrando. O vento colava em suas pernas a saia 
encharcada. Ela sentia-se desfalecer. Nada havia comido nas ltimas vinte e quatro horas.
  - No posso mais - murmurou ela, parando para tomar flego. - E, no entanto,  preciso agir depressa... depressa...
  - Espere, percebo lanternas atrs de ns. So cavaleiros que se dirigem a Paris. Vamos pedir-lhes que nos levem  garupa.
  Ousadamente, a Polaca plantou-se no meio da estrada. Quando o grupo estava bem perto, ela gritou com sua voz rouca, mas que sabia tomar inflexes doces.
  -        Ol, galantes senhores! No teriam nenhuma piedade de duas belas jovens que esto em dificuldades? Saberemos agradecer-lhes.
  Os cavaleiros retiveram seus animais. Deles no se distinguiam seno os capotes com a gola erguida e os chapus ensopados. Eles trocaram entre si palavras em uma 
lngua estrangeira. Depois, uma mo estendeu-se para Anglica, e uma jovem voz francesa disse:
  -        Monte, minha bela.
  O punho era enrgico. A jovem achou-se comodamente sentada de lado, atrs do cavaleiro. Os cavalos retomaram a marcha.
  A Polaca ria. Vendo que era estrangeiro aquele que a tomara  garupa, ps-se a trocar com ele gracejos no spero alemo que aprendera nos campos de batalha.
  O companheiro de Anglica disse, sem se voltar:
  -        Agarre-se bem a mim, minha filha. A cavalgadura tem o trote duro e a minha sela  estreita. Voc corre o risco de cair.
  Ela obedeceu e passou os braos em volta do busto do rapaz, juntando as duas mos geladas contra o peito tpido. Aquele calor fez-lhe bem. Reclinou a cabea nas 
slidas costas do desconhecido e gozou um instante de repouso. Agora que ela sabia o que devia fazer, achava-se mais calma. Acerca dos cavaleiros, deduziu tratar-se 
de um grupo de protestantes que voltavam do Temple de Charenton.
  Pouco depois, entraram em Paris. O companheiro de Anglica pagou por ela a peagem da Porte Saint-Antoine.
  -        Onde devo deixar-lhe, minha bela? - perguntou ele, voltando-se desta vez para procurar ver-lhe o rosto.
  Anglica sacudiu o torpor que se apoderara dela havia alguns instantes.
  - No quero abusar do seu tempo, senhor, mas me deixaria muito agradecida levando-me at o Grande Chtelet.
  - Farei isso com prazer.
  - Anglica - gritou a Polaca - y voc vai fazer uma besteira. Cuidado!
  - Deixe-me... E passe-me sua bolsa. Ainda poderei precisar dela.
  - Est bem. Afinal de contas... - murmurou a Polaca, encolhendo os ombros.
  Ela havia saltado a terra e prodigalizava seus agradecimentos em lngua tedesca ao seu cavaleiro, o qual, alis, no era alemo, mas holands, e parecia ao mesmo 
tempo contente e embaraado com aquela cordialidade.
  O cavaleiro de Anglica tirou o chapu para se despedir dos outros, depois lanou seu cavalo atravs da rua larga e quase vazia do Faubourg Saint-Antoine. Alguns 
minutos mais tarde, parava diante da priso do Chtelet, que Anglica deixara algumas horas antes.
  Ela apeou-se. Grandes tochas fixadas sob o arco principal da fortaleza alumiavam a praa. A luz vermelha, Anglica viu melhor seu cativante companheiro. Era um 
rapaz de vinte e cinco anos, vestido confortvel mas simplesmente,  moda burguesa.
  Ela lhe disse:
  - Peo desculpas por t-lo separado de seus amigos.
  - No tem importncia. Aqueles moos no so meus amigos. So estrangeiros. Eu sou francs e moro em La Rochel-le. Meu pai, que  armador, enviou-me a Paris para 
inteirar-me do comercio da capital. Eu viajava com esses estrangeiros porque os encontrei no Temple de Charenton, onde assistimos ao enterro de um de nossos correligionrios. 
Voc bem v que no contrariou meus projetos.
  -        Agradecida por me dizer isso to amavelmente, senhor.
Ela estendeu-lhe a mo. Ele a pegou; e ela viu inclinar-se para si um rosto jovem, bom e grave, que lhe sorria.
  -        Estou contente por t-la servido, minha amiga.
  Ela o viu afastar-se por entre a agitao e os balces sanguinolentos da Rue de la Grande-Boucherie. Ele no se voltou, mas esse encontro tinha reanimado a jovem.
  Um pouco mais tarde, Anglica penetrou resolutamente na passagem abobadada e apresentou-se  porta do corpo da guarda. Um soldado a deteve.
  -        Quero falar ao capito da ronda.
  O homem teve um piscar de olho compreensivo.
  -        O Ogro? Pois bem, v l, pequena, j que  do seu agrado.
  A sala estava azulada pelo fumo dos cachimbos. Ali penetrando, Anglica teve o gesto maquinal de alisar sua saia mi-da. Percebeu que uma vez mais o vento lhe 
arrancara a touca, e sentiu vergonha ao pensar em sua cabea despojada. Tirou seu leno do pescoo, cobriu-se com ele e atou as duas pontas sob o queixo.
  Dirigiu-se depois para o fundo da pea. Diante do fogo da lareira, destacava-se em negro a imponente silhueta do capito. Ele perorava ruidosamente, tendo numa 
das mos seu cachimbo de longo tubo e na outra um copo de vinho. Seus interlocutores o escutavam bocejando e balanando-se em suas cadeiras. Estavam habituados quelas 
fanfarronadas.
  -        Olhem! Uma garota vem-nos visitar - observou um dos soldados, feliz com a diverso.
  O capito teve um sobressalto e fez-se violeta ao reconhecer Anglica. Ela no lhe deu tempo de sair do pasmo e exclamou:
  -        Senhor capito, escute-me. E vocs, senhores militares, venham em meu socorro! Ciganos raptaram meu filho e levam-no para fora de Paris. Esto acampados 
neste momento junto ao Pont de Charenton. Eu lhes suplico, venham co
migo para obrig-los a entregar meu filho. Eles tero de obedecer s ordens da ronda...
  Houve um silncio de estupor. De repente, um dos homens soltou uma gargalhada.
  -        Oh! Essa  boa!  a mais forte que j ouvi! Oh! Oh! Oh! Uma rapariga que vem deslocar a ronda para... Oh! E muito engraado! Mas por quem se toma, marquesa?
  -        Ela sonhou! Acreditou que era a rainha da Frana! 
O riso ganhou a sala inteira. Para qualquer lado que se voltasse, Anglica no via seno bocas abertas e espduas sacudidas por um riso inextinguvel. Somente o 
capito no ria, e sua face carmesim assumia uma expresso terrvel.
  "Ele vai atirar-me  priso, estou perdida!", pensou Anglica.
  Tomada de pnico, ela olhava em torno de si.
  -         um menino de oito meses - gritou. -  belo como um anjo. Parece-se com os seus, bebes que neste momento esto dormindo em seu bero, perto de sua me... 
E os "egpcios vo lev-lo para longe... longe... Ele nunca mais ver sua me... No conhecer sua ptria, nem seu rei... Ele..."
  Os soluos a sufocaram. Os risos extinguiram-se nas faces hlares dos soldados e dos homens da ronda. Houve algumas zombarias, depois trocaram-se olhares constrangidos.
  -        Enquanto esta mendiga quer tanto ao filho - disse um velho costurado de cicatrizes -, h muitas que abandonam os seus nas esquinas das ruas.
  -        Silncio! - trovejou o capito.
E postou-se diante da jovem.
  -        Ento - disse ele com uma calma sinistra -, voc no somente  uma puta sem camisa, condenada ao aoite, mas ainda se permite assumir grandes ares e acha 
muito natural vir perturbar uma patrulha! E que  que d em troca,
marquesa?
  Ela o olhou ardentemente:
  -        A mim.
  Os olhos do colosso retraram-se, e ele teve novo sobressalto.
  -        Venha para c - decidiu ele bruscamente.
  E colocou-a num compartimento vizinho, que servia de escritrio.
  - Que quis dizer, exatamente? - rosnou. Anglica engoliu a saliva, mas no se esquivou.
  - Eu quis dizer que farei o que o senhor quiser. Subitamente, foi tomada de um medo insensato. Receava
  que ele no a quisesse mais, considerando-a muito insignificante. As vidas de Cantor e Florimond dependiam do desejo daquele bruto. Mas ele dizia a si mesmo que 
nunca vira uma prostituta como aquela. Um corpo de deusa! Aquilo se adivinhava sob os andrajos. Qualquer coisa muito diferente das gordas meretrizes do seu trivial. 
Mas o rosto, sobretudo! Ele nunca olhara uma prostituta no rosto. Nada interessante. Fora preciso que ele vivesse at agora para descobrir o que significava o rosto 
de uma mulher!
  O Ogro tornou-se meditativo, e Anglica tremia. Finalmente, ele estendeu as mos, tomou-a sob as axilas, a fim de pux-la rudemente para si.
  -        O que eu quero - disse ele com ar feroz -, o que eu quero...
  Estava hesitante. Ela no suspeitou que havia timidez naquela hesitao.
  -        Quero uma noite inteira - concluiu ele. - Compreendeu? No uma curta passagem entre duas portas, como lhe propus h pouco... Quero toda uma noite.
  Largou-a e retomou seu cachimbo com gesto vingador.
  -        Isso a ensinar a no se fazer pretensiosa! Ento? Entendidos?
  Incapaz de falar, ela fez com a cabea um sinal afirmativo.
  - Soldado! - chamou o capito. Um oficial aproximou-se.
 - Os cavalos e cinco homens!... E mos  obra!
  A pequena tropa deteve-se ao ver o acampamento dos ciganos. O capito deu as suas ordens.
  -        Dois homens ficaro mais adiante, atrs do pequeno bosque, para o caso de eles terem a ideia de safar-se pelo campo.
Voc, rapariga, ficar aqui.
  Com o instinto de animais habituados a farejar a noite, os bomios j olhavam para a estrada e se agrupavam.
  O capito e os soldados avanaram, enquanto os dois homens designados operavam um movimento de cerco.
  Anglica ficou na sombra. Ouviu o capito da ronda, que, por meio de imprecaes, explicava ao chefe da tribo que toda a sua gente, homens, mulheres e crianas, 
devia enfileirar-se diante dele. Ia recense-los. Era uma formalidade compulsria, por causa do que se passara na vspera na feira de Saint-Germain. Depois seriam 
deixados em paz.
  Tranquilizados, os nmades decidiram-se a obedecer. As importunaes das polcias do mundo inteiro eram-lhes familiares.
  -        Venha c, jovem! - bramiu o capito.
Anglica atendeu.
  -        O filho desta mulher est entre vocs - tornou o oficial. - Entreguem-no, ou ns os espetaremos a todos.
  Nesse momento, Anglica deu com os olhos em Cantor. Ele dormia sobre o seio moreno de uma cigana. Com um rugido de leoa, ela saltou para a mulher e arrancou-lhe 
o bebe, que se ps a chorar. A cigana gritou, mas, com voz rude, o chefe da tribo ordenou-lhe que se calasse. A presena dos archeiros a cavalo, cujas alabardas, 
em posio horizontal, brilhavam  luz das chamas, fizera-lhe compreender que toda resistncia seria intil.
  No entanto, ele afetou grande arrogncia e fez notar que o menino tinha sido comprado por trinta soldos. Anglica atirou-lhe essa quantia.
  Seus braos fecharam-se com amor sobre o pequeno corpo redondo e liso. Cantor no gostou nada dessa retomada de posse um tanto brutal. Evidentemente, com a faculdade 
de adaptao de que tinha dado mostra desde o nascimento, ele se tinha achado muito bem no regao da cigana.
  O trote do cavalo, sobre o qual Anglica estava empoleirada atrs de um archeiro, embalou o menino e ele reador-meceu com o polegar na boca. No parecia sentir 
frio, embora estivesse completamente nu,  maneira dos meninos bomios.
  Ela o ps contra o peito, sob o corpete, e o retinha com um brao, agarrando-se com o outro ao cinturo do archeiro.
  Em Paris, as pessoas pacatas comeavam a fechar suas janelas e a soprar suas velas. Os nobres e os burgueses se dirigiam s tabernas ou ao teatro. As ceias ntimas 
prolongavam-se por alguns copos de roslio e alguns beijos galantes.
  O relgio do Chtelet deu dez horas.
  Anglica saltou  terra e correu para o capito.
  -        Deixe-me pr meu filho em lugar seguro - suplicou. - Juro-lhe que voltarei amanh  noite.
  Ele assumiu um ar terrvel.
  - Ah! No me engane. Voc ficaria sem o couro.
  - Juro-lhe que voltarei!
  E, no sabendo como convenc-lo de sua lealdade, cruzou dois dedos e cuspiu no cho,  maneira dos mendigos quando queriam fazer um juramento.
  -        Bem, vai - disse o capito. - No me recordo de ter visto algum trair esse juramento. Esper-la-ei... Mas no me faa ficar impaciente. Enquanto espero, 
vem dar-me um beijinho por conta.
  Ela, porm, saltou para trs e safou-se. Como ousava ele toc-la, quando ela estava com seu precioso filhinho nos braos? Decididamente, esses homens no respeitavam 
nada.
  A Rue de la Valle-de-Misre ficava exatamente atrs do Chtelet. Anglica no precisava dar seno alguns passos. Sem afrouxar a marcha, chegou ao Galo Atrevido, 
atravessou a sala e entrou na cozinha.
  Brbara estava l, ainda ocupada em depenar melancolicamente um velho galo. Anglica atirou-lhe o menino no avental.
  -        Eis Cantor! - disse, ofegante. - Olhe por ele e proteja-o. Acontea o que acontecer, prometa-me que no o abandonar.
  A mansa Brbara estreitou, em um s movimento, o bebe e a ave.
  - Prometo-lhe, senhora.
  - Se seu patro Bourjus se encolerizar...
  - Eu o deixarei gritar, senhora. Dir-lhe-ei que o filho  meu e que foi um mosqueteiro quem o fez.
  - Est bem. Agora, Brbara...
  - Senhora?
  - Apanhe o seu tero.
  - Sim, senhora.
  - E comece a rezar por mim  Virgem Maria...
  - Sim, senhora.
  - Brbara, voc tem aguardente?
  - Tenho, senhora; est sobre a mesa, ali...
  Anglica pegou a garrafa e, pelo gargalo estreito, bebeu uma grande talagada. Acreditou que ia desabar sobre o lajedo e teve de apoiar-se  mesa. Mas, ao cabo 
de um instante, recomeou a ver claro e sentiu-se invadida de um calor benfico. Brbara olhou-a, com os olhos arregalados.
  - Senhora... Onde esto seus cabelos?
  - Como quer que eu saiba onde esto meus cabelos? - disse Anglica com irritao. - Tenho mais que fazer.
  Com passo firme, dirigiu-se para.a porta.
  - Senhora, aonde vai?
- Vou buscar Florimond.    
  CAPITULO XIV
  
  Noite dramtica no covil do Grande Cosre
  
  No ngulo de uma casa de barro estava situada a esttua do deus dos faladores de gria: um Padre Eterno roubado  igreja de Saint-Pierre-aux-Boeufs. Blasfmias 
e obscenidades eram as preces que lhe dirigia o seu povo.
  Seguindo por um ddalo de ruelas srdidas e ftidas, penetrava-se no reinado da noite e do horror. A esttua do Padre Eterno marcava a fronteira que no podia 
transpor sem arriscar a vida um policial ou um archeiro isolado. As pessoas pacatas tambm no se aventuravam a franque-la. Que iriam elas fazer naquele quarteiro 
sem nome, onde casas negras semiderrudas, casebres, velhos coches e velhas carroas, velhos moinhos e velhas chalanas, trazidos at ali no se sabia como, serviam 
de habitao a milhares de famlias, elas prprias sem nome e sem razes, as quais no tinham outro refgio seno o da matterie}
  Na escurido e no silncio mais profundos, Anglica compreendeu que acabava de penetrar nos domnios do Grande Cosre. Os cantos das tabernas tornavam-se distantes. 
Aqui, no mais havia tabernas, nem luzes nem canes.
  Nada alm da misria absoluta, com suas imundcies, seus ratos, seus ces vadios.
  Anglica j tinha vindo de dia, com Calembredaine, ao quarteiro reservado do Faubourg Saint-Denis. E ele havia-lhe mostrado o feudo mesmo do Grande Cosre, curiosa 
casa de vrios andares, que devia ter sido um antigo convento, porque pequenos campanrios e os restos de um claustro ainda subsistiam entre o amontoamento da terra, 
de velhas pranchas, de calhaus e de espeques de que a tinham recoberto para impedi-la de desmoronar. Escorada por todas as partes, mal equilibrada e apoiada em muletas, 
exibindo as feridas hian-tes de suas arcadas e de suas janelas ogivais e erguendo com sobranceria os penachos de suas torrinhas, era bem o palcio do rei dos mendigos.
  O Grande Cosre ali vivia com sua corte, suas mulheres, seus arquissequazes, seu idiota. E era l tambm, sob a pro-teo do grande mestre, que Joo Podre armazenava 
sua mercadoria de crianas roubadas, bastardas ou legtimas.
  Desde que se embrenhou naquele temvel quarteiro, Anglica buscava reencontrar a casa. Seu instinto lhe dizia que Florimond estava l. Ela caminhava, protegida 
pela total escurido. Os vultos que com ela se cruzavam no se interessavam por aquela mulher em farrapos, semelhante aos outros moradores dos tristes pardieiros. 
Se algum a abeirasse, ela safar-se-ia sem despertar suspeitas. Conhecia suficientemente a gria e os costumes daquela gente.
  O disfarce que escolhera era, positivamente, o nico que lhe permitiria atravessar impunemente aquele inferno: era o da misria e da degradao.
  Nessa noite, com suas vestes molhadas e esfarrapadas, seus cabelos tosquiados de prisioneira, seu rosto escavado de angstia e cansao - que mendiga poderia acus-la 
de no pertencer aos seus e de penetrar como inimiga naquele maldito recinto?
  No entanto, ela devia ter cuidado para no ser reconhecida. Dois bandos rivais do de Calembredaine ocultavam-se naquele quarteiro.
  Que adviria se se espalhasse o rumor de que a Marquesa dos Anjos rondava por ali? A caa noturna dos animais, no corao de uma floresta,  menos cruel que a dos 
homens lanados em perseguio de um dos seus no corao de uma cidade!
  Para maior segurana, Anglica inclinou-se e lambuzou de lama o rosto.
  quela hora, a casa do Grande Cosre distinguia-se das outras por estar iluminada. Aqui e ali, em suas janelas, via-se brilhar a estrela arruivada de uma lamparina 
grosseira, constituda de uma escudela com azeite, na qual mergulhava um trapo velho.
  Escondida atrs de um marco, Anglica observou durante algum tempo. A casa do Grande Cosre era tambm a mais ruidosa. Ali se reuniam mendigos e bandidos, como, 
havia pouco, na Tour de Nesle. Os homens de Calembredaine eram recebidos ali. Como nessa noite fazia frio, haviam tapado todas as aberturas com velhas pranchas.
  Anglica decidiu aproximar-se de uma das janelas e olhou por um interstcio entre duas tbuas. A sala estava repleta. A jovem reconheceu alguns rostos: o Pequeno 
Eunuco, o ar-quissequaz Pedro Barbaas, com sua barba espalhada, e afinal Joo Podre. Este apresentava suas brancas mos  chama e falava ao arquissequaz:
  - Eis o que se chama uma bela operao, meu caro mestre. No somente a polcia no nos causou qualquer mal, como ainda nos ajudou a dispersar o bando desse insolente 
Calembredaine.
  - Acho que voc est exagerando ao dizer que a polcia no nos causou nenhum mal. Quinze dos nossos foram enforcados quase sem julgamento, no cadafalso de Montfaucon! 
E no temos certeza de que Calembredaine fizesse parte daquele nmero!
  - Ora essa! De qualquer maneira, ele est com a cabea esmagada, e por muito tempo no poder voltar... admitindo-se que volte... do que duvido. Rodoguno ocupou 
todos os seus lugares.
  ' Pedro Barbaas suspirou.
  -        Teremos, ento, de bater-nos um dia com Rodoguno. Essa Tour de Nesle, que comanda o Pont Neuf e a feira de Saint-Germain,  uma posio estratgica temvel. 
Noutros tempos, quando eu ensinava histria a alguns tratantes no colgio de Navarra...
  Joo Podre no escutava mais.
  -        No seja pessimista quanto ao futuro da Tour de Nesle. Quanto a mim, no desejo seno que se repita, de vez em quando, uma pequena revoluo desse gnero. 
Que bela colheita eu fiz na Tour de Nesle! Uma vintena de fedelhos bem escolhidos e que me vo render bons escudos de peso legal.
  -        Onde esto esses querubins?
  Joo Podre fez um gesto indicando o teto fendido:
  -        L em cima... Madalena, minha filha, aproxime-se e mostre-me seu leito.
  Uma gorda mulher com ar bovino arrancou um beb pendurado ao seu seio e estendeu-o o ignbil indivduo, que o tomou e levantou com admirao.
  -        No  belo este pequeno mouro? Quando crescer, mandarei fazer-lhe uma roupa azul-celeste e irei vend-lo na corte.
  Nesse momento, havendo um dos mendigos tomado sua gaita, dois outros puseram-se a danar uma bourre camponesa, e Anglica no mais ouviu as palavras que trocavam 
Joo Podre e Pedro Barbaas.
  Mas pelo menos de uma coisa ela j tinha certeza. As crianas raptadas da Tour de Nesle encontravam-se na casa, aparentemente em um quarto situado por cima da 
sala principal.
  Muito lentamente, ela deu volta  muralha. Encontrou um vo que dava para uma escada. Tirou os sapatos e caminhou descala. No queria fazer o menor rudo.
  A escada subia em voltas e desembocava num corredor. As paredes e o solo estavam cobertos de um reboco de terra batida, misturada com palha. A esquerda, ela percebeu 
um quarto deserto, onde brilhava uma griseta. Havia correntes presas  parede. Quem seria acorrentado ali?... A quem torturariam?... Ela recordou: contavam que Joo 
Podre, durante as guerras da Fronda, fazia raptar jovens e camponeses isolados, para revend-los aos recrutadores de exrcitos... O silncio dessa parte da casa 
era assustador.
  Anglica continuou a avanar.
  Um rato a roou. Ela teve de conter um grito.
  Agora, novos sons pareciam chegar at ela, vindos do interior da casa.
  Eram gemidos, choros distantes, que pouco a pouco se tornavam ntidos. Seu corao pulsou mais forte: eram prantos de crianas. Ela evocou a face de Florimond, 
com seus olhos negros aterrorizados e as lgrimas a lhe sulcarem as faces plidas. Durante a noite ele tinha medo, chamava pela me.. Ela avanou cada vez mais rpido, 
atrada por aquele pranto. Subiu ainda um andar, atravessou duas peas; lamparinas ali emitiam uma luz fraca. Observou, nas paredes, gongos de cobre que constituam, 
com feixes de palha, dispersos pelo cho, e algumas tigelas de barro, a nica moblia daquele sinistro lugar.
  Afinal, percebeu que chegava ao fim. Ouvia distintamente o triste concerto de soluos, aos quais se misturavam murmrios que buscavam tranquilizar.
  Anglica entrou em um pequeno quarto,  esquerda de um corredor que ela percorreu num instante. Uma lamparina brilhava em um nicho. Mas ali no havia ningum. 
Entretanto, vinham rudos de l. Divisou, ao fundo, uma porta espessa, guarnecida de fechaduras. Era a primeira porta que encontrava, pois todas as outras peas 
estavam abertas.
  No batente havia um pequeno postigo gradeado. Nada podia ver por aquele postigo, mas compreendeu que as crianas estavam fechadas ali, naquele fosso sem ar e sem 
luz. Como poderia ela atrair a ateno de um bebe de dois anos?
  Colou os lbios ao guich e chamou docemente:
  -        Florimond! Florimond!
  Os prantos acalmaram um pouco, depois uma voz cochichou do interior:
  -  voc, Marquesa dos Anjos?
  - Quem est a?
  - Eu, Linot. Joo Podre nos enfardou com Flipot e outros.
  - Florimond est com vocs?
  - Est.
  -  ele quem est chorando?
  - Estava, mas eu lhe disse que voc viria busc-lo. Ela compreendeu que o rapazinho se voltava para sussurrar:
  - Est vendo, Fl? Mame est a.
  -        Tenha pacincia, vou faz-los sair - prometeu Anglica.
  Recuou e examinou a porta. As fechaduras pareciam slidas. Mas a parede estava podre e havia, talvez, algum meio de arrancar os gonzos. Meteu as unhas na parede.
  Ento, ouviu atrs de si um rudo estranho. Era uma espcie de cacarejo, sufocado a princpio e que, pouco a pouco, subiu, subiu, at tornar-se um riso. Anglica 
voltou-se e viu o Grande Cosre.
  O monstro estava num carrinho baixo com quatro rodas. Sem dvida, era assim, auxiliando-se com as mos apoiadas no solo, que ele circulava pelos corredores de 
seu temvel labirinto.
  Da entrada do quarto, ele fixava sobre a jovem seu olhar cruel. E ela, paralisada pelo medo, reconheceu a apario fantstica do Cimetire des Saints-Innocents.
  Ele continuava a rir, com cacarejos e soluos horrveis, que lhe sacudiam o busto, prolongado por duas pequenas pernas finas e flcidas.
  Depois, sem cessar de rir, recomeou a deslocar-se. Fascinada, ela seguia com o olhar a marcha do pequeno carrinho chiante. Ele no se dirigia para ela, mas em 
diagonal, atravs da pea. E, de sbito, ela percebeu na parede um gongo de cobre, igual aos que j observara nas outras salas. Uma barra de ferro estava no cho...
  O Grande Cosre aprestava-se para bater no gongo. E, a esse chamado, iriam precipitar-se, das profundezas da casa, sobre Anglica, sobre Florimond, todos os mendigos, 
todos os bandidos, todos os demnios daquele inferno...
  Os olhos da besta degolada tornavam-se vtreos.
  -        Oh! Voc o matou! - disse uma voz.
  No mesmo lugar em que, havia momentos, tinha aparecido o Grande Cosre, estava uma mocinha, quase menina, com rosto de madona.
  Anglica olhou a lmina de seu punhal, vermelha de sangue. Depois disse, em voz baixa:
  - No chame! Ou serei obrigada a mat-la tambm.
  - Oh! No, eu no vou chamar. Estou contente porque voc o matou!
  Aproximou-se.
  -        Ningum tinha coragem de mat-lo - murmurou ela.- Todos tinham medo. E, no entanto, ele no era seno um pavoroso homenzinho.
  Depois, elevou para Anglica seus olhos negros.
  - Mas  preciso que voc se salve depressa, agora.
  - Quem  voc?
  -        Sou Rosina... A ltima mulher do Grande Cosre.
Anglica guardou o punhal na cintura. Estendeu a mo tremula e pousou-a sobre aquela face fresca e rosada.
  - Rosina, ajude-me ainda. Meu filho est atrs daquela porta. Joo Podre fechou-o l. Preciso recuper-lo.
  - A chave dupla da porta est ali - disse a menina. - Joo Podre a confiava ao Grande Cosre. Est no carrinho.
  Inclinou-se sobre o corpo imvel e repulsivo. Anglica no olhava. Rosina endireitou-se.
  -        Aqui est - disse.
  Ela prpria introduziu a chave nas fechaduras, que rangeram. A porta abriu-se. Anglica precipitou-se para o interior do crcere e agarrou Florimond, que Linot 
segurava em seus braos. O menino no chorava, no gritava, mas estava gelado e abraou com tanta fora o pescoo de sua me que esta perdeu o flego.
  - Agora, ajude-me a sair daqui - disse ela a Rosina. Linot e Flipot agarraram-se  saia de Anglica.
  - No posso lev-los todos - disse ela.
  Livrou-se das pequenas mos sujas, mas os dois garotos correram atrs dela.
  -        Marquesa dos Anjos! Marquesa dos Anjos, no nos abandone.
  Subitamente, Rosina, que os havia arrastado para uma escada, levou o dedo aos lbios.
  -        Psiu! Algum sobe.
  Urn passo pesado ressoou no pavimento inferior.
  -         Bavottant, o idiota. Venham por aqui.
  E ps-se a correr feito uma louca. Anglica seguiu-a com os dois meninos. Quando chegavam  rua, um clamor aflitivo subiu das profundezas do palcio do Grande 
Cosre. Era o idiota Bavottant, rugindo sua dor diante do cadver do real aborto que ele, durante muito tempo, cercara de seus cuidados.
  -        Corramos! - repetiu Rosina.
  Seguidas dos garotos ofegantes, as duas entraram pelas ruelas escuras, uma atrs da outra. Seus ps descalos escorregavam jio cho viscoso. Afinal, a mocinha 
afrouxou a marcha.
  - Vejo lanternas - disse ela. -  a Rue Saint-Martin.
  -  preciso ir mais longe. Podemos ser perseguidas.
  - Bavottant no sabe falar. Ningum o compreender. Talvez creiam mesmo que foi ele quem o matou. Arranjaro outro Grande Cosre. E eu nunca mais voltarei para 
l. Ficarei com voc porque voc o rnatou.
  - E se Joo Podre nos encontrar? - perguntou Linot.
  - Ele no nos achar. Eu defenderei a todos - disse Anglica.
  Rosina mostrou ao longe uma claridade lvida, que fazia empalidecer as lanternas.
  - Olha, a noite terminou.
  - Sim, a noite terminou - repetiu Anglica.
  De manh, na Abadia de Saint-Martin-des-Champs, distribua-se a sopa aos pobres. As grandes damas que tinham assistido  primeira missa ajudavam as religiosas 
nesse ato de caridade.
  Os pobres, que s vezes no tinham lugar para dormir, encontravam no grande refeitrio um repouso passageiro. Dava-se a cada um deles uma escudela de caldo quente 
e um po redondo.
  Foi l que Anglica foi dar, com Florimond nos braos e seguida de Rosina, Linot e Flipot. Estavam todos espantados e cobertos de lama e de imundcies.
  Fizeram-nos entrar em fila com uma horda de miserveis, e eles sentaram-se nos bancos diante das mesas de madeira.
  Depois apareceram criadas trazendo grandes panelas de caldo.
  O odor era bastante apetitoso. Mas Anglica, antes de matar a fome, quis fazer Florimond tom-lo.
  Delicadamente, ela aproximou a tigela dos lbios do
menino.        
  Somente ento pde v-lo,  vaga claridade que descia de um vitral. Ele tinha os olhos semicerrads, o nariz franzido. Respirava precipitadamente, como se seu 
corao, afadiga-d pelo terror, no pudesse reencontrar o ritmo normal. Inerte, deixava escorrer de seus lbios o caldo. No entanto, o calor do lquido reanimou-o. 
Ele teve um soluo, conseguiu deglutir uma golada, depois estendeu as mos para a tigela e bebeu, afinal, com sofreguido.
  Anglica olhava aquele pequeno rosto miserando, enterrado na cabeleira negra e emaranhada.
  "Eis o que voc fez", pensava consigo mesma, "do filho de Joffrey de Peyrac, do herdeiro dos condes de Toulouse, do filho dos Jogos Florais, nascido para a luz 
e para a alegria."
  Ela despertava de longo entorpecimento, contemplava o horror e a runa de sua vida. Uma clera selvagem contra si mesma e contra o mundo apoderou-se dela subitamente. 
Agora que ela devia estar abatida e vazia de toda substncia, aps aquela horrvel noite, uma fora prodigiosa a invadiu.
  "Nunca mais", disse para si, "ele ter fome... Nunca mais ele ter frio... Nunca mais ele ter medo. Eu o juro."
  Mas,  porta da abadia, no estavam a fome, o frio e o medo a espreit-los?
  -         preciso fazer qualquer coisa. Imediatamente.
Anglica olhou em torno. Ela no era seno uma dessas
  mes miserveis, uma dessas "pobres" a quem nada  devido e sobre as quais as damas ataviadas se inclinam por caridade, antes de tornarem s paroleiras de suas 
ruelles literrias ou s intrigas da corte.
  Com um xale sobre a cabeleira, a fim de dissimular o brilho de algumas prolas, um avental pregado com alfinetes sobre seus veludos e suas sedas, elas iam de um 
a outro. Uma servilheta acompanhava-as carregando um cesto de onde as damas tiravam doces, frutas, s vezes pastis ou meios frangos, restos das mesas principescas.
  -        Oh! Minha querida - disse uma delas -, voc  bem corajosa vindo to cedo, em seu estado, distribuir esmolas.
Deus a abenoar.
  -        Assim espero, carssima.
O risinho que se seguiu pareceu familiar a Anglica. Ela ergueu os olhos e reconheceu a Condessa de Soissons, a quem a ruiva Bertlia apresentava um manto de seda 
cor de ameixa. A condessa envolveu-se nele, confortavelmente.
  - Deus fez muito mal as coisas, obrigando as mulheres a carregar no seio durante nove meses o fruto de um instante de prazer - disse ela  abadessa que a acompanhava 
rumo  porta.
  - Que ficaria para as monjas, se tudo fosse prazer nos instantes do mundo? - respondeu a religiosa com um sorriso.
  Anglica levantou-se bruscamente e estendeu seu filho a
Linot.        
  -        Tome conta de Florimond - disse.
  Mas o menino agarrou-se a ela, soltando gritos. Ela se resignou a ficar com ele, e ordenou aos outros:
  -        Fiquem aqui, no se mexam.
  Um coche esperava na Rue Saint-Martin. Quando a Condessa de Soissons se aprestava para subir, uma mulher pobremente vestida, com uma criana nos braos, aproximou-se 
e disse:
  -        Senhora, meu filho morre de fome e de frio. Ordene que um de seus lacaios leve, ao endereo que eu lhe darei, uma carroa cheia de lenha, po, uma terrina 
de sopa, cobertores e roupas.
  A nobre dama examinou com surpresa a mendicante.
  - Voc tem muita audcia, minha filha. J no recebeu sua escudela esta manh?
  - No basta uma escudela para viver, senhora. O que eu lhe peo  pouco, em comparao com a sua riqueza: uma carroa de lenha e alimentos, que me concender at 
que eu possa arranjar-me de outro modo.
  - Incrveis - exclamou a condessa. - Est ouvindo, Bertlia? A insolncia dessas mendigas torna-se cada dia maior! Deixe-me, mulher! No me toque com suas mos 
sujas, ou mandarei que meus lacaios lhe dem uma surra!
  - Cuidado, senhora - disse Anglica em voz muito baixa -, cuidado, para que eu no fale do filho de Kuassi-Ba!
  A condessa, que arrepanhava a saia para subir  carruagem, imobilizou um p levantado. Anglica continuou:
  -        Conheo no Faubourg Saint-Denis uma casa onde um filho de mouro est sendo criado.
  -        Fale mais baixo - murmurou a Sra. de Soissons com raiva.
  E repeliu Anglica.
  -        Que histria  essa? - disse ela, em tom seco.
  E, para disfarar seu embarao, abriu o leque e abanou-se, o que no tinha nenhuma utilidade, pois a nortada era rude.
  Anglica mudou Florimond de brao, porque o garoto comeava a se fazer pesado.
  - Eu conheo um filho de mouro que est sendo criado... - tornou ela. - Nasceu em Fontainebleau, num dia que eu sei, sob os cuidados de uma mulher cujo nome poderei 
dizer a quem queira saber. A corte no ir divertir-se muito ao tomar conhecimento de que a Sra. de Soissons carregou um filho treze meses no ventre?
  - Marafona! - exclamou a bela Olmpia, cujo temperamento meridional sempre a arrebatava.
  Ela encarava Anglica, procurando reconhec-la. Mas a jovem abaixou os olhos, bem persuadida de que, no triste estado em que se encontrava, ningum poderia reconhecer 
a brilhante Sra. de Peyrac.
  - Basta! - tornou a Condessa de Soissons, colrica. E caminhou com precipitao para o seu coche. - Voc mereceria umas bastonadas. Sabe que no gosto que zombem 
de mim.
  - O rei tambm no gosta que zombem dele - murmurou Anglica, que a seguia.
  A nobre dama tornou-se carmesim e deixou-se cair de costas sobre o banco de veludo, dando palmadas na saia, com agitao.
  - O rei!... O rei!... Ouvir uma mendiga sem camisa falar do rei! E intolervel! E ento?... Que quer?...
  - J lhe disse, senhora. Quero pouca coisa: uma carroa de lenha, agasalhos, para mim, para meu beb e meus rapazinhos de oito e dez anos, um pouco de alimento...
- Oh! Que humilhao ouvir falar assim! - rangeu a Sra. de Soissons, rasgando com os dentes seu leno de rendas. - E dizer que esse idiota do tenente de polcia 
se gaba de ter abatido a soberba dos bandidos na feira de Saint-Germain... Que esperam para fechar as portinholas, imbecis? - gritou ela, dirigindo-se aos lacaios.
  Um deles empurrou Anglica para executar a ordem da patroa, mas aquela no se deu por vencida e aproximou-se de novo da portinhola.
  - Posso apresentar-me no Palcio de Soissons, na Rue Saint-Honore?
- Apresente-se - disse secamente a condessa. - Darei as ordens.
  
  CAPTULO XV
  
  Seguros em casa do rtisseur Bourjus
  
  Foi assim que mestre Bourjus, rtisseur da Valle-de-Misre que consumia seu primeiro copo de vinho recordando melancolicamente os alegres refres que antigamente 
cantava, quela hora, sua mulher, viu chegar ao ptio da casa um estranho cortejo.
  Uma famlia de maltrapilhos, composta de duas jovens e trs meninos, precedia um criado de libr vermelho-cereja, o qual puxava uma carroa de lenha e vestimentas.
  Para completar o quadro, um pequeno macaco, empoleirado no veculo, parecia muito feliz de assim passear e fazia caretas aos transeuntes. Um dos meninos trazia 
uma sanfona, cujas cordas arranhava alegremente.
  Mestre Bourjus saltou, praguejou, esmurrou a mesa e dirigiu-se  cozinha, ali chegando no momento em que Anglica punha Florimond nos braos de Brbara.
  - Qu? Que  isso? - bradou fora de si. - Vai dizer-me que essa criana  sua? Eu que a considerava uma moa ajuizada e honesta, Brbara?
  - Mestre Bourjus, escute-me...
  - No escuto nada! Tomaram meu estabelecimento por um asilo! Estou desonrado...
  Atirou ao cho seu gorro de cozinheiro e correu para fora, a fim de chamar a ronda.
  -        Conserve os dois meninos no calor - recomendou Anglica a Brbara. - Vou acender o fogo no seu quarto.
  o lacaio da Sra. de Soissons, aturdido e indignado, teve de levar a lenha para o stimo andar, por uma escada oscilante, e deposit-la em uma pequena pea que 
no era mobiliada sequer por um leito de cortinas.
  - No se esquea de recomendar  senhora condessa que me faa trazer a mesma coisa todos os dias - disse Anglica, despachando o criado.
  - Olhe, minha bela, se quer um conse... - comeou o lacaio.
  - No preciso de seu conselho, imbecil, e probo-lhe de me tratar por "voc" - interrompeu Anglica em tom que no se harmonizava com seu corpete rasgado e sua 
cabea rapada.
  O lacaio desceu a escada, achando, como mestre Bourjus, que estava desonrado.
  Um pouco depois, Brbara subiu com dificuldade, carregando nos braos Florimond e Cantor. Encontrou Linot e Flipot soprando vigorosamente um magnfico fogo de 
lenha. O calor era sufocante e todos tinham as faces avermelhadas.
  Brbara contou que o rtisseur no se acalmava, e que isso fazia medo a Florimond.
  - Deixe-os aqui - disse Anglica -, e v fazer seu servio. Brbara, voc no est contrariada por eu ter vindo para c com meus filhos?
  - Oh, senhora,  uma grande felicidade para mim.
  - E estas pobres crianas tambm,  preciso acolh-las - disse Anglica, mostrando Rosina e os dois rapazinhos. - Se voc soubesse de onde eles vm!...
  - Senhora, meu pobre quarto  seu. Um rugido subiu do ptio:
  - Brbara!...
  Era mestre Bourjus. Toda a vizinhana retumbava seus gritos. No somente sua casa tinha sido invadida por mendigos, mas ainda sua criada perdera a cabea. Deixara 
queimar um espeto de seus capes... E que eraaquilo, aquela girndo-la de fagulhas que saam da chamin?... Uma chamin que estivera apagada durante cinco anos. 
Tudo ia incendiar-se!... Era a runa. Ah! Que falta fazia a Sra. Bourjus!...
  A panela enviada pela Sra. de Soissons continha carne cozida, sopa e belos legumes. Havia tambm dois pes e um boio de leite.
  Rosina desceu para buscar um balde d'gua no poo do ptio, e puseram gua para esquentar nos ces da chamin. Anglica lavou seus dois filhos, envolveu-os em 
camisas novas e cobertores. Nunca mais eles teriam fome, nunca mais sentiriam frio!...
  Cantor chupava um osso de frango apanhado na cozinha e gorjeava brincando com os pezinhos. Florimond ainda no parecia restabelecido. Adormecia, depois acordava 
berrando. Ele tremia, e Anglica no sabia se era de febre ou de medo. Mas, depois do banho, transpirou abundantemente, e em seguida dormiu um sono tranquilo.
  Anglica fez sair Linot e Flipot e banhou-se, por sua vez, na tina que habitualmente servia para as ablues da modesta servilheta.
  -        Voc  bela! - disse-lhe Rosina. - Eu no a conheo, mas certamente voc  uma das mulheres de Belo Rapaz.
  Anglica esfregava energicamente a cabea e constatava que , na verdade, muito fcil lavar os cabelos quando j no os temos.
  - No, eu sou a Marquesa dos Anjos.
  - Oh! Ento  voc! - exclamou a mocinha, deslumbrada. - J tinha ouvido falar a seu respeito.  verdade que Ca-lembredaine foi enforcado?
  - No sei de nada, Rosina. Como voc v, estamos em um pequeno quarto muito simples e muito decente. Existe um crucifixo na parede e uma caldeirinha. No falemos 
mais nessas coisas.
  Enfiou uma camisa de tecido grosso, uma saia e um corpe-te de sarja azul-escuro, que faziam parte do carregamento da carroa. A fina cintura de Anglica perdia-se 
naquelas vestes informes e grosseiras. Mas eram limpas, e ela experimentou um real alvio ao se desfazer dos andrajos da vspera.
  Tomou um espelhinho do cofre que tinha recuperado na Rue du Vald'Amour, com o smio Piccolo. Havia naquele cofre toda sorte de coisas interessantes e a que ela 
se apegara, entre outras um pente de tartaruga. Penteou-se com ele. Seu rosto, com cabelos cortados, parecia-lhe o de uma desconhecida.
  - Foram os soldados que lhe ceifaram a cabeleira? - perguntou Rosina.
  - Foram... Mas ela tornar a crescer. Oh! Rosina, que  que eu tenho aqui?
  - Onde?
  - Nos meus cabelos. Olhe.   
  Rosina olhou.
  -  uma mecha de cabelos brancos - disse ela.
  - De cabelos brancos - repetiu Anglica com horror. - Mas isso no  possvel. Eu... ainda ontem no os tinha, estou certa.
  - Devem ter vindo esta noite.
  - Sim, esta noite.
  Com as pernas tremulas, Anglica foi sentar-se no leito de Brbara.        
  -        Rosina... Ser qu estou ficando velha?
  A mocinha, ajoelhada diante dela, olhou-a muito seriamente. Depois acariciou-lhe a face.
  -        No acredito. Voc no tem rugas, e a sua pele  lisa.
Anglica penteou-se como pde, procurando dissimular a malfadada mecha branca sob as outras.- Depois atou  cabea um leno de cetineta negra.
  - Que idade voc tem, Rosina?
  - No sei. Talvez catorze anos, talvez quinze.
  -        Agora eu me lembro de voc. Vi-a uma noite no Cimetiere des Saints-Innocents. Voc marchava no cortejo do
Grande Cosre e tinha os seios nus. Era inverno. Ser que voc no morria de frio assim despida?
  Rosina ergueu para Anglica seus grandes olhos, e esta leu neles uma vaga- censura.
  -        Voc mesma o disse. No falemos mais nisso - murmurou a mocinha.
  Nesse instante, Flipot e Linot tamborilaram na porta. Encaram, alegres. Brbara lhes dera, s ocultas, uma frigideira, Urn pedao de toucinho e um pote com massa. 
Iam fazer panquecas.
  Nessa noite, no havia em Paris muitos lugares onde se fosse mais feliz do que naquele pequeno aposento da Rue de la Valle-de-Misre. Anglica fazia saltar as 
panquecas. Linot arranhava a sanfona de Thibault, o Sanfonineiro. A Polaca reencontrara o instrumento, encostado num marco, e o entregara ao neto do velho msico. 
Ignorava-se o que acontecera a este no tumulto.
  Um pouco mais tarde, Brbara subiu com seu castial. Disse que no havia nenhum fregus na loja, e que mestre Bourjus, desgostoso, fechara a porta. Para agravar 
o infortnio do rtisseur, haviam-lhe furtado o relgio. Assim, Brbara? estaria livre mais cedo que de costume. Quando ela acabava de falar, seus olhos caram sobre 
um estranho sortimento de objetos, postos sobre a arca de madeira em que ela guardava suas roupas.
  Havia l dois raladores de tabaco, uma bolsa de fio com alguns escudos, botes, uma gazua e, no meio...
  - Mas...  o relgio de mestre Bourjus - exclamou ela.
  - Flipot! - gritou Anglica. Flipot tomou um ar humilde.
  - Sim, fui eu. Quando fui  cozinha buscar a massa... Anglica agarrou-o pela orelha e sacudiu-o severamente.
  -        Se voc recomea, filhote de rapa-bolsas, eu o ponho para fora, e voc poder voltar para Joo Podre!
  Desolado, o garoto foi deitar-se em um canto do quarto, onde no tardou a adormecer. Linot o imitou. Depois foi Rosina, aps estender-se a meio, atravessada no 
enxergo. Florimond e Cantor haviam retomado seu sono.
  Ajoelhada diante do fogo, Anglica ficou acordada, sozinha, ao lado de Brbara. No se ouviam seno pequenos rudos, pois o quarto dava para um ptio, e no para 
a rua, que comeava a ser invadida pelos bebedores e jogadores.
  -        No  tarde. Acabam de soar as nove no relgio do Chtelet - disse Brbara.
  Ela surpreendeu-se ao ver Anglica erguer a cabea um tanto assustada e pr-se de p de repente.
  A jovem ficou por um momento a olhar Florimond e Cantor adormecidos. Depois, dirigiu-se para a porta.
  - At amanh, Brbara - cochichou ela.
  - Aonde vai, senhora?
  - Resta-me ainda uma coisa por fazer - disse Anglica. . Depois, isto acabar. Poderei recomear a vida.
  
  CAPTULO XVI
  
  Noite galante na priso do Grande Chtelet
  
  No era preciso dar seno alguns passos para ir da Rue de la Valle-de-Misre ao Chtelet. Do Galo Atrevido avistavam-se os tetos pontudos da grande torre da fortaleza.
  Anglica se encontrou bem depressa diante do prtico principal da priso, ladeado por duas torrinhas e encimado por um campanrio e um relgio.
  Como na vspera, tochas iluminavam a abbada.
  Anglica dirigiu-se para a entrada, em seguida recuou e comeou a dar voltas pelas ruas vizinhas, esperando que um milagre sbito viesse destruir o lgubre castelo, 
cujas espessas muralhas tinham j resistido a meia dzia de sculos. As peripcias do dia anterior haviam apagado de sua memria a promessa que fizera ao capito 
da ronda. Mas as palavras de Brbara tinham-lhe feito lembrar-se dela. Chegava a hora de cumprir a palavra.
  As ruelas onde Anglica se demorava exalavam horrvel mau cheiro. Eram as ruas de la Pierre--Poisson, de la Tuerie, de la Triperie, nas quais os ratos disputavam 
entre si os restos mais variados.
  "Vamos", disse ela a si mesma, "nada ganho em ficar aqui-De qualquer maneira,  preciso passar por isso."
  Voltou ao Chtelet e foi at o corpo da guarda,
  - Ah! Voc est a? - disse o capito.
  Ele fumava, sentado, com os dois ps sobre a mesa.
  - Eu no acreditava que ela voltasse - disse um dos homens.
  - Eu estava certo de que ela voltaria - afirmou o capito. - Porque j tenho visto muitos homens faltarem  palavra, mas uma puta, nunca! Ento, querida?
  Ela lanou sobre aquela face congestionada um olhar de gelo. O capito estendeu a mo e beliscou-lhe cordialmente a anca.        '
  -        Vou mand-la ao cirurgio, para que ele a lave e a examine. Se voc estiver doente, ele lhe passar pomada. Eu,
voc sabe, sou delicado. Vamos, mexa-se!
  Um soldado conduziu Anglica at o gabinete do cirurgio, que se achava em galante palestra com uma das matronas da priso.
  Anglica teve de deitar-se num banco e entregar-se ao repugnante exame.
  -        Diga ao capito que ela est limpa como um soldo novo e fresca como uma rosa - gritou o cirurgio ao soldado que se afastava. - No me lembro de me terem 
trazido aqui outras iguais!
  Em seguida, a matrona conduziu-a at o quarto do capito, pomposamente batizado de "apartamento".
  Anglica ficou sozinha nesse aposento .gradeado como um crcere e cujas grossas paredes eram mal dissimuladas por tapearias de Brgamo, pudas e desfiadas.
  Uma vela sobre a mesa, perto de um sabre e de uma escrivaninha, no chegava a dissipar inteiramente as sombras acumuladas sob a abbada. O quarto cheirava a couro 
velho, tabaco e vinho. Anglica permaneceu de p junto  mesa, incapaz de sentar-se, ou de fazer alguma coisa, inibida pelo nervosismo. E,  medida que o tempo passava, 
sentia mais frio, porque a umidade do lugar era penetrante.
  Afinal, ouviu os passos do capito. Ele entrou lanando uma torrente de injrias:
  -        Cambada de mandries!... Incapazes de agir sozinhos, e eu no estivesse aqui!...
  Jogou a espada e a pistola sobre a mesa, sentou-se bufando e ordenou, estendendo os ps para Anglica:
  -        Tire-me as botas!
  O sangue de Anglica parou de circular.
  - No sou sua criada!
  - Essa agora! - murmurou ele, pondo as mos nos joelhos para olh-la mais comodamente.
  A jovem caiu em si e viu que era loucura excitar assim a clera do Ogro, no momento em que se achava inteiramente  sua merc. Procurou abrandar suas palavras:
  - F-lo-ei de bom grado, mas no entendo nada de vestiduras militares. Suas botas so to grandes e minhas mos to pequenas! Olhe.
  - E verdade que elas so pequenas - concordou ele. - Voc tem mos de duquesa.
  - Posso tentar...
  -        Deixe isso, florzinha - rosnou ele, empurrando-a.
Agarrou uma das botas e comeou a pux-la, contorcendo-se e fazendo caretas.
  Nesse momento, houve rumor de passos no corredor e uma voz chamou:
  - Capito! Capito!
  - Que  que ha?
  - Acabam de trazer um afogado, que pescaram perto do Petit Pont.
  - Ponha-o no necrotrio.
  - Acontece que ele recebeu no ventre uma facada. E preciso que venha constatar.
  O capito blasfemou de fazer desabar o campanrio da igreja vizinha e precipitou-se para fora.
  Anglica continuou a esperar, cada vez mais gelada. Ela comeava a ter esperana de que essa noite decorresse assim ou que o capito ro voltasse mais, ou - quem 
sabe? - que ele recebesse um mau golpe, quando ouviu de novo as exploses de sua voz possante. Um soldado o acompanhava.
  -Tire minhas botas - disse ele. - Est bem. Agora, d o fora. E voc pequena, meta-se na cama, em vez de ficar a, plantada como um crio, a ranger os dentes.
  Anglica voltou-se e avizinhou-se da alcova. Depois, comeou a despir-se. Sentia como que uma bola no vazio do estmago. Perguntou a si mesma se devia tirar a 
camisa, e acabou conservando-a. Subiu para o leito e, apesar de seus receios, teve uma sensao de bem-estar ao enfiar-se debaixo das cobertas. O colcho de penas 
era macio. Pouco a pouco ela comeou a aquecer-se. Com o lenol puxado at o queixo, viu o capito despir-se.
  Era quase um fenmeno da natureza. Ele crepitava, gemia, bufava, grunhia, e a sombra de sua enorme estatura enchia toda uma parede.
  Tirou o soberbo chino castanho e p-lo com cuidado sobre um suporte de madeira.
  Aps haver esfregado energicamente o crnio, tirou as ltimas roupas.
  Desembaraado de suas botas e da peruca, e embora nu como o Hrcules de Praxteles, o capito da ronda ainda continuava muito imponente. Ela ouviu-o patejar num 
balde d'gua. Depois ele veio, com uma toalha pudicamente presa  cintura.
  Nesse momento, ressoaram duas pancadas na porta.
  -        Capito! Capito!
Ele foi abrir.
  - Capito,  a ronda que volta dizendo que assaltaram uma casa na Rue des Martyrs e...
  - O diabo que os carregue! - trovejou o capito. - Quando percebero que o mrtir sou eu? No vem que tenho uma franga quentinha no meu leito e que me espera 
h trs horas? Crem que tenho tempo para ocupar-me com essas coisas?
  Ele bateu a porta, passou os ferrolhos com estrpito e ficou plantado ali um momento, nu e colossal, a desfiar um rosrio de injrias. Depois, tendo-se acalmado, 
amarrou um leno em volta do crnio e fez sobressair garridamente duas pontas na testa.
  Afinal, tomando a vela, aproximou-se da alcova com precauo.
  Encolhida sob os lenis puxados at o queixo, Anglica via aproximar-se aquele gigante vermelho; cuja cabea adornada de chifres lanava para o teto uma sombra 
grotesca.
  Com os nervos relaxados pelo calor do leito, entorpecida Pela espera e j quase dormindo, ela achou to cmica aque-Ia apario que no pde conter uma gargalhada.
  O Ogro deteve-se, mirou-a com surpresa. E uma expresso jovial fendeu sua carranca.
  -        Oh! Oh! A pequena me deu uma risadinha! Eis uma coisa que eu no esperava! De lanar olhares gelados, disso voc entende! Mas vejo tambm que voc gosta 
de divertir-se. Eh! Eh! Voc sabe rir, minha bela! Esta bem assim! Eh! Eh! Oh! Oh! Oh!
  Ele se ps a rir francamente, e estava to engraado, com sua touca e seu castial, que Anglica se sufocou literalmente no travesseiro. Enfim, com os olhos cheios 
de lgrimas, ela conseguiu dominar-se. Estava furiosa consigo mesma, pois muito pensara em mostrar-se altiva, indiferente, no conceder seno aquilo que lhe fosse 
exigido. E eis que ria feito uma mulher da vida que quer pr  vontade um cliente.
  -        Est bem, minha linda, est bem - repetiu o capito, todo contente. - Agora arrede-se um pouco e deixe-me um pequeno lugar junto de si.
  O colcho vergou sob a massa enorme. O oficial tinha apagado a vela. Sua mo fechou as cortinas da alcova e, na mi-da escurido, seu forte odor de vinho, de tabaco 
e de couro de botas chegou a uma densidade insuportvel. Ele respirava precipatada. Apalpou o colcho perto de si e sua manopla desceu sobre Anglica. Ela enrijou-se 
toda.
  -        Ora essa! - disse ele. - Ei-la como um manequim de madeira. No  esta a ocasio, minha bela. No entanto, eu no vou maltrat-la. Vou explicar-lhe cavalheirescamente, 
porque  voc. H momentos, somente ao ver a maneira como voc me olhava, como se eu no fosse maior que um gro de ervilha, duvidei muito que lhe agradasse vir 
dormir comigo. No entanto, eu sou um homem vistoso e, habitualmente, agrado s damas. Mas  intil procurar compreender as mulheres de sua classe... O que  certo 
 que voc me agrada. Um verdadeiro xod! Voc no se parece com as outras. E dez vezes mais bela. Desde ontem que no penso seno em voc...
  Seus grossos dedos a beliscaram e deram-lhe palmadinhas, afetuosamente.
  -        Dir-se-ia que voc no est acostumada. Entretanto,, bela como , deve ter tido muitos homens! Enfim, no que tange a ns dois, vou lhe falar francamente. 
H pouco, quando eu a vi na sala dos guardas, disse a mim mesmo que voc, com seus grandes ares, seria bem capaz de me causar uma inibio. Essas coisas acontecem 
a qualquer homem. Ento, para estar certo de lhe fazer as honras, mandei que me trouxessem um bom jarro de vinho com canela. Pobre de mim! Foi a partir desse momento 
que todas essas histrias de ladres e afogados caram sobre a minha cabea. Parece at que as pessoas fazem questo de se fazer assassinar para me molestar. Trs 
horas eu passei correndo do escritrio para o necrotrio, com aquele maldito vinho de canela a me esquentar o sangue. Tambm, agora eu estou no ponto, no lhe escondo. 
Mas, de qualquer maneira, ser melhor para ns dois se voc puser um pouco de boa vontade!
  Essas palavras tiveram sobre Anglica um efeito calmante. Contrariamente  maior parte das mulheres, seus reflexos e suas reaes, mesmo fsicas, mantinham-se 
sensveis ao raciocnio. O capito, que no era tolo, teve a intuio disso. No se toma parte no saque de vrias cidades nem se viola bom nmero de mulheres de 
todas as raas e de todos os pases :em ter sua pequena experincia!...
  Ele foi recompensado de sua pacincia ao encontrar contra si um belo corpo flexvel, silencioso mas dcil. Com um grunhido de prazer, ele o empolgou.
  Anglica no teve tempo de experimentar repulsa nem revolta. Sacudida por aquele amplexo como por um turbilho de tempestade, ela se achou livre quase imediatamente.
  -        Pronto, acabou-se -- suspirou o oficial.
  Com a palma da mo larga, ele a fez rolar, como um pedao de pau, para o outro lado da cama.
  -        Vamos, durma, minha bela pequena. Faremos outra sesso de manh cedo, e depois estaremos quites.
  Dois segundos mais tarde ele roncava.
  Anglica pensou que demoraria a dormir, mas aquele supremo exerccio, junto s fadigas das ltimas horas e ao con-orto de um leito macio e quente, mergulhou-a 
depressa em m sono profundo.
  Quando Anglica despertou na escurido, custou-lhe bastante compreender onde se achava. Os roncos do capito se tinham atenuado. Fazia tanto calor que Anglica 
tirou a camisa, cujo tecido spero lhe irritava a pele delicada.
  Ela j no tinha medo. No entanto, subsistia nela uma inquietude. No se sentia muito  vontade, e isso no era por causa da grande massa adormecida do Ogro. Era 
outra coisa... indefinvel, angustiante...
  Ela procurou adormecer de novo e rolou vrias vezes. Por fim, ps-se a escutar. Percebeu ento rudos vagos e difusos que, a contragosto, a tinham tirado de seu 
sono. Eram como vozes, vozes muito distantes, que haviam assumido um tom de melopeia plangente e contnua. O tom baixava, depois se elevava de novo. De sbito ela 
compreendeu: eram os prisioneiros.
  Atravs do piso e das macias muralhas, chegavam-lhe os prantos abafados, os gritos de desespero dos infelizes acorrentados, gelados, que lutavam, a golpes de 
sapato, contra os ratos dos crceres, que lutavam contra a gua, contra a morte. Criminosos blasfemavam o nome de Deus, e inocentes o invocavam. Outros, exauridos 
pelas torturas do interrogatrio, meio asfixiados, extenuados de fome e de frio; estertoravam.
  Anglica tremeu. A fortaleza do Chtelet pesava sobre ela com todos os seus sculos e todos os seus horrores. Conseguiria ela voltar ao ar livre?, pensava. O Ogro 
a deixaria partir? Ele dormia. Era forte e poderoso. E era o senhor daquele inferno.
  Muito suavemente ela se aproximou daquela massa enorme, que ressonava ao seu lado, e admirou-se, pousando-lhe a mo, de encontrar algum encanto naquele couro espesso. 
O capito mexeu-se e quase a esmagou ao virar-se.
  -        Eh! Eh! A pombinha est acordada - disse ele com voz pastosa.
  Puxou-a para si, e ela se sentiu afogada por aquela carne de msculos cheios, que rolavam sob a pele.
  O homem bocejou ruidosamente. Depois ele afastou as cortinas e entrou uma plida claridade atravs das barras da janela.
  - Voc  bem matinal, minha gata.
  - Esses rudos que eu ouo, que so eles?
  - So os prisioneiros. Eles no se divertem tanto como ns.
  - Esto sofrendo...
  - No os metemos l dentro para farrear. Voc teve a sorte, bem sabe, de ter sado dali, Est melhor no meu leito do que do outro lado da parede, sobre a palha. 
Diga que no  verdade.
  Anglica aprovou com a cabea, com uma convico que encantou o oficial.
  Ele apanhou uma jarra de vinho tinto que estava sobre uma mesa, perto de seu leito, e bebeu demoradamente. Seu pomo de Ado subia e descia ao longo do possante 
pescoo. Depois ele estendeu a jarra para Anglica.
  -        Beba.
  Ela aceitou, pois sentia que o vinho podia salv-la do desespero, entre os muros sinistros do Chtelet. Ele a encorajou:
  -        Beba, minha gata; beba, minha bela. O vinho  bom e lhe far bem.
  Quando ela, afinal, se deitou para trs, a cabea rodava-lhe. O lquido spero e forte nublava-lhe a mente. Nada lhe importava mais do que estar viva.
  Ele se voltou pesadamente para Anglica, mas a jovem j no o temia. Experimentou mesmo um comeo de prazer, quando ele a acariciou com sua larga mo, sem muita 
doura, mas de maneira enrgica e experiente. Essas carcias, mais prximas de uma massagem um pouco rude que de um sopro de zfiro, proporcionaram-lhe um real alvio. 
Ele a abraou  camponesa, com grandes beijos gulosos e barulhentos, que a espantaram e lhe deram vontade de rir.
  Em seguida ele a retomou nos braos peludos e, calmamente, estendeu-a atravessada no leito. Ela compreendeu que desta vez ele estava bem decidido a gozar seu direito, 
e fechou os olhos.
  Dos momentos que se seguiriam, Anglica, de qualquer modo, estava decidida a no se recordar.
  No entanto, no foi to terrvel quanto ela imaginara. O Ogro no era mau. Agia antes como um homem que ignora seu peso e sua fora, mas, no obstante esse inconveniente, 
que a deixava meio esmagada, ela teve de convir que no estivera longe de experimentar alguma voluptuosidade, ao ser presa daquele colosso cheio de fora e de calor. 
Depois, ela sentiu como que uma leveza de pedra-pomes. O capito vestiu-se, trauteando uma marcha militar.
  -        Sua danada - praguejou ele -, voc me deu um prazer imenso! Logo voc que me fazia medo!...
  O cirurgio do Chtelet entrou, munido de sua bacia de barbear e de suas navalhas.
  A jovem acabou de vestir-se, enquanto seu atravancador amante de uma noite deixava amarrar a toalha sob o queixo e lambuzar de sabo o rosto. Continuava a manifestar 
sua satisfao.
  -        Voc bem o disse, barbeiro! Fresca como uma rosa!
Anglica no sabia como despedir-se. O capito lanou de repente uma bolsa sobre a mesa.
  - Toma para voc.
  - J fui paga.
  - Pegue-a - rugiu o capito - e faa a pista. 
  Anglica no esperou que ele falasse duas vezes. Quando se encontrou fora do Chtelet, no teve coragem de entrar logo na Rue de la Valle-de-Misre, muito prxima 
da terrvel priso. Desceu rumo ao Sena. No Quai des Morfondus, esposas de bateleiros haviam instalado, durante o vero, alguns "banhos" para mulheres. Em todos 
os tempos, os parisienses, homens e mulheres, passavam os trs meses de calor a patinhar no Sena. Os "banhos" eram constitudos de algumas estacas cobertas por uma 
tela. As mulheres desciam para ali de camisa e de touca.
  A criatura a quem Anglica quis pagar sua despesa exclamou:
  - Quer molhar-se a esta hora? Est fazendo frio, voc sabe.
  - No tem importncia.
  Realmente, a gua estava fria. Mas, depois de bater o queixo por alguns instantes, Anglica sentiu-se  vontade. Como era a nica cliente, deu algumas braadas 
entre as estacas. Quando se viu enxuta e vestida de novo, caminhou ainda ao longo das margens, gozando do tpido sol de outono.
  "Est acabado", dizia a si mesma. "No quero mais misria. No quero mais ser obrigada a fazer coisas terrveis, como matar o Grande Cosre, ou coisas difceis, 
como dormir com um capito da ronda. No  o meu gnero de vida. Amo as roupas finas, os belos vestidos. Quero que meus filhos no mais sintam fome nem frio, que 
andem bem vestidos e sejam considerados, que reencontrem um nome. Quero reencontrar um nome... Quero tornar a ser uma grande dama."
  
  CAPITULO XVII
  
  Anglica associa-se com o rtisseur Bourjus
  
  Quando Anglica se introduzia, to discretamente quanto possvel, no ptio da rtisserie do Galo Atrevido, mestre Bourjus, armado de uma concha de sopa, surgiu 
e cresceu contra ela.
  A jovem mal teve tempo de se colocar atrs do pequeno poo, o que no impediu que ele corresse atrs dela, em volta do bocal.
  -        Fora daqui, mendiga, puta! - bramia o rtisseur. - Que pecado cometi para merecer esta invaso de foragidos do Hospital Geral, ou de Bictre... ou de 
coisa pior ainda? Sabe-se o que isso significa, uma cabea tosquiada como a sua... Volte para o Chatelet, de onde veio... Ou serei eu quem vai faz-la retornar... 
No sei o que me impediu de chamar a ronda ontem... Eu sou bom demais. Ah! Que diria minha piedosa mulher se visse sua loja assim desonrada?
  Anglica, sempre se esquivando aos golpes da concha, ps-se a gritar mais alto que ele:
  -        E que diria vossa piedosa mulher de um esposo que assim se desonra... que comea a beber desde a alvorada...?
  O rtisseur parou de repente. Anglica tirou proveito da situao.
  -        E que diria ela de sua loja coberta de poeira e dos frangos expostos de seis dias, secos e endurecidos como pergaminho, e de sua adega vazia, de suas 
mesas e bancos mal lustrados...?
  - Com mil demnios!... - gaguejou ele.
  - Que diria ela de um marido que blasfema? Pobre Sra. Bourjus, que l do cu contempla esta desordem! Posso assegurar-lhe, sem medo de me enganar: sua defunta 
no sabe onde esconder sua vergonha diante dos anjos e de todos os santos do paraso!
  A expresso de mestre Bourjus tof nou-se cada vez mais perturbada. Ele acabou sentando-se pesadamente no bocal do poo.
  - Ah! - gemeu. - Por que morreu ela? Era to boa dona de casa, sempre decidida e alegre. No sei o que me impede de procurar o esquecimento no fundo deste poo!
  - Vou dizer-lhe o que o impede:  o pensamento de que ela o receber l em cima dizendo-lhe: "Ah! Voc est a, mestre Pedro..."
  - Perdo, mestre Tiago.
  - "Voc est a, mestre Tiago! No lhe dou parabns. Eu sempre disse que vocnunca seria capaz de conduzir-se sozinho. Voc  pior que uma criana!... Voc bem 
o provou! Quando vejo o que fez da minha bela loja to brilhante, to reluzente, dos tempos em que eu vivia... Quando vejo nossa bela tabuleta toda enferrujada e 
rangendo nas noites de vento, impedindo a vizinhana de dormir... E meus vasos de estanho, minhas torteiras, minhas peixeiras, todos arranhados porque o idiota de 
seu sobrinho os limpa com cinza em vez de empregar um giz bem suave, comprado especialmente no ptio do Temple... E quando vejo que voc se deixa roubar por todos 
esses miserveis negociantes de aves ou de vinhos, que lhe enchem de galos sem a crista em lugar de capes, ou de barris de agrao em vez de bons vinhos, como quer 
que eu aproveite o cu, eu que fui uma santa e honesta mulher?..."
  Anglica se calou, sem flego. Mestre Bourjus parecia subitamente m xtase.
  -        E verdade - balbuciou ele -,  verdade... Ela falaria exatamente assim. Ela era to... to...
  Suas gordas bochechas tremeram.
  -        De nada servem lgrimas fingidas - disse Anglica rudemente. - No  assim que voc evitar a tunda de vassoura que o espera do outro lado desta vida. 
 pondo-se a trabalhar, mestre Bourjus. Brbara  uma boa moa, mas sem iniciativa.  preciso dizer-lhe o que ela deve fazer. Seu sobrinho tem um ar apalermado. 
E os fregueses no entram numa loja onde os acolhem rosnando como co de guarda.
  - Quem  que rosna? - perguntou mestre Bourjus, retomando seu ar ameaador.
  - O senhor.
  - Eu?
  - Sim. E sua mulher, que era to alegre, no o teria suportado trs minutos com a cara que o senhor mostra diante do seu jarro de vinho.
  - E voc acredita que ela teria suportado ver em seu ptio uma rapariga insolente e suja como voc?
  - Eu no estou suja - protestou Anglica, endireitando-se. - Minhas roupas so limpas. Examine-as por si mesmo.
  - Voc acredita que ela teria suportado ver em sua cozinha seus garotos descarados, verdadeiros rebentos de rapa-bolsas? Eu os surpreendi a fartarem-se de toucinho 
na minha adega, e estou certo de que foram eles que roubaram meu relgio.
  - Aqui est seu relgio - disse Anglica, tirando desdenhosamente o objeto de seu bolso. - Encontrei-o sob os degraus da escada. Suponho que o senhor o perdeu 
ontem  noite, ao subir para deitar-se, completamente bbado...
  Ela estendeu o relgio por cima do poo na direo do r-tisseur e acrescentou:
  - Veja que no sou uma ladra. Poderia ter ficado com ele.
  - No o deixe cair no poo - disse o homem, inquieto.
  - Seria melhor que eu fosse at a, mas tenho medo de sua concha.
  Resmungando uma praga, mestre Bourjus lanou ao cho a concha. Anglica aproximou-se dele com ar matreiro. Sentia que sua experincia da noite com o capito da 
ronda no tinha deixado de ensinar-lhe algumas pequenas coisas sobre a arte de seduzir os desabridos e de fazer frente aos brutos. Mostrava uma nova desenvoltura, 
que doravante no lhe seria intil.
  No se apressou em entregar o relgio.
  -  um belo relgio - disse ela, examinando o objeto com interesse. De novo se iluminou o semblante do rtisseur.
  - Voc acha? Comprei-o a um bufarinheiro do Jura, um desses montanheses que passam o inverno em Paris com seus pacotes. Eles tm verdadeiros tesouros nos bolsos... 
Mas no o tiram para todo o mundo, mesmo para.os prncipes. E preciso que eles saibam a quem os oferecem.
  - Preferem negociar com os verdadeiros comerciantes a faz-lo com os patetas... Sobretudo quando se trata dessas pequenas mquinas, verdadeiras obras de arte.
  - E como voc diz: verdadeiras obras de arte - repetiu o rtisseur, fazendo a caixa de prata do seu relgio refletir a luz do tmido sol que se esgueirava entre 
duas nuvens.
  Depois ele o colocou em seu bolsinho, prendeu as numerosas correntes e berloques em suas botoneiras e lanou de novo um olhar desconfiado sobre Anglica.
  -        Eu me pergunto a mim nesmo como pde este relgio cair do meu bolso - disse ele - e, tambm, aonde voc vai buscar esses modos de falar como dama de 
qualidade, quando outro dia falava gria, a ponto de fazer-nos arrepiar os cabelos. Creio que voc est procurando embair-me, pois no passa de uma prostituta.
  Anglica no se perturbou.
  -        No  fcil discutir com o senhor, mestre Tiago - disse ela num tom de reproche. - Conhece muito bem as mulheres.
  O rtisseur cruzou os braos curtos sobre o ventre e assumiu um ar feroz.
  -        Eu as conheo, e no me deixo tapear por elas!
  E deixou decorrer um pesado silncio, com os olhos fitos na culpada, que abaixou a cabea.
  -        E ento? - tornou ele em tom peremptrio.
Anglica, mais alta que ele, achava-o muito divertido com seu gorro sobre a orelha e seu ar severo. Disse,, no entanto, humildemente:
  -        Farei o que me disser, mestre Bourjus. Se me expulsar om meus dois filhos, eu irei embora. Mas no sei para onde lr  para onde levar meus pequenos a 
fim de preserv-los do frio e da chuva. Acredita que sua mulher nos teria escorraado? Eu estou alojada no quarto de Brbara. No o perturbo. Tenho minha lenha e 
minha comida. Os garotos e a mocinha que esto comigo poderiam prestar-lhe alguns pequenos servios: carregar gua, esfregar o piso. Os bebes ficaro l em cima...
  -        E'por que ficaro l em cima? - gritou o rtisseur. - O lugar das crianas no  num pombal, mas na cozinha, perto do fogo, onde elas possam aquecer-se 
e passear  vontade. Assim so as mendigas!... Tm menos entranhas que os animais! Traga, pois, os seus bebs para a cozinha, se no quer que eu me zangue! Sem levar 
em conta que voc poderia atear fogo, l em cima, s minhas telhas de madeira!... 
  Anglica subiu, com uma ligeireza de elfo, os sete andares que levavam  mansarda de Brbara. As casas eram extremamente altas e estreitas, naquele bairro comercial, 
onde se amontoaram na Idade Mdia, sob a tumultuosa arremetida da cidade em pleno crescimento. No havia mais de duas peas por andar, ordinariamente uma s.
  Num dos patamares, Anglica cruzou com uma silhueta furtiva, na qual reconheceu Davi, o sobrinho do patro. O aprendiz de cozinheiro encostou-se  parede e lanou-lhe 
um olhar ressentido. Anglica no se lembrava mais das palavras realistas que lhe havia lanado em rosto no dia em que, pela primeira vez, tinha vindo ver Brbara 
no Galo Atrevido. 
  Ela sorriu-lhe, decidida a fazer amigos naquela casa onde desejava recomear uma existncia honrada.
  - Bom dia, garoto.
  - Garoto? - grunhiu ele com um sobressalto. - Far-lhe-ei notar que poderia comer pasteizinhos sobre a sua cabea.  Eu j tinha dezesseis anos por ocasio das ltimas 
vindimas. 
  - Oh! Perdo, senhor! Eis um grosseiro erro da minha parte. Ser que teria a gentileza de me desculpar?
  O rapaz, que, segundo toda aparncia, no estava acostumado a tais gracejos, ergueu canhestramente os ombros e balbuciou:
  - Talvez.
  - O senhor  muito bom. Estou comovida. E teria, igualmente, a boa educao de no tratar familiarmente por "voc" uma dama de qualidade?
  O pobre aprendiz de rtisseur pareceu subitamente em suplcio. Ele tinha olhos negros bastante belos em seu rosto magro e plido de grande pateta. Sua firmeza 
o abandonara.
  De repente, Anglica, que recomeava a subir a escada, parou.
  - Voc, com semelhante sotaque, voc  do Midi, com certeza.
  - Sim... senhora. Sou de Toulouse.
  - Toulouse! - exclamou a jovem. - Oh! Um "irmo de minha terra"!
  Ela saltou-lhe ao pescoo e beijou-o.
  -        Toulouse! - repetiu.
  O rapaz estava vermelho como um tomate. Anglica disse-lhe ainda algumas palavras em lngua d'oc, e a emoo de Davi redobrou.
  - A senhora  de l,-ento?
  -        Quase.
  Ela estava ridiculamente feliz com aquele encontro. Que contraste! Ter sido uma das grandes damas de Toulouse e chegar a beijar um ajudante de cozinha, porque 
ele tinha na lngua aquele acento de sol, com cheiro de alho e de flores!
  -        Uma cidade to bela - murmurou a jovem. - Por que no ficou em Toulouse?
  Davi explicou:
  -        Primeiramente, meu pai morreu. Alm disso, ele sempre desejou que eu viesse a Paris, onde se podem fazer grandes vendas, para aprender o ofcio de limonadeiro. 
Ele era especieiro. Vim para Paris e cheguei exatamente no dia em que minha tia, mestra Bourjus, morria de bexigas. Nunca tive sorte. Fico sempre para o lado.
  Ele parou para engolir a saliva.
  -        A sorte chegar - prometeu Anglica continuando a subir.        
  Na mansarda, ela encontrou Rosina, que coava a cabea, vigiando com olho bovino os movimentos de Florimond e Cantor. Brbara estava no rs-do-cho. Os rapazes 
tinham ido se balader. Em linguagem da matterie, isso queria dizer que eles tinham ido pedir esmolas.
  - No quero que eles mendiguem - disse Anglica, peremptria.
  - Voc no quer que eles roubem, no quer que eles mendiguem. Ento, que quer que eles faam?
  - Que trabalhem.
  - Mas isso  trabalho! - protestou a mocinha.
  - No. E agora, mexa-se! Ajude-me a levar os meninos para a cozinha. Voc os vigiar e ajudar Brbara.
  Ela sentiu-se feliz em deixar as duas crianas naquele vasto domnio de calor e de aromas culinrios. O fogo ardia na lareira com um novo ardor.
  "Que eles no mais tenham frio, que no mais tenham fome!", repetia consigo mesma Anglica. "Eu no podia fazer melhor por eles do que traz-los para uma rtisserie!"
  Florimond estava todo afogado em uma camisolinha de estamenha cinza-parda, um corpete de sarja amarela e um avental de sarja verde. Tinha na cabea uma touca de 
sarja igualmente verde. Essas cores faziam parecer ainda mais doentio o seu semblante. Ela apalpou-lhe a fronte e pousou os lbios no cncavo da pequenina mo, para 
ver se ele estava com febre. Ele parecia disposto, embora um pouco caprichoso e resmungo. Quanto a Cantor, distraa-se desde cedo em desembaraar-se das faixas 
com que Rosina havia procurado, alis desajeitadamente, envolve-lo. Na cesta em que o puseram, ele logo se levantou, nu como um cupido, e pretendia escapar-se para 
ir agarrar as labaredas.
  - Esse menino no foi educado - observou Brbara com preocupao. - Enfaixaram-lhe ao menos os braos e as pernas, como se deve? Ele no se manter direito e arrisca-se 
mesmo a ficar corcunda.
  - No momento, ele parece muito slido para uma criana de nove meses - disse Anglica, que admirava as ndegas rolias de seu caula.
  Mas Brbara no estava tranquila. A liberdade de movimentos de Cantor atormentava-a.
  -        Logo que eu tenha um momento de folga, cortarei umas tiras para enfaix-lo. Mas esta manh no ser possvel. Mestre Bourjus anda impertinente. Imagine, 
senhora, que ele me deu ordem de limpar o lajedo, lustrar as mesas e, alm disso, o fez correr ao Temple para comprar giz macio, a fim de polir os estanhos. Eu perco 
a cabea.
  -        Pea a Rosina que lhe ajude.
  Tendo posto em ordem todo o seu mundo, Anglica tomou alegremente o caminho do'Pont Neuf.
  A florista no a reconheceu. Anglica teve de lhe dar indicaes precisas sobre o dia em que a tinha ajudado a fazer buques e recebera seus elogios.
  -        Oh! Como queria que eu a reconhecesse? - exclamou a boa mulher. - Naquele dia voc tinha cabelos e no tinha sapatos. Hoje voc tem sapatos e no tem 
cabelos. Enfim, espero que seus dedos no tenham mudado... Pode vir sentar-se junto de ns. Trabalho no falta, na poca de Todos os Santos. Breve os cemitrios 
e as igrejas vo florir, sem falar dos retratos de defuntos.
  Anglica sentou-se debaixo do guarda-sol vermelho e entregou-se  tarefa com habilidade.
  No erguia os olhos, receando perceber, no horizonte colorido do rio, a velha silhueta da Tour de Nesle, ou reconhecer algum mendigo de Calembredaine entre os 
transeuntes do Pont Neuf.
  Mas o Pont Neuf estava calmo nesse dia. Nem mesmo se ouvia a voz tonitruante do Grande Mateus, porque ele tinha levado seu carro-plataforma e sua orquestra para 
a feira de Saint-Germain.
  O Pont Neuf sofria um eclipse. Havia menos basbaques, menos saltimbancos, menos mendigos. Anglica estava contente.
  As mercadoras falavam, com grandes lamentaes, da batalha da feira de Saint-Germain. Ainda se recenseavam, parecia, os cadveres dessa rixa particularmente sangrenta. 
Mas, pela primeira vez, a polcia estivera  altura de sua misso. Desde a famosa tarde, viam-se passar pelas ruas levas de mendigos, conduzidos pelos archeiros 
dos pobres ao Hospital Geral, ou ainda grupos de forados partindo para as gals.
  Quanto s execues, cada nova aurora alumiava dois ou trs enforcados na Place de Greve.
  Discutiu-se em seguida, com entusiasmo, sobre os atavios que ostentariam as damas floristas e laranjeiras do Pont Neuf, quando fossem, com as peixeiras do mercado 
central, apresentar seus cumprimentos de mercadoras de Paris  jovem rainha parturiente e ao monsenhor, o delfim.
  -        Enquanto espero - tornou a patroa de Anglica -, outro assunto me preocupa. Onde ir nossa confraria festejar com o banquete habitual o dia de So Valbuno? 
O taberneiro dos Bons-Enfants roubou-nos como um salteador, no ano passado. No quero mais meter um soldo em sua sacola.
  Anglica tomou parte na conversao que havia escutado, at a, de boca fechada, como deve fazer uma aprendiz respeitosa.
  -        Conheo uma excelente rtisserie na Rue de la Vale-de-Misre. L os preos so mdicos e fazem-se pratos suculentos e frescos.
  Enumerou, rapidamente, as especialidades da mesa da Gaia Cincia, nas quais havia outrora metido a mo:
  - Pastis de lagosta, perus recheados com funcho, caarolas de tripas de cordeiro, sem falar de massa de amndoas com pistcio, rissoles, barquilhos com anis. 
Mas tambm, senhoras, comero nessa rtisserie alguma coisa que nem Sua Majestade Lus XIV j viu em sua mesa: pequenos brioches, quentes e leves, com uma noz defoiegras 
cristalizado. Verdadeira maravilha!
  - Upa! Minha filha, voc nos pe gua na boca - exclamaram as vendedoras, com o rosto j congestionado pela gulodice. - Qual  o seu estabelecimento?
  - O Galo Atrevido, a ltima rtisserie da Rue de la Valle-de-Misre, em direo do Quai des Tanneurs.
  - Palavra que nunca pensei que l se preparasse to boa comida. Meu homem, que trabalha no Grande Aougue, vai ali s vezes fazer uma colao e diz que o lugar 
 triste e pouco atraente.
  - A senhora est mal informada, minha amiga. Mestre Bourjus, o patro, acaba de receber de Toulose um sobrinho, que  timo cozinheiro e conhece toda sorte de 
pratos merijionais. No se esquea de que Toulose  uma das cidades Ja Frana em que as flores so rainhas. So Valbuno ficar encantado ao se ver festejar sob tal 
gide! E h tambm no Galo Atrevido um macaquinho que faz um cento de caretas. E um tocador de sanfona, que sabe todas as canes do pont Neuf. Em resumo, tudo o 
que  necessrio para algum se divertir em boa companhia.
  - Minha filha, voc me parece ainda mais dotada para fazer panegricos do que para amarrar as flores. Vou acompanh-la ao restaurante.
  - Oh, no hoje. O cozinheiro tolosano partiu para o campo a fim de escolher ele mesmo as couves de uma panelada de presunto, de que possui o segredo. Mas, amanh 
de tarde, esper-las-emos,  senhora e s damas de sua companhia, a fim de discutir o cardpio que lhes convenha.
  - E voc, que faz nessa rtisserie?
  -- Sou parenta de mestre Bourjus - afirmou Anglica.
  Recordando-se de que da primeira vez em que a mercadora a tinha visto, ela estava com semblante muito mais triste, explicou:
  - Meu marido era um pequeno pasteleiro. No tinha ainda feito exame para tornar-se mestre, quando morreu de peste, neste inverno. Deixou-me na misria, pois tnhamos 
contrado grandes dvidas no boticrio com a sua doena.
  - Sabemos o que significam as contas do boticrio! - suspiraram as boas mulheres, erguendo os olhos para o cu.
  - Mestre Bourjus recolheu-me por piedade, e eu o ajudo no seu negcio. Mas, como a sua clientela  rara, eu procuro ganhar algum dinheiro noutro lugar.
  - Como se chama, minha bela?
  - Anglica.
  Nesse instante ela se levantou e disse que ia partir para avisar imediatamente o rotisseur.
  Voltando rapidamente  Rue de la Vall-de-Misre, ela se admirava de todas as mentiras que havia pregado em uma s manh. No procurava compreender a ideia que 
a tinha assaltado de recrutar clientes para mestre Bourjus. Quereria testemunhar seu reconhecimento ao rtisseur por no a ter expulsado? Esperava, de sua parte, 
uma recompensa? No fazia a si a mesma nenhuma pergunta. Seguia a corrente que a levava a fazer uma coisa, depois outra. O instinto da me que defende seus filhos, 
subitamente aguado, lanava-a para a frente.
  De mentira em mentira, de ideia em ideia, de audcia em audcia, chegaria a salvar-se e a salvar seus filhos. Disso ela estava certa!
  
  CAPTULO XVIII
  
  O banquete da corporao das floristas
  
  Na manh seguinte, Anglica levantou-se ao romper da alva, e foi ela quem despertou Brbara, Rosina e os meninos.
  -        Vamos, de p, companheiros! No nos esqueamos de que as floristas vm conversar conosco sobre o banquete da confraria. Precisamos encher-lhes os olhos.
  Flipot resmungou um pouco.
  - Por que somos sempre ns que trabalhamos? - perguntou. - Por que dorme ainda esse indolente Davi e s desce para a cozinha quando o fogo j est aceso, a panela 
quente e toda a sala varrida? Deveria dar-lhe uma sacudidela, marquesa!
  - Ateno, rapazes, eu no sou mais a Marquesa dos Anjos, e vocs no so mais mendigos. Atualmente, somos domsticos, criados e caixeiros. E em breve seremos 
burgueses.
  - Merda, ento - disse Flipot. - Eu no gosto dos burgueses. Aos burgueses a gente rouba a bolsa, toma o capote. No quero transformar-me num burgus.
  - E como vamos cham-la, se no  mais a Marquesa dos Anjos? - perguntou Linot.
  - Chame-me: senhora, e diga-me: sim, senhora.
  - Nada disso! - mofou Flipot.
  Anglica deu-lhe um carolo que o fez compreender que a vida se tornava sria. Enquanto ele choramingava, ela veri-hcou o traje dos dois garotos. Estavam vestidos 
com roupas de pobres, enviadas pela Condessa de Soissons, cerzidas e feias, mas limpas e decentes. Alm disso, tinham grandes sapatos slidos, ferrados, com os quais 
andavam desajeitadamente, mas que os preservariam do frio durante todo o inverno.
  -        Flipot, voc vai acompanhar-me, com Davi, ao mercado. Linot, voc far o que Brbara mandar. Ir buscar gua, lenha etc. Rosina vigiar os meninos e os 
espetos na cozinha.
  Flipot suspirou tristemente:
  -        No  nada divertida esta nova profisso. Como mendigo e rapa-bolsas, leva-se vida de gente da alta. Um dia, tem-se muito dinheiro: come-se a ponto de 
rebentar e bebe-se at cair. Outro dia no se tem nada. Ento, para no sentir fome, a gente se deita num canto e dorme quanto quiser. Aqui,  s trabalhar e comer 
ensopado.
  -        Se quer voltar ao Grande Cosre, no o retenho.
Os dois meninos protestaram:
  -        Oh, no. Alis, no temos mais direito. Eles nos estripariam.
  Anglica suspirou.
  -        E a aventura que lhes falta, meus rapazes. Eu os compreendo. Mas tambm existe o patbulo no final. Enquanto, por este novo caminho, ns seremos talvez 
menos ricos, mas tornar-nos-emos pessoas consideradas. Vo, mexam-se!
  Toda a pequena tropa desceu barulhentamente a escada. Num dos andares, Anglica parou, tamborilou  porta do quarto do jovem Chaillou e acabou por entrar.
  -        De p, aprendiz!
  O adolescente levantou, na beira de seu lenol, um rosto aturdido.
  -        De p, Davi Chaillou! - repetiu alegremente Anglica. - No se esquea de que a partir de hoje voc  um clebre cozinheiro, cujas receitas toda Paris 
desejar.
  Mestre Bourjus, azafamado, suspiroso, excitado a contragosto e galvanizado pela autoridade de Anglica, consentiu em lhe entregar uma bolsa bem fornida.
  -        Se o senhor teme que eu o roube, pode seguir-me at o mercado - disse-lhe ela -, mas faria melhor ficando aqui para preparar capes, perus, patos e assados. 
Compreenda que as damas que chegaro daqui a pouco querem encontrar um ambiente que lhes inspire confiana. Um mostrurio vazio ou com aves empoeiradas, uma sala 
escura e cheirando a tabaco velho, um ar de pobreza e desconforto, isso no tenta as pessoas decididas a realizar um festim. Eu teria prometido em vo o cardpio 
mais excepcional; elas no me acreditariam.
  -Mas que comprar voc esta manh, se a escolha dessas pessoas ainda no foi resolvida?
  -Vou comprar a decorao.
  -O... qu?
  -Tudo o que falta para que sua casa se torne atrativa: coelhos, peixes, frios, frutas, belas hortalias.
  -Mas isto no  casa de pasto! - lamentou-se o gordo homem. - Apenas asso e .vendo carnes. Quer fazer-me perseguir pelas corporaes dos mestres cozinheiros e 
pasteleiros?
  -Que podem eles fazer?
  -As mulheres no tm a mnima noo dessas questes srias - gemeu mestre Boufjus, levantando os braos curtos para o teto. - Os jurados dessas corporaes vo 
mover-me processo, levar-me  justia. Em resumo, voc quer
arruinar-me?
  -O senhor j est arruinado - fulminou Anglica. - Ento, nada a perder tentando outra coisa e sacudindo-se um
pouco. V dar uma volta pelo Quai de Greve. Ouvi um vendedor de vinho anunciar uma bela chegada de barricas de Bourgogne e de Champagne.
  Na Place du Pilori, Anglica fez suas compras procurando no se deixar roubar muito. Davi complicava as coisas no cessando de repetir:
  - E bom demais! E muitssimo caro! Que dir meu tio?...
  - Imbecil! - acabou ela por atirar-lhe. - No tem vergonha, voc, um rapaz do sul, de olhar as coisas to mesquinhamente como um avarento de corao gelado? No 
me diga mais que  de Toulouse.
  - Sou de Toulouse, sim - protestou o ajudante de cozinha. - Meu pai era o Sr. Chaillou. Este nome no lhe diz nada?
  - No. Que fazia precisamente seu pai?
  Davi pareceu decepcionado como um menino a quem se tomou seu bombom.
  -        Mas a senhora bem o sabe! Ele era o grande especieiro da Place de la Garonne! O nico que tinha ervas exticas para perfumar os pratos!
  "Naqueles tempos no era eu quem fazia as minhas compras", pensou Anglica.
  -        Ele tinha trazido das suas viagens muitas coisas desconhecidas, tendo sido cozinheiro nos navios do rei - tornou
Davi. - A senhora bem sabe... Foi ele quem quis lanar o chocolate em Toulouse.
  Anglica fez um esforo para extrair da memria um incidente que a palavra "chocolate" lhe sugeria. Sim, havia-se falado disso nos sales. Ocorreu-lhe o protesto 
de uma dama tolosana, e ela disse:
  -        O chocolate?... Mas isso  bebida de ndio!
  Davi pareceu muito perturbado, pois as opinies de Anglica j tinham para ele uma importncia desmesurada.
  Aproximou-se dela e disse-lhe que, para convenc-la da excelncia das ideias do senhor seu pai, ia confiar-lhe um segredo que no havia ainda transmitido a ningum, 
nem mesmo a seu tio.
  Ele assegurou que seu pai, grande viajante quando jovem, tinha provado o chocolate de diferentes pases estrangeiros, onde o fabricavam com gros importados do 
Mxico. Assim, na Espanha, na Itlia e at na Polnia, ele pudera persuadir-se da excelncia do novo produto, que era de gosto agradvel e possua excelentes qualidades 
medicinais.
  Uma vez empolgado pelo assunto, o jovem Davi mostrou-se inesgotvel. Em seu desejo de prender o interesse da dama de seus pensamentos, ele se ps a demonstrar, 
com voz estridente, tudo o que sabia sobre a questo.
  - Brrr! - fez Anglica, que escutava com um s ouvido. - Jamais provei essa coisa e no me sinto tentada a faz-lo. Dizem que a rainha, que  espanhola, muito 
a aprecia. Mas a corte inteira est perplexa diante desse gosto extravagante e faz zombaria dela.
  -  porque as pessoas da corte no esto habituadas ao chocolate - afirmou, no sem lgica, o aprendiz de cozinheiro. - Meu pai assim pensava, e obteve uma carta-patente 
do rei para fazer conhecer esse novo produto. Mas, ai! Ele morreu e, como minha me j estava morta, s existo eu para utilizar a carta-patente. No sei como agir. 
Tambm no falei do assunto a meu tio. Tenho medo de que ele troce de mim e de meu pai. Ele repete sempre que meu pai era doido.
  -        Voc tem essa carta? - perguntou de repente Anglica, parando e arriando seus cestos a fim de olhar fixamente seu jovem namorado.
  Este quase desfaleceu ante o esplendor daqueles olhos verdes. Quando o pensamento de Anglica estava ocupado com uma reflexo mais ou menos intensa, seus olhos 
tomavam uma luminosidade quase magntica, que no podia deixar de impressionar seu interlocutor, tanto mais que no se podia sempre explicar a causa da luminosidade.
  O pobre Davi era, por esses olhos, uma vtima perdida antecipadamente. No resistiu.
  - Voc tem a carta? - repetiu Anglica.
  - Tenho - sussurrou ele.
  - Qual  a data?
  - Vinte e oito de maio de 1659, e a autorizao  vlida por vinte e nove anos.
  - Em suma, durante vinte e nove anos voc est autorizado a fabricar e lanar no comrcio esse produto extico?
  - Estou, sim...
  - Seria preciso saber se o chocolate no  perigoso - murmurou Anglica, pensativa -, e se o pblico poderia passar a gostar dele. Voc j o bebeu?
  - J.
  - Que e que acha?
  - Eu - disse Davi -, eu o acho antes adocicado. Quando se lhe junta pimenta e pimento, ele adquire um sabor picante. Mas, de minha parte, prefiro um bom copo 
de vinho - ajuntou ele, assumindo um ar alegre.
  - Olha a gua! - gritou uma voz acima deles.
  No tiveram tempo seno de dar um saltopara o lado, a fim de evitar a ducha malcheirosa. Anglica tinha agarrado o brao do aprendiz. Sentiu-o estremecer.
  -        Eu queria dizer-lhe - balbuciou ele com precipitao-, eu nunca vi uma... uma mulher to bela como a senhora.
  -        Voc j viu, sim, meu pobre rapaz - disse ela com leve irritao. - Basta olhar em volta de si em vez de roer as unhas e de se mover feito uma lesma. 
Se quiser dar-me prazer, fale-me do seu chocolate, em lugar de me fazer elogios suprfluos.
  Depois, diante do seu ar lastimvel, ela procurou reconfort-lo. Achou que no era necessrio repeli-lo. Ele podia tornar-se interessante com aquela carta-patente 
de que era possuidor.
  Disse, rindo:
  -        Eu no sou mais, ai de mim, uma jovem de quinze anos, meu rapaz. Olhe como estou velha. J tenho cabelos brancos.
  Puxou de sob a touca a mecha de cabelos to estranhamente embranquecida no transcurso da terrvel noite do Faubourg Saint-Denis.
  -        Onde est Flipot? - continuou Anglica, olhando em derredor. - Ser que esse garoto anda na vadiagem?
  Estava um tanto inquieta, receando que Flipot, na vizinhana das multides, procurasse pr em prtica os ensinamentos de Jactncia, o Rapa-Bolsas.
  -        A senhora faz muito mal em preocupar-se com esse pequeno tratante - observou Davi, em tom de amargo cime.
  -        Eu o vi h pouco trocar uma senha com um mendigo coberto de pstulas, que pedia esmolas diante da igreja. Depois, deu o pira... com seu cesto s costas. 
Meu tio vai ter um de seus acessos!
  - Voc sempre v as coisas pelo lado negro, meu pobre Davi.
  - Eu nunca tive sorte!
  -        Vamos voltar. Havemos de encontrar esse maroto. Mas j o fedelho reaparecia em desabalada corrida, com seus olhos vivos de pardal parisiense, seu nariz 
vermelho, seus longos cabelos rgidos sob um grande chapu amarfanhado. Agarrou-se a ela, bem como ao pequeno Linot, que ela havia arrancado por duas vezes s garras 
de Joo Podre.
  -        Eu nem lhe conto, Marquesa dos Anjos - disse esbaforido Flipot, esquecendo, em sua emoo, todas as instrues.
  -Sabe quem  o nosso Grande Cosre? Traseiro de Pau, minha cara, o nosso Traseiro de Pau de Tour de Nesle!
  Ele abaixou a voz e acrescentou em um murmrio amedrontado:
  -        Disseram-me: "Tomem cuidado, mocinhos, que se es condem nas saias de uma traidora!"
  Anglica sentiu o sangue gelar.
  - Acredita que eles sabem que fui eu quem matou Rolin Tarraco?
  - Nada me disseram. No entanto... Po Negro falou dos soldados que voc foi buscar contra os ciganos.
  - Quem estava l?
  - Po Negro, P Ligeiro, trs velhas das nossas e dois "epilpticos" de outro bando.
  A jovem e o menino tinham trocado essas palavras na gria dos ladres, que Davi no podia compreender, mas cujas entonaes temveis ele reconhecia sem dificuldade. 
Estava ao mesmo tempo inquieto e admirado de sentir as misteriosas relaes de sua nova paixo com aquela corja impalpvel e onipresente que desempenhava grande 
papel em Paris.
  Anglica no falou durante o regresso, mas, logo que atravessou o limiar da rtisserie, sacudiu resolutamente suas apreenses.
  "Minha filha", pensou, "pode ser muito bem que voc acorde, uma bela manh, com a garganta cortada ou vogando nas guas do Sena.  um risco que voc cofre h muito 
tempo. Quando no so os prncipes que a ameaam,"so os mendigos! Que importa? E preciso lutar, mesmo que este dia seja o ltimo que veja brilhar. No se consegue 
sair de dificuldades sem enfrent-las corajosamente e sem se arriscar um pouco... No foi o Sieur Molines quem me disse isso uma vez?"
  -        Vamos, meus filhos - disse ela em voz alta -,  preciso que as damas da corporao das flores se sintam derretidas como manteiga ao sol ao franquearem 
a porta.
  As damas, com efeito, ficaram encantadas quando desceram, ao anoitecer, os trs degraus da entrada do Galo Atrevido. No somente ali reinava um delicioso cheiro 
de folhados, como tambm a aparncia da sala era ao mesmo tempo tentadora e original.
  O grande fogo da lareira lanava, crepitando, sua claridade dourada. Auxiliado por algumas velas postas sobre as mesas vizinhas, ele produzia belos reflexos sobre 
toda a baixela e os utenslios de estanho dispostos com arte sobre os aparadores: panelas, picheis, peixeiras, torteiras. Alm disso, Anglica requisitara algumas 
peas de prata que mestre Bourjus fechava ciosamente em suas arcas: dois gomis, uma vinagreira, dois oveiros, duas lavandas. Estas ltimas foram decoradas com frutas 
- uvas e peras - e dispostas sobre as mesas, ao lado de belas garrafas de vinhos tinto e branco, onde o fogo acendia reflexos de rubi e de ouro. Foram esses detalhes 
que mais surpreenderam a maior parte das floreiras.
  Por terem sido chamadas amide para levar suas mercadorias s grandes casas principescas, por ocasio de algum festim, elas encontravam naquela disposio da prataria, 
das frutas e dos vinhos uma vaga reminiscncia das recepes da nobreza, o que as lisonjeava secretamente.
  Como comerciantes avisadas, no quiseram testemunhar muito abertamente sua satisfao. Lanaram uma olhada crtica s lebres e aos presuntos pendentes das vigas, 
farejaram com desconfiana os pratos de charcutaria, de carne fria, os peixes cobertos de molho verde, apalparam com dedo prevenido as aves. A decana da corporao, 
a quem chamavam tia Marjolaine, encontrou, enfim, a falha daquele quadro perfeito.
  - Faltam flores - disse ela. - Essa cabea de vitelo teria outro aspecto com dois cravos nas narinas e uma penia entre as orelhas.
  - Senhora, ns no quisemos procurar rivalizar, nem sequer por um raminho de salsa, com a graa e a habilidade de que do mostra nesse domnio em que so rainhas 
- respondeu muito galantemente mestre Bourjus.
  As trs simpticas damas foram acomodadas diante do fogo, e um jarro do melhor vinho foi trazido da adega.
  O encantador Linot, sentado na pedra da lareira, girava suavemente a manivela de sua sanfona, e Florimond brincava com Piccolo.
  O cardpio do banquete foi estabelecido numa atmosfera das mais cordiais. Entenderam-se muito bem.
  - E agora? - gemeu o rtisseur, quando, com abundncia de curvaturas, reconduziu as floristas  porta. - Que iremos fazer de todas essas "vigarices" que guarnecem 
nossas mesas? Os artfices e obreiros vo vir por causa da carne com salsa. No sero eles que vo comer essas coisas delicadas, e ainda menos pag-las. Por que 
essa despesa intil?
  -O senhor me surpreende, mestre Tiago - protestou Anglica severamente. -- Eu o supunha mais a par das coisas do comrcio. Esta despesa intil lhe permitiu arpoar 
uma encomenda que lhe trar dez vezes mais do que as suas despesas de hoje. Sem contar que uma vez metidas na festa, no se sabe muito at onde essas damas levaro 
seus gastos. F-las-emos cantar e danar, e os transeuntes, vendo esta rtisserie em que se leva vida divertida, ho de querer seu quinho de prazer.
  Embora no o demonstrasse, mestre Bourjus no deixava de partilhar as esperanas de Anglica. O entusiasmo e a ati-vidade que empregou para os preparativos d 
festim de So Valbuno fizeram-lne esquecer sua inclinao pela garrafa. Ele reencontrou, saltando sobre as pernas curtas, sua agilidade de mestre-cuca e sua voz 
autoritria com os mercadores, assim como a amabilidade natural e untuosa de todo alberguista que se preza. Havendo Anglica conseguido convenc-lo de que uma aparncia 
abastada era necessria para o sucesso de sua empresa, ele chegou a encomendar um costume completo de ajudante de cozinha para seu sobrinho e... outro para Flipot.
  Enormes gorros, jaquetas, calas, aventais, juntamente com as toalhas e os guardanapos, foram enviados s lavadeiras e voltaram rgidos de goma e brancos como 
neve.
  Na manha do grande dia, mestre Bourjus, sorrindo e esfregando as mos, abeirou Anglica.
  -Minha filha - disse ele com amizade -,  verdade que voc tem feito voltar  minha casa a alegria e o entusiasmo que nela fazia reinar outrora minha santa e boa 
mulher. Isso me deu uma ideia. Venha comigo.
  Encorajando-a com uma piscadela cmplice, ele fez-lhe sinal para que o seguisse. Ela subiu atrs dele a escada em caracol. No segundo andar, pararam. Anglica, 
penetrando no quarto conjugal de mestre Bourjus, foi assaltada de um medo que nunca tivera. No acariciaria porventura o rtisseur o projeto de pedir quela que 
comeava a substituir to vantajosamente sua esposa que levasse um pouco mais longe a complacncia nesse papel delicado?
  Sua expresso sorridente e sonsa, enquanto ele fechava a porta e se dirigia com ar misterioso para o guarda-roupa, no era de faz-la tranquilizar-se.
  Tomada de pnico, Anglica perguntou a si mesma como iria enfrentar aquela situao catastrfica.
  Iria ele faz-la renunciar aos seus belos projetos, deixar aquele teto confortvel, partir outra vez com seus dois filhos e seu pequeno bando?
  Ceder? Ela estava com as faces em fogo, e correu angustiada os olhos por aquele quarto de pequeno comerciante, com seu grande leito de cortinas de sarja verde, 
suas duas cadeiras de brao, seu lavatrio de nogueira com uma bacia de rosto e um jarro de prata.
  Por cima da lareira, havia dois quadros que representavam cenas da Paixo e, sobre ganchos, as armas, orgulho de todo artfice e burgus: dois pequenos fuzis, 
um mosquete, um arcabuz, um pique, uma espada com guarda e punho de prata.
  O dono do Galo Atrevido, to mole na vida ordinria, era sargento da milcia burguesa, e isso no lhe desagradava. Contrariamente a muitos de seus colegas, ele 
se apresentava com muito gosto ao Chtelet, quando chegava seu turno de ronda.
  Naquele instante, Anglica ouvia-o arquejar e debater-se ruidosamente era um pequeno compartimento vizinho.
  Reapareceu empurrando uma grande arca de madeira enegrecida.
  -        Ajude-me, minha filha.       
  Ela ajudou-o a puxar a arca at o meio do aposento. Mestre Bourjus enxugou a fronte.
  -        Eis aqui - disse ele -, eu pensei... Enfim, foi voc mesma que me repetiu que, para esse banquete, era preciso que estivssemos todos to belos como guardas 
suos. Davi, os dois ajudantes de cozinha, eu mesmo, estaremos armados. Vestirei minha cala de seda parda. Mas  voc, minha pobre filha, que no nos orgulha, 
apesar de sua cara bonita. Ento, eu pensei...
  Ele se interrompeu, hesitou, depois abriu a arca. Cuidadosamente arrumadas e perfumadas por um galho de alfazema, havia l vasquinhas da Sra. Bourjus, seus corpetes, 
suas toucas, seus lenos de pescoo, seu belo capirote de fazenda negra com quadrados de cetim.
  -        Ela era um pouco mais gorda que voc - disse o rtisseur com voz abafada. - Mas, com alfinetes...
  Com um dedo enxugou uma lgrima e rosnou subitamente:
  -        No fique a a olhar-me! Faa sua escolha.
  Anglica levantou as vestimentas da finada. Eram modestos trajes de sarja, mas os passamanes de veludo, os forros de cores vivas, a finura da roupa-branca, provavam 
que, no fim de sua vida, a dona do Galo Atrevido tinha sido uma das comerciantes mais ricas do bairro. Havia possudo mesmo um pequeno regalo de veludo vermelho 
com ramagens de ouro, que Anglica experimentou em seu pulso com prazer no dissimulado.
  -        Uma loucura! - disse mestre Bourjus, com um sorriso indulgente. - Ela o vira na galeria do Palais e no falava noutra coisa. Eu lhe dizia: "Amandina, 
que far voc com esse regalo? Ele  feito para uma nobre dama do Marais, que vai exibir-se nas Tulherias ou no Cours-l-Reine, por um belo sol de inverno". "Pois 
bem", respondia-me ela, "eu irei exibir-me nas Tulherias e no Cours-la-Reine." E isso me envaidecia. Ofertei-lho no ltimo Natal. Que alegria a sua!... Quem diria 
que poucos dias mais tarde... ela estaria... morta...
  Anglica dominou sua emoo.
  -        Estou certa de que ela gostar de ver, l do cu, como o senhor  bom e generoso. No usarei este regalo, porque  demasiado belo para mim. Mas aceito 
de boa vontade sua oferta, mestre Bourjus. Vou ver o que me convm. Poderia mandar-me Brbara, para que ela me auxilie a ajustar estas roupas?        
  Ela notou, como primeiro passo para o fim a que se propunha, o fato de se achar diante de. um espelho com uma camareira a seus ps. Com a boca cheia de alfinetes, 
Brbara tambm sentia isso e multiplicava os "senhora" com satisfao evidente.
  "E dizer que eu no tenho por toda fortuna seno alguns soldos que me deram as floristas do Pont Neuf e a esmola que me envia diariamente a Condessa de Soissons!", 
pensava divertidamente Anglica.
  Ela escolhera um corpete e uma vasquinha de sarja verde, passamanada de cetim negro. Um avental de cetim preto com orzinhas de ouro completava sua indumentria 
de comerciante abastada. O amplo peito da Sra. Bourjus no permitia o ajuste exato da vestimenta aos pequenos seios firmes e altos de Anglica. Um leno de pescoo 
cor-de-rosa, bordado de verde, disfarou a folga na gola do corpete.
  Em um saquinho Anglica encontrou as jias simples da rtisseuse: trs anis de ouro, guarnecidos de cornalinas e turquesas, duas cruzes, pingentes, e ainda oito 
belos teros, um deles de contas de azeviche e os outros de cristal.
  Anglica desceu, trazendo sob a touca engomada, que dissimulava seus cabelos tosquiados, os brincos de gata e prolas, e, ao pescoo, uma pequena cruz de ouro 
presa a uma fita de veludo negro.
  - Por So Nicolau, voc parece a filha que ns sempre esperamos e que nunca tivemos! s vezes ns sonhvamos com ela. Teria agora quinze anos, dezesseis anos, 
dizamos. Vestir-se-ia desta ou daquela maneira... Iria e viria em nossa loja, rindo alegremente com os fregueses...
  - O senhor  muito gentil, mestre Tiago, em fazer-me esses belos elogios. Ai de mim! J no tenho quinze ou dezesseis anos. Sou me de famlia...
  - No sei o que voc  - disse ele, sacudindo com enternecimento a gorda face vermelha. - Parece meio irreal. Depois que se ps a turbilhonar na minha casa, tenho 
a impresso de que os tempos so outros. No estou muito certo de que voc no desaparecer um dia como veio... Parece-me distante aquela noite em que voc surgiu 
das trevas com seus cabelos sobre as espduas e me disse:"O senhor no tem uma criada chamada Brbara?" Aquilo soou em meu crnio como uma badalada... Aquilo queria 
talvez dizer que voc tinha um papel a desempenhar aqui.
  "Assim o espero", pensou Anglica, mas observou, em tom de repreenso afetuosa:
  - O senhor estava bbado, e por isso  que sentiu uma badalada no crnio.
  Sendo o momento de matizes sentimentais, de pressentimentos msticos, parecia-lhe muito imprprio para conver-sar com mestre Bourjus sobre as recompensas financeiras 
que ela esperava obter para si e seu grupo, por motivo da sua colaborao.
  Quando os homens se pem a sonhar, no convm traz-los bruscamente a um realismo que eles tm muita tendncia para professar. Anglica decidiu empregar todos 
os recursos de sua natureza impulsiva para desempenhar sem falsas notas, durante algumas horas, o fascinante papel de filha do alberguista.
  O festim da confraria de So Valbuno foi um xito, e o prprio santo no lamntou seno uma coisa: no poder reencarnar-se para goz-lo plenamente.
  Trs corbelhas de flores serviram para a decorao das mesas. Mestre Bourjus e Flipot, resplandecentes, faziam as honras da casa e serviam os pratos. Rosina ajudava 
Brbara na cozinha. Anglica ia de um a outro, vigiava as panelas e os espetos, respondia prontamente s saudaes das freguesas e encorajava, alternando louvores 
e censuras, o talento culinrio de Davi, promovido a mestre em especialidades meridionais. Na realidade, ela no se comprometia apresentando-o como um talentoso 
mestre da profisso. Ele sabia muitas coisas, e somente sua preguia, e talvez a falta de oportunidades, o tinha impedido at ento de se revelar. Subjugado pelo 
entusiasmo de Anglica, arrebatado por suas aprovaes, guiado por ela, ele se superou. Fizeram-lhe uma ovao quando ela o trouxe, todo ruborizado,  sala. Aquelas 
damas, alegradas pelo bom vinho, acharam-no de belos olhos, fizeram-lhe perguntas indiscretas e brejeiras, beijaram-no, deram-lhe palmadinhas, fizeram-lhe afagos.
  Com Linot a girar a manivela da sanfona, houve canes, de copo na mo, depois grandes risos quando Piccolo executou seu nmero imitando sem piedade os modos excntricos 
de tia Marjolaine e de suas colegas.
  Entrementes, um grupo de mosqueteiros, que passava pela Rue de la Vall-de-Misre em busca de distraes, notou aquelas gargalhadas alegres e femininas e resvalou 
para a sala do Galo Atrevido, reclamando "assados e vinho".
  A cerimonia tomou uma feio que teria certamente desagradado a So Valbuno, se esse bom santo provenal, amigo do sol e da alegria, no fosse, por natureza, indulgente 
para com a desordem que inevitavelmente geram as reunies de floristas e militares galantes. No dizem que a tristeza  um pecado? E, se quer rir descontraidamente, 
no existem vinte maneiras. A melhor ainda  estar em uma tpida sala, impregnada de odores de vinhos, de molhos e de flores, com um pequeno sanfonineiro raivoso 
que faz saltar e cantar aos presentes, um smio que os diverte, e frescas mulheres risonhas, nada bravinas, que se deixam beijar  vontade.
  Anglica se concentrou quando o sino da Igreja de Santa Oportuna tocou o angelus. Com as faces esfogueadas, as plpebras pesadas, os braos estourados de carregar 
pratos e canjires, os lbios em fogo de alguns beijos ousados e bigodudos, ela se reanimou ao ver Bourjus contar suas moedas de ouro com ar circunspecto.
  Ela exclamou:
  - No trabalhamos bem, mestre Tiago?
  - Certamente, minha filha. H muito tempo minha loja no via festa igual! E esses senhores no se mostraram to maus pagadores como faziam recear seus penachos 
e suas ta-rascas.
  - No acredita que eles vo trazer seus amigos?
  -  possvel.
  - Eis o que eu proponho - declarou Anglica. - Eu continuo a ajud-lo com todas as minhas crianas: Rosina, Linot, Flipot e o smio. E o senhor me d um quarto 
de seus lucros!
  O rtisseur franziu o sobrolho. Essa maneira de encarar o comrcio continuava a parecer-lhe inusitada. Ele no estava muito certo de no vir a ter, qualquer dia, 
aborrecimentos com as corporaes ou o preboste dos mercadores. Mas as afortunadas libaes da noite enevoavam-lhe a mioleira e entregavam-no sem defesa ao arbtrio 
de Anglica.
  - Faremos um contrato perante o notrio - tornou ela -, mas ficar em segredo. O senhor no tem necessidade de contar suas histrias ao vizinho. Diga que sou uma 
jovem parenta que recolheu, e que trabalhamos em famlia. Ver, mestre Tiago, eu pressinto, que iremos fazer brilhantes negcios. Toda a populao do bairro gabar 
suas habilidades comerciais, e as pessoas o invejaro. Tia Marjolaine j me falou do banquete da confraria das laranjeiras do Pont Neuf, x que cai no dia de So 
Fiacre. Veja bem:  do seu interesse conservar-nos aqui. Olhe, desta vez o senhor me dar isto.
  Contou rapidamente a parte que lhe tocava e retirou-se deixando o bom homem perplexo, mas j convencido de que era um comerciante cheio de audcia.
  Anglica foi ao ptio-para respirar o fresco ar da manh. Apertou com fora as peas de ouro na mo, contra o peito. Aquelas moedas eram a chave da liberdade. 
Decerto, mestre Bourjus no fora roubado. Mas Anglica calculava que, aproveitando seu pequeno grupo as sobras dos festins, tudo o que ela retirasse, e que aumentaria 
na proporo de seus esforos, acabaria por constituir uma fortuna. Ento poderia anar-se a outra coisa. Por exemplo, por que no explorar aquela patente que Davi 
Chaillou pretendia conservar e que concernia  fabricao de uma bebida extica chamada chocolate? Sem dvida as pessoas do povo no apreciariam muito tal bebida, 
mas os jovens elegantes e as "preciosas", vidos de novidades e de extravagncias, talvez a lanassem em moda.
  Anglica j via as carruagens de nobres damas e de nobres senhores enfitados pararem na Rue de la Vall-de-Misre.
  Sacudiu a cabea para afugentar seus sonhos. No devia querer ir muito longe. A vida ainda era precria, instvel. O que devia, sobretudo, era entesourar, entesourar, 
como uma formiga. A riqueza  a chave da liberdade, o "direito de no morrer, de no ver morrer os filhos, o direito de v-los sorrir. "Se meus bens no houvessem 
sido confiscados", pensou, "certamente eu teria podido salvar Joffrey!" Novamente ela sacudiu a cabea. No devia mais pensar nisso. Porque, cada vez que pensava, 
o gosto da morte insinuava-se-lhe nas veias, e ela era presa de um desejo de dormir eternamente.
  Nunca mais ela sonharia com isso. Tinha outra coisa a fazer. Precisava salvar Florimond e Cantor. Ela entesouraria, entesouraria!... Seu ouro, ela o fecharia no 
cofre de madeira, preciosa relquia de um tempo srdido, no qual j guardara o punhal de Rodoguno, o Egpcio. Junto da arma doravante intil, o ouro, essa arma do 
poder, se acumularia.
  Anglica ergueu os olhos para o cu molhado, onde o reflexo dourado da aurora se esfumava, cedendo lugar a um pesado cinza-estanho.
  O vendedor de aguardente apregoava nas ruas a sua mercadoria. Um mendigo,  entrada do ptio, salmodeou sua lamentao. Olhando para ele, Anglica reconheceu Po 
Negro. Po Negro com todos os seus andrajos, todas as suas chagas, todas as suas tralhas de eterno peregrino da misria.
  Tomada de medo, ela correu a buscar uma fatia de po e uma tigela de caldo, e deu-as a ele. O mendigo encarou-a ferozmente, por baixo de suas sobrancelhas brancas 
e espessas.
  
  CAPITULO XIX
  
  Visita ao Louvre e encontro com o ano Barcarola
  
  Durante alguns dias ainda, Anglica dividiu suas habilidades entre as caarolas de mestre Bourjus e as flores de tia Marjolaine. A florista havia-lhe pedido ajuda, 
pois o nascimento do herdeiro real se aproximava, e aquelas damas estavam sobrecarregadas de servio.
  Num dia de novembro, quando elas estavam sentadas no Pont Neuf, o relgio do palcio comeou a soar. O boneco da Samaritana agarrou seu martelo, e ouviram-se ao 
longe os tiros surdos do canho da Bastilha:
  Toda a populao de Paris enlouqueceu de alegria.
  - A rainha deu  luz! A rainha deu  luz! Ofegante, a multido contava:
  - Vinte, vinte e um, vinte e dois...
  Ao vigsimo terceiro tiro, as pessoas comearam a se agarrar. Alguns diziam que era o vigsimo quinto, outros que era o vigsimo segundo. Os otimistas estavam 
adiantados; os pessimistas, atrasados. E os repiques, os carrilhes, os disparos de canho continuaram a inundar Paris em delrio. No avia mais dvida: era um menino!
  -        Um delfim! Um delfim! Viva o delfim! Viva a rainha! Viva o rei!
  Todos se abraavam e beijavam. O Pont Neuf explodiu em canes. Danavam-se de mos dadas. As lojas e as oficinas fecharam suas portas. As fontes vomitaram torrentes 
de vinho. Em grandes mesas, armadas nas ruas pelos criados do rei, regalava-se o povo com pastis e doces. De noite houve grande queima de fogos de artifcio.
  Quando a rainha voltou de Fontainebleau e se reinstalou no Louvre com o real pimpolho, as corporaes da cidade prepararam-se para levar-lhe os cumprimentos.
  Tia Marjolaine disse a Anglica:
  - Voc ir tambm. No  muito regular, mas eu a nomearei aprendiz para levar meus cestos de flores. No est contente por ir ver a morada dos reis, o belo palcio 
do Louvre? Parece que os quartos ali so grandes e altos como igrejas!
  Anglica no ousou recusar. A honra que lhe fazia a boa mulher era grande. Alm disso, embora lhe custasse admiti-lo, ela estava ansiosa por tornar a ver aqueles 
lugares, palco de tantos acontecimentos e dramas de sua vida. Veria a Grande Mademoiselle, com os olhos inchados de lgrimas comovidas, a insolente Condessa de Soissons, 
o espirituoso Lauzun, o tenebroso De Guich, De Vardes?... Entre aquelas, grandes damas e grandes senhores, quem se lembraria de reconhecer, no meio das negociantes, 
a mulher que, ainda havia pouco, em seus vestidos de corte, com os olhos ardentes, seguida de seu mouro impassvel, percorria os corredores do Louvre, ia de um a 
outro, inquieta, depois suplicante, reclamando a impossvel graa para um esposo condenado antecipadamente?
  No dia aprazado, ela se encontrou no ptio do palcio, onde as floristas, as laranjeiras do Pont Neuf e as peixeiras do mercado geral misturavam suas vozes sonoras 
e suas saias engomadas. Acompanhavam-nas suas mercadorias, igualmente belas mas de odores diferentes.
  Cestas de flores, cestos de frutas e barriletes de arenques iam ser depositados, lado a lado, diante de monseigneur delfim, que devia tocar igualmente, com sua 
mozinha, as rosas macias, as laranjas resplandecentes e os belos peixes de prata.
  Quando aquelas damas, em grupo ruidoso e odorfero, subiam a escada que conduzia aos apartamentos reais, cruzaram com o nncio apostlico, que acabava de entregar 
o enxoval do herdeiro presuntivo do trono da Frana, tradicionalmente ofertado pelo papa "a fim de testemunhar que ele o reconhecia como filho primognio da Igreja".
  Na antecmara onde as fizeram esperar, as boas mulheres extasiaram-se diante das maravilhas extradas de trs caixas de veludo vermelho com guarnies de prata.
  Fizeram-nas passar, em seguida, ao quarto da rainha. As damas das corporaes de mercadoras ajoelharam-se e pronunciaram seus discursos. Ajoelhada como elas sobre 
os tapetes de cores vivas, Anglica vra, na penumbra do leito passamanado de ouro, a rainha estendida em um vestido luxuoso. Ela sempre tinha aquela expresso um 
tanto fria que j apresentava em Saint-Jean-de-Luz, ao sair dos sombrios palcios madrilenos. Mas a moda e os penteados franceses convinham-lhe menos que seus fantsticos 
atavios de infanta e seus cabelos tufados de cachos postios, que outrora emolduravam em largas linhas hierticas seu rosto e sua silhueta de jovem dolo prometido 
ao Rei-Sol.
  Me satisfeita, esposa amorosa tranquilizada pelas atenes do rei, a Rainha Maria~Teresa dignou-se a sorrir ao grupo vistoso e alegre que sucedia  sua cabeceira, 
 companhia cheia de uno da embaixada apostlica. O rei estava a seu lado e sorria.
  Na cruel emoo que a invadiu quando ela se encontrou de joelhos, aos ps do rei, misturada quelas humildes mulheres, Anglica sentiu-se como cega e paralisada. 
Ela no via seno o rei.
  Mais tarde, quando se achou fora do aposento com suas companheiras, disseram-lhe que a rainha-me tinha estado presente, bem como a Sra. d'Orlans e a Srta. de 
Montpen-sier, o Duque d'Enghien, filho do Prncipe de Conde, e vrios moos e moas das respectivas famlias.
  Ela nada vira, exceto o rei, que sorria, de p sobre os degraus do grande leito da rainha. Tivera muito medo. Ele no mais parecia o jovem que a recebera nas Tulherias 
e que ela quisera sacudir pelos bofes da camisa. Naquele dia, eles tinham estado, um diante do outro, como dois seres de foras iguais e que se batiam ferozmente, 
certos, cada qual, de merecer a vitria.
  Que loucura! Como no havia ela compreendido logo que, sob a aparncia de uma sensibilidade ainda vulnervel, existia naquele soberano um carter inteirio que, 
durante sua vida, no admitiria jamais o mnimo enfraquecimento de sua autoridade! Desde o incio, era o rei quem devia triunfar, e ela, Anglica, por ha v-lo ignorado, 
tinha sido quebrada como uma palha.
  Agora, ela seguia o grupo das aprendizes, que se dirigiam s dependncias de servio para alcanar a sada do palcio. As damas das corporaes ficaram para assistir 
a um grande festim, mas as aprendizes no tinham direito a esses gapes.
  Quando ela atravessava as copas, onde as iguarias estavam prontas para ser transportadas para as salas, Anglica ouviu assoviar atrs de si: um assobio longo, 
dois breves. Reconheceu o sinal do bando de Calembredaine, e pensou que estava sonhando. Ali no Louvre?
  Voltou-se. Atravs de uma porta entreaberta, uma pequena silhueta projetava sua sombra sobre o lajedo.
  -        Barcarola!
  Ela correu para ele num impulso de sincera alegria. O ano inchava de orgulho.
  -        Entre, irmzinha. Entre, minha muito querida marquesa. Venha, vamos palestrar um pouco.
  Ela riu.
  -        Oh! Barcarola, como voc est belo! E como fala bem.
  -        Sou o ano da rainha - disse Barcarola, vaidoso.
Ele a introduziu numa espcie de pequeno locutrio e fez-lhe admirar seu casaco de cetim metade laranja e metade amarelo, fechado por um cinto guarnecido de guizos. 
Entregou-se, em seguida, a uma srie de cabriolas, para que ela pudesse apreciar os sons por eles produzidos. Com os cabelos cortados sobre a nuca, ao nvel da enorme 
gola enrocada, e seu agradvel rosto cuidadosamente barbeado, o ano parecia feliz e bem-disposto. Anglica disse-lhe que o achava rejuvenescido.
  -        Afirmo-lhe que  um pouco o que eu experimento aqui - confessou modestamente Barcarola. - A vida tem os seus atrativos, e eu creio, feitas as contas, 
que agrado bastante s pessoas desta casa. Estou feliz por haver atingido nessa idade o coroamento da minha carreira.
  - Que idade voc tem, Barcarola?
  - Trinta e cinco anos.  o auge da maturidade, o desabrochar de todas as faculdades morais e fsicas do homem. Venha, pois, irmzinha. E preciso que eu a apresente 
uma nobre dama a quem no lhe oculto que dedico um terno sentimento... e que mo retribui inteiramente.
  Afetando um ar de amoroso conquistador, o ano, muito misteriosamente, guiou Anglica ,atravs do escuro ddalo das dependncias do Louvre.
  Introduziu-a num aposento sombrio, onde Anglica viu, sentada por trs de uma mesa, uma mulher de cerca de quarenta anos, extremamente feia e trigueira, e que 
cozinhava qualquer coisa sobre um pequeno fogareiro de prata dourada.
  -        Dona Teresita, apresento-lhe Dona Anglica, a mais bela madona de Paris - anunciou pomposamente Barcarola.
  A mulher verrumou Anglica com seu olhar sombrio e perspicaz, e disse uma frase em espanhol na qual se podia distinguir a expresso "Marquesa dos Anjos". Barcarola 
piscou o olho para Anglica.
  -        Ela pergunta se no  voc essa Marquesa dos Anjos de que eu lhe encho os ouvidos. Veja voc, irmzinha, eu no esqueo meus amigos.
  Tendo eles dado volta  mesa, Anglica percebeu que os ps minsculos de Dona Teresita quase no ultrapassavam a beira do tamborete em que ela se achava empoleirada. 
Era a an da rainha.
  Anglica pegou sua saia com dois dedos e esboou uma pequena reverncia, para mostrar a considerao em que tinha aquela dama de afta categoria.
  Com um movimento de cabea, a an fez sinal  jovem para sentar-se em outro tamborete, e continuou a mexer sua mistura com lentido. Barcarola havia saltado sobre 
a mesa. Ele quebrava e trincava avels, contando a sua companheira histrias em espanhol.
  Um belo galgo branco veio farejar Anglica e deitou-se-lhe aos ps. Os animais gostavam por instinto de estar ao seu lado.
  -         Pistola, o lebru do rei - apresentou Barcarola -, e eis Dorinda e Mignonne, as galgas.
  Era bom e calmo aquele recanto do palcio, onde os dois pigmeus, entre duas cabriolas, vinham abrigar seus amores. O nariz de Anglica palpitava de curiosidade 
ao perfume que se escapava da caarola. Era um odor indefinvel, agradvel, em que dominava um cheiro de canela e de pimenta. Examinou os ingredientes que se achavam 
sobre a mesa: avels e amndoas, um molho de pimentas vermelhas, um pote de mel, um po de acar meio triturado, xcaras cheias de gros de anis e pimenta-do-reino, 
caixas de canela em p. Finalmente, uma espcie de fava que ela no conhecia:
  Absorvida na operao que realizava, a an parecia pouco disposta a conversar com a recm-vinda.
  No entanto, a tagarelice de Barcarola acabou por arrancar-lhe um sorriso.
  - Eu lhe disse - explicou ele a Anglica - que voc me achou rejuvenescido e que eu devia isso  felicidade que ela me proporciona. Minha cara, que vido que eu 
levo aqui! Para falar a verdade, eu me estou aburguesando. Isto s vezes me inquieta. A rainha  muito boa criatura. Quando est muito triste, chama-me para perto 
de si e me d palmadinhas nas bochechas, dizendo: "Ah! Meu pobre rapaz! Meu pobre rapaz!" No estou habituado a essas maneiras. Fico ento com lgrimas nos olhos, 
eu, Barcarola.
  - Por que sente tristeza a rainha?
  - Ela comea a suspeitar que seu homem a engana!
  - Ento  verdade o que se diz, que o rei tem uma favorita?
  - Certamente! Ele a esconde, sua La Vallire. Mas a rainha certamente acabar sabendo. Pobre moa! Ela no  muito esperta e nada conhece da vida. Como voc v, 
irmzinha, olhada de perto, a vida dos princpes no  muito diferente da de seus humildes sditos. Eles-trocam golpes baixos e brigam em casa, como prostitutas 
e bandidos.  preciso v-la, a rainha da Frana, quando ela espera, de noite, a chegada do esposo, que, durante esse tempo, se encontra nos braos de outra mulher. 
Se existe alguma coisa de que possamos orgulhar-nos, ns os franceses, e a capacidade amorosa de nosso rei. Pobre rainha da Frana!
  Decididamente, o cnico Barcarola praticava agora uma filosofia enternecida.
  Ele viu o sorriso de Anglica e dirigiu-lhe uma piscadela.
  -        Faz bem ter, s vezes, belos sentimentos, sentir-se honesto ganhando a vida com um bom trabalho corajoso, no acha, Marquesa dos Anjos?
  Ela nada respondeu, porque o tom adocicado do ano lhe desagradava. Para fugir ao assunto,-ela interrogou:
  - Poderia dizer-me o que  que Dona Teresita prepara com tanto carinho? Essa iguaria exala um odor estranho, ao qual no consigo dar um nome.
  - E o chocolate da rainha.
  De repente, Anglica se levantou e foi olhar na caarola. Viu ali um produto escuro, de consistncia espessa, e que nada tinha de apetitoso. Atravs de Barcarola, 
ela manteve conversao com a an, que lhe explicou que, para levar a bom termo a obra-prima que ela estava executando, eram precisos cem gros de cacau, dois gros 
de chili, ou pimenta do Mxico, um punhado de anis, seis rosas de Alexandria, uma vagem de campeche, duas dracmas de canela, doze amndoas, doze avels e meio po 
de acar.
  - Isso me parece extremamente complicado - disse Anglica, decepcionada. - Ser que, pelo menos,  bom? Eu poderia provar?
  - Provar o chocolate da rainha! Uma mpia, uma mendiga da sua espcie! Que heresia! - exclamou o ano com fingida indignao.
  Embora a an achasse tambm a coisa muito atrevida, estendeu a Anglica, em uma colher de ouro, um pouco da mistura.
  Aquela pasta cortava a boca e era extremamente aucarada. Anglica disse, por polidez, que era excelente.
  - A rainha no poderia passar sem ela - comentou Barcarola. - Ela precisa de vrias xcaras por dia, mas so-lhe levadas em segredo, pois o rei e toda a corte 
zombam dessa sua paixo. Alm dela e de Sua Majestade, a rainha-me, que tambm  espanhola, no h quem o beba no Louvre.
  - Onde se podem achar os gros de cacau?
  - A rainha manda-os vir especialmente da Espanha, por intermdio do embaixador. E preciso torr-los, mo-los, desengordur-los.
  E ajuntou, entre alto e baixo:
  -        No compreendo que algum tenha tanta preocupao por tal horror!
  Nesse momento, uma mocinha entrou apressada na pea e reclamou, em um espanhol precipitado, o chocolate de Sua Majestade. Anglica reconheceu Filipa. Diziam que 
essa menina era uma bastarda do Rei Filipe IV da Espanha, e que a Infanta Maria Teresa, havendo-a encontrado abandonada nos corredores do Escurial, a tinha feito 
educar. Fazia parte da comitiva espanhola que atravessara o Bidassoa.
  Anglica levantou-se e despediu-se de Dona Teresita. O ano acompanhou-a at a pequena porta que dava para o cais do Sena.
  -        Voc no me perguntou o que me tornei - disse-lhe Anglica.
  De repente ela teve a impresso de que o ano se transformara em abbora, pois no via dele seno seu enorme chapu de cetim laranja. Barcarola olhava para o cho.
  Anglica sentou-se na soleira, a fim de ficar da altura do homunculo e olhar nos seus olhos.
  - Responda-me!
  - Eu sei o que voc se tornou. Deixou tombar Calembredaine, e  presa de belos sentimentos.
  - Dir-se-ia que voc me acusa de alguma coisa. No ouviu falar da batalha da feira de Saint-Germain? Calembredaine desapareceu. Quanto a mim, consegui fugir do 
Chtelet. Rodoguno est na Tour de Nesle.
  - Voc no faz mais parte da mendicncia.
  - Voc tambm no.
  - Oh! Eu continuo a fazer parte da mendicncia. Sempn farei parte da mendicncia.  o meu reino - disse Barcarola com estranha solenidade.
  - Quem lhe disse tudo isso a, meu respeito?
  - Traseiro de Pau.
  - Voc tornou a v-lo?
  - Fui render-lhe minhas homenagens. Ele  agora o nosso Grande Cosre. Creio que voc no o ignora.
  - Realmente.
  - Fui jogar na bacia uma bolsa cheia de luses de ouro. Uh! Uh!, minha cara, eu era o mais rico da assembleia.
  Anglica tomou a mo do pigmeu, uma estranha mozinha redonda e rechonchuda como a de uma criana.
  - Barcarola, ser que eles me vo fazer mal?
  - Creio que no existe em Paris uma mulher cuja bonita pele esteja menos presa ao corpo do que a sua.
  No entanto, ele exagerava sua careta. Mas ela compreendeu que a ameaa no era v. Sacudiu a cabea.
  -        No importa! Prefiro morrerTa voltar atrs. Pode diz-lo a Traseiro de Pau.
  O ano da rainha tapou os olhos com gesto trgico.
  -        Ah!  horrvel ver to bela jovem com a garganta aberta!
Quando ela se retirava, ele a agarrou pela saia.
  -        Aqui entre ns: ser melhor que voc mesma o diga a Traseiro de Pau.
  A partir do ms de dezembro, Anglica dedicou todo o seu tempo ao negcio da rtisserie. A freguesia aumentava. A satisfao da corporao das floristas tinha 
sido uma bola de neve. O Galo Atrevido especializou-se em banquetes de confrarias. Profissionais felizes de "umedecer as entranhas" e de se empanturrar em boa companhia 
e para maior glria de seus santos patronos vieram realizar seus festins sob as vigas envernizadas de novo e permanentemente guarnecidas do que se podia achar de 
mais belo em matria de caa e charcutaria.
  Anglica havia-se devotado a saciar gargantas e estmagos exigentes, como se montasse um cavalo indcil, mas que a levaria rpido e longe.
  Depois dos obreiros, artistas e comerciantes, comearam a vir ao Galo Atrevido bandos de libertinos, filsofos dissolutos e requintados, que professavam o direito 
a todos os prazeres, o desprezo  mulher e a negao de Deus. No era fcil escapar s suas mos indiscretas. Alm disso, eles se mostravam difceis quanto  escolha 
da comida. Mas, embora s vezes ficasse espantada com o cinismo deles, Anglica contava muito com eles para dar a seu estabelecimento um renome justificado, que 
lhe trouxesse uma clientela mais distinta.
  Houve tambm atores que, sem se desembaraarem de seus falsos narizes vermelhos, vinham, em grupo, admirar as proezas do macaco Piccolo.
  -        Eis nosso mestre em tudo - diziam. - Ah! Se esse animal fosse um homem, que comediante ele daria!
  Com a fronte suada, as faces cozidas pelo fogo, os dedos engordurados e enodoados, Anglica cumpria sua tarefa sem pensar em outra coisa que no no instante presente. 
Rir, gracejar, afastar vigorosamente uma mo muito atrevida, no lhe custava muito. Mexer os molhos, cortar os legumes, adornar os pratos era o que mais a divertia.
  Lembrava-se de que, quando menina, em Monteloup, ela ajudava voluntariamente na cozinha. Mas fora sobretudo em Toulouse que tomara gosto pelas coisas culinrias, 
sob a direo do requintadssimo Joffrey de Peyrac, cuja mesa, na Gaia Cincia, era clebre em todo o reino.
  Recordar-se de certos princpios sacrossantos da arte gastronmica, reconstituir certas receitas, causava-lhe, por vezes, uma alegria melanclica.
  Quando chegou o inverno, Florimond caiu gravemente enfermo. Seu nariz escorria, seus ouvidos supuravam.
  Vinte vezes por dia, Anglica aproveitava um momento de calma para subir correndo os sete pavimentos que levavam  mansarda onde o pequeno corpo febril prosseguia, 
solitrio, sua luta contra a morte. Ela tremia ao aproximar-se do leito e soltava um suspiro ao ver que seu filho ainda respirava. Docemente, ela acariciava a grande 
fronte saliente, aljofrada de fino suor.
  -        Meu amor! Minha lindeza! No me leve meu dbil menino, Senhor! No quererei mais nada na vida, meu Deus.
Voltarei s igrejas, farei rezar missas. Mas salve meu filhinho...
  No terceiro dia da doena de Florimond, mestre Bourjus, rabugento, "ordenou" a Anglica que descesse para instalar-se no grande quarto do primeiro andar, que ele 
deixara de ocupar aps a morte de sua mulher. Podia-se tratar decentemente uma criana numa mansarda no maior que um guarda-roupa, onde, de noite, se amontoavam 
mais de seis pessoas, contando com o smio? Eram bem maneiras de cigana, de mendiga sem entranhas!...
  Florimond sarou, mas Anglica ficou no grande quarto do primeiro andar, com seus dois filhos, enquanto uma segunda mansarda era concedida aos garotos Flipot e 
Linot. Rosina continuou a compartilhar o leito de Brbara.
  -        E desejo muito - concluiu mestre Bourjus, rubro de clera - que no continue a impor-me o vexame de ver, todos os dias, uma sacripanta jogar lenha no 
meu ptio, sob o nariz de todos os vizinhos. Se voc quer aquecer-se, basta apanh-la no meu depsito.
  Anglica fez, ento, saber  Condessa de Soissons, por intermdio do seu lacaio, que no tinha mais necessidade de suas ddivas e que agradecia sua caridosa interveno. 
Deu uma propina ao domstico, da ltima vez que ele veio. Este, que desde o primeiro dia, no se havia refeito de seu pasmo, abanou a cabea.
  - Tenho sido forado a fazer muitas coisas em minha vida, mas nunca, a ver uma mulher como voc!
  - No haveria seno meio mal - replicou Anglica -, se eu no tivesse sido forada a v-lo tambm.
  Nos ltimos tempos, ela distribura os alimentos e as vestes enviadas pela Sra. de Soissons aos mendigos, cada vez mais numerosos, que se amontoavam nas proximidades 
do Galo Atrevido. Entre eles surgiram muitas Caras conhecidas, ameaadoras e taciturnas. Ela lhes dava, como quem procura conciliar-se com foras hostis.
  Silenciosamente, ela reclamava daqueles miserveis o direito  liberdade. Mas eles se tornavam cada dia mais exigentes. A torrente de seus andrajos e de suas muletas 
assaltava o seu refgio. Os prprios fregueses do Galo Atrevido protestavam contra aquela invaso, dizendo que na vizinhana da rtisserie formigavam mais pedintes 
do que num prtico de igreja. O mau cheiro que exalavam e suas feridas purulentas no davam muito apetite.
  Mestre Bourjus enfureceu-se, dessa vez sem fingimento:
  -        Voc os atrai como o gato-de-alglia atrai as serpentes e os bichos-de-conta. Deixe de dar-lhes esmola, e livre-me dessa vermina; do contrrio serei obrigado 
a me separar de voc.
  Ela protestou violentamente:
  - Por que imagina que sua casa  mais assediada pelos mendigos do que as outras? Ainda no ouviu os rumores da fome que se espalha pelo reino? Dizem que os camponeses 
esfaimados entram, como exrcitos, nas cidades e que os pobres se multiplicam... E o inverno que assim o quer,  a penria...
  Mas Anglica tinha medo.
  De noite, no grande quarto silencioso, onde somente se ouvia a respirao de seus dois filhos, ela se levantava e, pela janela, olhava as guas pesadas do Sena, 
que brilhavam ao luar. Ao p da casa, havia uma praia arenosa invadida pelos detritos das rtisseries: penas, patas, vsceras, restos que no se podiam servir. Ces 
e miserveis vinham ali procurar alimento. Era a hora em que os gritos e os assovios dos bandidos se elevavam em Paris. Anglica sabia que a alguns passos  esquerda, 
alm do extremo do Pont au Change, comeava o Quai de Gesvres, cuja abbada sonora abrigava a mais bela caverna de bandidos da capital. Ela se lembrava daquele antro 
mido e vasto, onde corria, em torrente,  sangue dos matadouros da Rue de la Vieille-Lanterne.
  Efetivamente, ela no mais estava misturada ao povo maldito da noite. Fazia parte daqueles que, em suas casas bem fechadas, se persignavam quando um grito agnico 
se elevava das ruas sombrias.
  J era muito. Mas o peso de seu passado no a deteria no caminho?
  Anglica dirigia-se ao leito em que dormiam Florimond e Cantor.
  Os longos clios negros de Florimond sombreavam sua face nacarada. Seus cabelos faziam-lhe uma grande aurola escura. Cantor tinha cabelos quase to densos e exuberantes. 
Mas seus cachos eram castanho-dourados, enquanto os de Florimond tinham sado negros como a asa de um corvo.
  Anglica reconhecia que Cantor era "do seu lado". Ele era da raa, ao mesmo tempo refinada e rstica, dos Sanc de Monteloup. Cantor lembrava Josselino por sua 
teimosia, Raimundo pela calma, Gontran pelo gosto da solido. Fisicamente ele se parecia muito com Madelon, sem ter sua sensibilidade.
  Aquele menino rolio, de olhos claros e perspicazes, j era todo um mundo, um resumo de virtudes e caprichos seculares. Desde que o deixassem livre e dono da sua 
independncia, ele cresceria sem dificuldades. Havendo Brbara querido enfaix-lo bem apertado, como todos os bebs da sua idade, o manso Cantor, depois de alguns 
instantes de surpresa, explodiu numa raiva pavorosa.
  E, ao cabo de duas horas, a vizinhana, ensurdecida, tinha exigido sua libertao.
  Brbara dizia que Anglica preferia Florimond e no se incomodava com o caula. Anglica respondia que no era absolutamente necessrio preocupar-se com Cantor. 
Toda a atitude de Cantor significava claramente que ele queria, antes de mais nada, ficar em paz, enquanto Florimond, sensvel, gostava que se ocupassem dele, que 
lhe falassem, que respondessem s suas perguntas. Florimond tinha necessidade de muitos cuidados e atenes.
  Entre Anglica e Cantor, o contato se estabelecia sem palavras e sem gestos. Eles eram da mesma raa. Ela o contemplava, admirava-lhe a carne rosada e gorda, bem 
como o raro valor daquele pequenino que ainda no tinha um ano e que, desde o nascimento - e mesmo antes do nascimento, lembrava-se ela -, tinha lutado por viver, 
tinha recusado obstinadamente a morte que, tantas vezes, ameaara sua dbil existncia.
  Cantor era a sua fora e Florimond a sua fragilidade. Eles representavam os dois plos de sua alma.
  Seguiram-se trs meses terrveis.
  O frio e a fome aumentavam. Os pobres tornavam-se ameaadores. Anglica tomou a resoluo de ir ver Traseiro de Pau. Havia muito tempo que ela devia ter feito 
aquilo: Barcarola havia-lhe aconselhado. Ela, porm, desfalecia  ideia de encontrar-se diante da casa do Grande Coesre.
  Uma vez mais, foi-lhe preciso dominar-se, vencer uma nova etapa, ganhar nova batalha. Numa noite escura e gelada, ela alcanou o Faubourg Saint-Denis.
  Levaram-na  presena de Traseiro de Pau. Ele estava no fundo de sua casa de lama, sobre uma espcie de trono, no meio da fumaa e da fuligem das lamparinas de 
leo.
  Diante dele, no cho, estava a bacia de cobre. Ela atirou-lhe uma bolsa bem pesada, e mostrou outro presente: um enorme quarto de carneiro, bem sangrento, e um 
po - manjares rarssimos na poca.
  -        J estava tardando! - rosnou Traseiro de Pau. - Fazia muito tempo que eu a esperava, marquesa. Sabe que jogou um jogo perigoso?
  -        Eu sei que, se ainda estou viva,  a voc que o devo.
Aproximou-se dele. Dos dois lados do trono do aleijado estavam as personagens de pesadelo da sua pavorosa realeza: o Grande e o Pequeno Eunuco, com suas insgnias 
de loucos - a vassoura e a lana com o co empalado -, e Pedro Bar-baas, com sua enorme barba e suas varas - emblemas do antigo mestre do Colgio de Navarra.
  Traseiro de Pau, impecavelmente engravatado, usava um magnfico chapu com duas voltas de plumas vermelhas.
  Anglica comprometeu-se a lhe trazer, ou a mandar trazer, todos os meses, a mesma quantia, e prometeu-lhe que jamais faltaria algo em sua "mesa". Mas, em troca, 
ela queria que a deixassem livre em sua nova existncia. Pediu tambm que os mendigos recebessem ordem de desimpedir a entrada de "sua" rtisserie.
  Ela compreendeu, pela expresso de Traseiro de Pau, que havia afinal agido como convinha, e que ele se achava satisfeito.
  Ao retirar-se, ela fez muito gravemente a reverncia.
  
  
  Anglica tinha medo. O estigma do passado, que poderia det-la no meio do caminho, ameaava destruir-lhe as esperanas. Estaria a Marquesa dos Anjos condenada 
ao eterno padecer e  derrota?
  Depois do suplicio no Ptio dos Milagres, entre os mendigos, uma etapa terrvel de sua vida parecia superada. Ela no s recuperara os filhos sequestrados, como 
tambm vencera a misria, tornando-se uma prspera burguesa: vivia com conforto e acalentava planos ambiciosos. Ousava at sonhar com um novo amor, quem sabe um 
casamento...
  Mas o destino vir confirmar seus amargos pressgios. O futuro lhe reserva uma nova tragdia e um escndalo. Ao mesmo tempo, chegaro a seus ouvidos estranhas 
revelaes sobre a morte do marido, o Conde de Peyrac.
  Em A Vingana de Anglica, apesar de novamente perseguida, ela furtar a seus inimigos um trunfo inesperado. Ento ter condies de planejar uma desforra fulminante 
- numa intriga to escabrosa que poder manchar os degraus do trono de Lus XIV...
  ANNE E SERGE GOLON
  
  OS AUTORES:
  ANNE E SERGE GOLON
  Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (Fiana), em 1928. onheceiam-se e casaram-se na frica, para onde Arme, 
com o dinheiro de um prmio literrio, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na poca: formado em geologia, mineralogia e qumica, cruzara o misterioso 
continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atrada por sua fama, Anne resolveu entrevist-lo.
  De volta  Frana, em 1952, j casados, tiveram a idia de escrever uma novela histrica ambientada no sculo XVII: Serge colhendo as informaes no Arquivo de 
Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado j na infncia.
  O sucesso de Anglica, Marquesa dos Anjos, lanado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vrios idiomas 
e transpostos para o cinema, fizeram da herona uma das personagens mais famosas do mundo.



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